Acadêmicos de Niterói estreia no Grupo Especial com enredo sobre Lula, o operário que virou presidente

Lula junto aos compositores do samba-enredo - Foto: Ricardo Stuckert/PR

O desfile das escolas de samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro começa no Domingo de Carnaval, 15 de fevereiro. Estreante no grupo especial do Rio de Janeiro, a Acadêmicos de Niterói irá abrir o carnaval na Sapucaí. O enredo é “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, do qual trata a história do presidente Lula.

A escola que estreia na elite das agremiações trará um samba-enredo narrado em primeira pessoa por uma retirante nordestina: Eurídice Ferreira de Mello, mais conhecida como Dona Lindu, mãe de Lula, que será o homenageado pelo enredo. O “esquenta” começa às 21h45, e o desfile está marcado para às 22h. 

O desfile da escola, no entanto, é alvo de ataques bolsonaristas, que criticam a homenagem ao presidente Lula. Nesta quarta-feira (11), a Justiça Federal rejeitou duas ações apresentadas por parlamentares da oposição que tentavam impedir o desfile da Acadêmicos de Niterói.

As ações questionavam suposta propaganda eleitoral antecipada e o uso de recursos públicos destinados à agremiação. Na decisão, o juiz federal Francisco Valle Brum entendeu que o caso não se enquadra como ação popular, instrumento jurídico aplicável apenas quando há ilegalidade e risco de dano ao patrimônio público. Com isso, os processos foram extintos sem análise do mérito.

MULUNGU

O mulungu (mulungu-da-caatinga), citado no título do samba, é uma árvore de copa larga e flores avermelhadas, de altura de 12 a 18 metros, com tronco de até 80 centímetros de diâmetro, onde as crianças do agreste costumavam brincar, como faziam Lula e os seus irmãos.

A jornada do menino do sertão pernambucano que virou operário no ABC paulista, líder sindical, político e presidente da República merece reconhecimento, defende o presidente da Acadêmicos de Niterói, Wallace Palhares.

“Eu costumo falar que, independentemente de as pessoas gostarem ou não [dele], pela política, é preciso respeitar a história de uma pessoa que saiu lá do interior de Pernambuco, foi para São Paulo e hoje ocupa a maior cadeira desse país”, disse.

É essa trajetória que a Acadêmicos de Niterói leva para a Avenida. A história de um menino que sonhava do alto de um mulungu, virou operário, líder e presidente.

Ensaio Técnico da Acadêmicos de Niteroi – Foto: Divulgação

O SAMBA

Para além da trajetória do político, o samba-enredo faz referência à melhoria das condições de vida da população ao longo dos três mandatos de Lula, como no combate à fome e na ampliação de acesso à educação.

A letra do samba ainda relembra o ex-deputado Rubens Paiva, a estilista Zuzu Angel, o jornalista Wladimir Herzog – mortos pela ditadura militar (1964-1985) ─ e o sociólogo Betinho (Hebert de Sousa) e seu irmão, o cartunista Henfil.

Outra referência do samba não é citada explicitamente. Parte do refrão tem os versos “Olê, olê, olê, olá/Vai passar nessa avenida mais um samba popular”, uma referência à letra do samba Vai passar, de Chico Buarque.

“Fui eu que coloquei na letra. Eu queria que as pessoas lembrassem tanto do samba Vai passar, como se lembrassem do Chico Buarque”, admite Teresa Cristina.

Para a cantora, “o Chico Buarque sempre esteve ao lado do Brasil. A gente sempre sabe que pode contar com ele, um artista que nunca se dobrou à bruta autoridade, à ditadura, a generais. O Chico é um homem muito corajoso”.

Ainda, na letra do samba, Eurídice Ferreira de Mello, mãe de oito filhos, narra a viagem de “13 noites e 13 dias” com a família, em um caminhão “pau-de-arara”, entre Garanhuns, no interior de Pernambuco, e a periferia de Guarujá, no litoral paulista.

A cantora e compositora Teresa Cristina, uma das autoras do samba-enredo, conta que reunir a família era a motivação daquela travessia.

“Ela fez isso por amor, né? Ela veio atrás do pai [das crianças]”, explica. “O samba é sobre o Brasil. É sobre um Silva. É sobre sobreviventes”, disse, Teresa Cristina que assina o samba em pareceria com André Diniz, Paulo César Feital, Fred Camacho, Junior Fionda, Arlindinho Cruz, Lequinho, Thiago Oliveira e Tem-Tem Jr.

Dona Lindu faleceu em 1980, aos 64 anos. Ao escutar o samba e rever memórias, Lula se comoveu, revela Teresa Cristina.

“Quando a gente falou para ele: ‘olha, o samba é uma história sendo contada pela sua mãe’, o olho dele na hora deu aquela marejada”.

“[Depois], ele ouviu o samba e chorou copiosamente. Começou a falar da mãe, falou do pai. Ficou bem emocionado, sabe? Com o rosto todo vermelho. Senti que ele ficou feliz de ter a história dele imortalizada em um samba-enredo.”

Veja o samba na íntegra: 

Autores: Teresa Cristina, André Diniz, Paulo Cesar Feital, Fred Camacho, Junior Fionda, Arlindinho, Lequinho, Thiago Oliveira e Tem-Tem Jr

Intérprete: Emerson Dias

Olê, olê, olê, olá
Vai passar nessa Avenida mais um samba popular
Olê, olê, olê, olá, Lula! Lula!

Eu vi brilhar a estrela de um país
No choro de Luiz, à luz de Garanhuns
Lugar onde a pobreza e o pranto
Se dividem para tantos
E a riqueza multiplica para alguns
Me via nos olhares dos meus filhos
Assombrados e vazios com o peito em pedaços
Parti atrás do amor e dos meus sonhos
Peguei os meus meninos pelos braços
Brilhou um sol da pátria incessante
Pro destino retirante te levei, Luiz Inácio
Por ironia, 13 noites, 13 dias
Me guiou Santa Luzia, São José alumiou
Da esquerda de Deus Pai, da luta sindical
À liderança mundial

Vi a esperança crescer e o povo seguir sua voz
Revolucionário é saber escolher os seus heróis
Zuzu Angel, Henfil, Vladimir
Que pagaram o preço da raiva
Nós ainda estamos aqui no Brasil de Rubens Paiva

Lute pra vencer, aceite se perder
Se o ideal valer, nunca desista
Não é digno fugir, nem tão pouco permitir
Leiloarem isso aqui a prazo, à vista
É… tem filho de pobre virando doutor
Comida na mesa do trabalhador
A fome tem pressa, Betinho dizia
É… teu legado é espelho das minhas lições
Sem temer tarifas e sanções
Assim que se firma a soberania
Sem mitos falsos, sem anistia

Quanto custa a fome? Quanto importa a vida?
Nosso sobrenome é Brasil da Silva
Vale uma nação, vale um grande enredo
Em Niterói, o amor venceu o medo
Vale uma nação, vale um grande enredo
Em Niterói, o amor venceu o medo

FICHA TÉCNICA

ACADÊMICOS DE NITERÓI

Fundação: 26 de março de 2018

Cores: 🔵⚪ Azul e Branco

Presidente: Wallace Palhares

Carnavalesco: Tiago Martins

Diretores de Carnaval: Hamilton Junior, Saulo Tinoco e Ricardo Simpatia

Intérprete: Emerson Dias

Mestre de Bateria: Branco

Rainha de Bateria: Vanessa Rangeli

Mestre-Sala e Porta-Bandeira: Emanuel Lima e Tainara Mathias

Comissão de Frente: Marlon Cruz e Handerson Big

Compartilhe

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *