No Acordo Comercial Milei-Trump, a Argentina assume todas obrigações e não recebe nada

Milei e Trump. O "Acordo" não foi ainda publicado em espanhol, veio à tona só em inglês. (foto: Fabrice Coffrini/AFP)

O jornal Pagina 12 registrou o retorno das “relações carnais” entre Buenos Aires e Washington praticadas pelo entreguista precursor, Carlos Menem

“A Argentina e os Estados Unidos assinaram um acordo comercial no qual a Argentina assume 113 obrigações, das quais apenas 8 são mútuas e 2 são de responsabilidade exclusiva dos EUA”, denuncia o jornal Página 12, sobre o recém anunciado acordo Milei-Trump, sob o título “A Argentina dá tudo e não recebe nada: o que dizem as letras miúdas do acordo com os Estados Unidos”.

A que acrescenta: “as relações sexuais estão de volta”, registrando o retorno daquilo que, ao tempo de Carlos Menem, ficou conhecido como “relações carnais”.

O Ministério das Relações Exteriores argentino, que sequer publicou o texto em espanhol, emitiu um comunicado destacando conquistas que não constam no documento oficial, de acordo com o texto em inglês divulgado pela embaixada norte-americana.

A Argentina deve permitir a entrada no país, sem inspeções adicionais, de mercadorias originárias dos Estados Unidos que estejam em conformidade com os regulamentos técnicos e procedimentos de avaliação norte-americanos.

Assim, a aprovação da Food and Drug Administration (FDA)será suficiente para a importação de medicamentos, alimentos e produtos químicos, entre outros, pela Argentina. O mesmo se aplica ao Food Safety and Inspection Service (FSIS) , o serviço norte-americano de vigilância sanitária. Bastará autorização do FSIS de carnes, aves e seus derivados para que entrem na Argentina.

O acordo não estabelece benefícios significativos para a agricultura argentina em troca da importação de bens industriais; pelo contrário, a Argentina se abre em ambos os setores.

O acordo estabelece quotas anuais para alimentos e outros bens produzidos nos Estados Unidos que entrarão no país sem o pagamento de tarifas, tais como: 80.000 toneladas de carne; 1000 toneladas de queijo; 870 toneladas de amêndoas; 80 toneladas de pistache; 1100 toneladas de batatas; 80.000 litros de vinho e 10.000 veículos.

Máquinas agrícolas e de construção rodoviária, como colheitadeiras e tratores, terão entrada permitida sem impostos, mas não haverá cota nesse caso . O mesmo se aplica a produtos químicos, como herbicidas, e suprimentos médicos, como mesas cirúrgicas e camas hospitalares.

CARNE MOÍDA

O governo argentino anunciou uma suposta cota de 100 mil toneladas de carne bovina argentina que entraria nos Estados Unidos sem pagar impostos, mas não é o que consta do acordo, adverte o Página 12.

“É uma decisão do governo dos Estados Unidos que não está incluída no acordo”, disse o ministro das Relações Exteriores, Pablo Quirno, em uma recente entrevista na televisão. Se implementada, ficará inteiramente a critério do governo americano.

“Não parece que houve uma negociação, mas sim uma concessão por parte da Argentina. A única coisa que foi defendida foi a preferência atual de um governo, não os interesses nacionais”, disse Juan Gabriel Tokatlian, doutor em Relações Internacionais, ao jornal argentino.

Segundo a Reuters, essa compra emergencial foi decidida pelo governo Trump para tentar baratear o preço da carne moída, diante da alta de preços de alimentos em pleno ano eleitoral, e não é bem vista pelos pecuaristas norte-americanos – estes, aliás, bases do trumpismo.

“Poderíamos imaginar que seria um acordo para importar mais produtos agrícolas para os Estados Unidos, o que também não geraria empregos, já que é um setor com pouca mão de obra. Mas não é nem isso; a desigualdade é ainda maior”, alerta Guido Bambini, pesquisador econômico do Centro de Economia Política Argentina (CEPA).

Ao mesmo tempo, as taxas de importação são eliminadas para laptops, cabos de fibra óptica e outros itens tecnológicos, sem cotas. Também não podem ser cobrados impostos sobre softwares ou plataformas de streaming. Este ponto é recíproco, mas na prática beneficia os Estados Unidos, já que é a principal potência mundial nesses setores.

TRATAMENTO PREFERENCIAL PARA CARTÉIS DOS EUA

O acordo também assegura tratamento preferencial para empresas americanas. A Argentina permitirá e facilitará o investimento dos EUA em seu território para a exploração e o aproveitamento de minerais críticos e recursos energéticos, bem como para o fornecimento de serviços de geração de energia, telecomunicações, transporte e infraestrutura.

A ponto de as empresas norte-americanas deverem ser “as primeiras notificadas” quando as licitações de petróleo e mineração forem abertas, denunciou o analista internacional e geopolítico, Eduardo Martínez.

O acordo acrescenta que a Argentina não deve impor novas barreiras aos fornecedores norte-americanos nem tratá-los de forma menos favorável do que as empresas nacionais ou de qualquer outro país. Ao mesmo tempo, o país se compromete a “combater as práticas comerciais desleais de empresas de terceiros países”, cláusula que, obviamente, tem como alvo a China.

