
CARLOS LOPES
[O texto abaixo foi escrito como prefácio de “O Caso da Vara e outros casos da escravidão“. O leitor que quiser contribuir com a publicação do livro, poderá acessar https://www.catarse.me/o_caso_machado_de_assis]
Hoje é um consenso – a rigor, uma unanimidade – que Machado de Assis é o maior escritor da nossa história literária.
Não é algo fácil atingir esse posto em uma literatura onde existem artistas como Graciliano Ramos e Guimarães Rosa, para ficarmos nos prosadores. Sobretudo, considerando que Machado, mulato (ou, se o leitor quiser, negro), escreveu e publicou suas obras principalmente em um Brasil escravagista, onde a própria superestrutura política e jurídica – o império – tinha como fundamento a escravidão.
Mas, exatamente nessa situação de Machado no século XIX e princípios do século XX, está um dos grandes problemas – melhor seria dizer, uma das grandes injustiças – em relação ao que produziu.
Frequentemente o grande escritor é retratado como indiferente à escravidão, logo ele, abolicionista e amigo de abolicionistas como Joaquim Serra e Joaquim Nabuco.
Esse julgamento mostra, mais do que pouca atenção à obra de Machado, uma má vontade infinita (e preconceituosa) para com um homem que abriu os seus caminhos do modo mais aflitivo – porém, mais hábil – possível.
No primeiro romance de sua segunda fase, Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), por exemplo, a escravidão aparece da seguinte maneira:
Desde os cinco anos merecera eu a alcunha de “menino diabo”; e verdadeiramente não era outra coisa; fui dos mais malignos do meu tempo, arguto, indiscreto, traquinas e voluntarioso. Por exemplo, um dia quebrei a cabeça de uma escrava, porque me negara uma colher do doce de coco que estava fazendo, e, não contente com o malefício, deitei um punhado de cinza ao tacho, e, não satisfeito da travessura, fui dizer à minha mãe que a escrava é que estragara o doce “por pirraça”; e eu tinha apenas seis anos. Prudêncio, um moleque de casa, era o meu cavalo de todos os dias; punha as mãos no chão, recebia um cordel nos queixos, à guisa de freio, eu trepava-lhe ao dorso, com uma varinha na mão, fustigava-o, dava mil voltas a um e outro lado, e ele obedecia, — algumas vezes gemendo, — mas obedecia sem dizer palavra, ou, quando muito, um — “ai, nhonhô!” — ao que eu retorquia: — “Cala a boca, besta!”
Este é o mesmo Prudêncio que, no capítulo LXVIII do livro, chicoteia, como instrumento da escravidão, outro negro.
Quanto ao Cotrim, cunhado de Brás Cubas, eis o seu retrato, feito por outro escravagista, isto é, o próprio Brás Cubas:
Reconheço que era um modelo. Arguiam-no de avareza, e cuido que tinham razão; mas a avareza é apenas a exageração de uma virtude e as virtudes devem ser como os orçamentos: melhor é o saldo que o deficit. Como era muito seco de maneiras tinha inimigos, que chegavam a acusá-lo de bárbaro. O único fato alegado neste particular era o de mandar com frequência escravos ao calabouço, donde eles desciam a escorrer sangue; mas, além de que ele só mandava os perversos e os fujões, ocorre que, tendo longamente contrabandeado em escravos, habituara-se de certo modo ao trato um pouco mais duro que esse gênero de negócio requeria, e não se pode honestamente atribuir à índole original de um homem o que é puro efeito de relações sociais.
Não nos alongaremos mais com essas pequenas lembranças das relações de Machado com a escravidão e sua crueldade intrínseca. Apenas acrescentaremos um trecho do capítulo XII, intitulado “Um episódio de 1814”. A cena é um banquete, promovido pelo pai de Brás Cubas, em celebração à derrota de Napoleão Bonaparte:
Um sujeito, ao pé de mim, dava a outro notícia recente dos negros novos, que estavam a vir, segundo cartas que recebera de Loanda, uma carta em que o sobrinho lhe dizia ter já negociado cerca de quarenta cabeças, e outra carta em que… Trazia-as justamente na algibeira, mas não as podia ler naquela ocasião. O que afiançava é que podíamos contar, só nessa viagem, uns cento e vinte negros, pelo menos.