Conforme o acordo, os EUA acompanharão a política industrial e de comércio exterior da Argentina. Por um lado, a Argentina não poderá impor impostos que “discriminem” as empresas norte-americanas. Por outro lado, insiste que, se os Estados Unidos impuserem medidas de fronteira ou comerciais para defender sua segurança nacional, nosso país deverá adotar imediatamente as mesmas medidas “quando apropriado”.

O governo Milei também se compromete a cooperar com os EUA “de maneira consistente” para garantir o cumprimento das sanções que Washington aplica a diferentes países.

No setor nuclear e energético, será proibida a compra de reatores nucleares, barras de combustível ou urânio enriquecido de determinados países, com foco na China e na Rússia .

A Argentina não poderá subsidiar suas empresas públicas “de maneira que distorça o comércio internacional” e, se solicitado pelos Estados Unidos, deverá fornecer informações sobre toda a assistência que concede às empresas manufatureiras nacionais.

TROCA-TROCA

“O aprofundamento da parceria entre o presidente Trump e o presidente Milei serve como um modelo de como os países das Américas, do Alasca à Terra do Fogo, podem avançar em nossas ambições compartilhadas e proteger nossa segurança econômica e nacional”, afirmou o embaixador norte-americano e negociador comercial Jamieson Greer, sem esclarecer a que se refere como esse “nossa”.

Greer enfatizou que o acordo “reduz barreiras comerciais de longa data e oferece acesso significativo ao mercado para exportadores” dos EUA. A expectativa, acrescentou, é expandir negócios que vão de veículos automotores a produtos agrícolas.

Por sua vez, o governo Milei se superou na prostração diante de Washington, como não se via desde os “bons tempos” de Carlos Menem e Domingo Cavallo.

“A assinatura deste acordo, alcançado graças à visão de abertura e de integração regional do Presidente Javier G. Milei, e à sua excelente relação com o Presidente dos Estados Unidos, Donald J. Trump, é mais um pilar que permite que hoje a Argentina volte a fazer parte do mundo ocidental. Nosso país se encontra diante de uma situação única em sua história para recuperar a liderança global, tanto política quanto econômica, e demonstrar que a Argentina tem tudo para recuperar sua grandeza de outrora.”

A expressão “relações carnais” foi cunhada pelo então ministro das Relações Exteriores argentino, Guido di Tella, descrevendo o alinhamento total do governo de Carlos Menem com os EUA e o Ocidente, visando pertencer ao “Primeiro Mundo”. E que, no plano econômico, sob Domingo Cavallo, se traduziu na “convertibilidade na razão “um peso= um dólar e nas privatizações selvagens, que levaram à desindustrialização, ao desemprego e à crise de 2001, quando o sucessor, Fernando De La Rúa, saiu fugido da Casa Rosada e renunciou, após o país quebrar e explodir nas ruas.

Desde que ascendeu ao poder, o fascista fantasiado de “antissistema”, Javier Milei, adotou a “motosserra” como símbolo de sua campanha e de sua proposta para a Argentina e não perde oportunidade de bajular a Trump e prometer levar o país de “volta ao Primeiro Mundo”.

MIGALHAS

“A Argentina ganha pouco ou nada com o acordo”, enfatiza o Página 12. Produtos como chá, erva-mate, mangas e frutas tropicais, alguns sucos e café, entre outros, entrarão nos Estados Unidos sem pagar impostos .

Em relação a produtos de origem animal, produtos farmacêuticos, aço e alumínio, desde que sejam destinados à aviação civil e não a outros fins industriais, os Estados Unidos prometem não impor tarifas adicionais, o que significa que elas permanecerão nos 10% padrão.

“Os benefícios para a Argentina são muito limitados. Em alguns casos, propõe-se apenas a eliminação de tarifas adicionais impostas por Trump em abril; não há nenhuma melhoria. Além disso, inclui muitos produtos que a Argentina não exporta, como insumos para a construção de aeronaves ou para o setor farmacêutico”, acrescenta Julieta Zelicovich, doutora em Relações Internacionais e pesquisadora da Fundar.

Por sua vez, Tokatlian afirma que “o governo argentino se deu ao luxo de não consultar líderes empresariais, trabalhadores e políticos sobre o andamento de suas reuniões ”. “Os atores sociais e políticos potencialmente afetados pelos acordos nunca demonstraram a menor capacidade de ação coletiva”, reflete ele.

“O único argumento que nos apresentam é que os EUA eliminam as tarifas sobre produtos que eles não têm. É um déficit em tudo, é feito sob medida para os Estados Unidos”, diz Martínez.

Após aprovação pelos legislativos das duas partes e troca de notificações, o acordo entra em vigor 60 dias. Qualquer uma das partes poderá rescindir o acordo, mas deverá notificar a outra com pelo menos seis meses de antecedência.

O governo argentino asseverou que o acordo é “compatível” com o Mercosul, o que está sob análise dos países parceiros, Brasil, Uruguai e Paraguai. “Tudo o que estamos fazendo em [termos de] acordos bilaterais são acordos que obviamente estão permitidos dentro do acordo com os países participantes do Mercosul”, expressou na sexta-feira (6) o chanceler Quirno.

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