Somente rememoraremos, aqui, o enforcamento a que assiste Rubião, em Quincas Borba (1891), ou os “escravos de ganho”, às custas dos quais vivia a mãe de Bentinho, em Dom Casmurro (1899).
Para nós, é suficiente. Se o leitor necessitar de mais informações sobre esse lado da obra de Machado, sugerimos o nosso artigo Machado de Assis e a luta pelo fim da escravatura, publicado na Hora do Povo de 13 de maio de 2016.
Graciliano Ramos afirmou que Machado foi, antes de tudo, um contista. Não assinamos embaixo desse juízo, mas é verdade que ele foi um contista genial, comparável a Maupassant, Tchekov e outros escritores do gênero, em literaturas estrangeiras.
Pois também no conto, Machado mostrou o sadismo da escravidão.
Os três contos reunidos na coletânea que prefaciamos aqui são uma demonstração magistral, técnica e humana (se é possível técnica sem uma profunda humanidade), desse conteúdo social e político, que então abalava o império e o escravismo.
O caso da vara, publicado originalmente na Gazeta de Notícias (1891) – e depois reproduzido no livro Páginas Recolhidas, de 1899 – é uma história sobre o medo da escrava Lucrécia, espancada rotineiramente por Sinhá Rita, e a covardia de Damião, que entrega a vara para que a negra seja castigada.
O delito pelo qual Sinhá Rita quer castigar Lucrécia é, hoje, ridículo, mas não naquela época: ela atrasara o trabalho para ajudar o seminarista Damião. Este quer ajudar Lucrécia, mas tem medo de voltar ao seminário. Daí, o final do conto:
Lucrécia fez um esforço, soltou-se das mãos da senhora, e fugiu para dentro; a senhora foi atrás e agarrou-a.
— Anda cá!
— Minha senhora, me perdoe!
— Não perdoo, não.
E tornaram ambas à sala, uma presa pela orelha, debatendo-se, chorando e pedindo; a outra dizendo que não, que a havia de castigar.
— Onde está a vara?
A vara estava à cabeceira da marquesa, do outro lado da sala. Sinhá Rita, não querendo soltar a pequena, bradou ao seminarista.
— Sr. Damião, dê-me aquela vara, faz favor?
Damião ficou frio… Cruel instante! Uma nuvem passou-lhe pelos olhos. Sim, tinha jurado apadrinhar a pequena, que por causa dele, atrasara o trabalho…
— Dê-me a vara, Sr. Damião!
Damião chegou a caminhar na direção da marquesa. A negrinha pediu-lhe então por tudo o que houvesse mais sagrado, pela mãe, pelo pai, por Nosso Senhor…
— Me acuda, meu sinhô moço!
Sinhá Rita, com a cara em fogo e os olhos esbugalhados, instava pela vara, sem largar a negrinha, agora presa de um acesso de tosse. Damião sentiu-se compungido; mas ele precisava tanto sair do seminário! Chegou à marquesa, pegou na vara e entregou-a a Sinhá Rita.
Trata-se de uma obra-prima sobre o sofrimento dos negros, o sadismo dos senhores e a covardia dos brancos diante da escravidão.
Pai contra mãe, publicado em 1906, no livro Relíquias de Casa Velha (o mesmo livro em que Machado publicou “A Carolina”, seu poema mais famoso), começa com um retrato passado, e desolador, da escravidão:
A escravidão levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais. Não cito alguns aparelhos senão por se ligarem a certo ofício. Um deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a máscara de folha de flandres. A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca. Tinha só três buracos, dous para ver, um para respirar, e era fechada atrás da cabeça por um cadeado. Com o vício de beber, perdiam a tentação de furtar, porque geralmente era dos vinténs do senhor que eles tiravam com que matar a sede, e aí ficavam dous pecados extintos, e a sobriedade e a honestidade certas. Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, à venda, na porta das lojas. Mas não cuidemos de máscaras.
Cândido Neves tem por ofício, na falta de outro, capturar escravos que fugiram – e, se não capturar escravos, não consegue sustentar a família, pois não consegue outro emprego. A desgraça de todo o conto é que Cândido, por não conseguir trabalho, nem conseguir capturar escravos fugitivos, está à beira de colocar o filho na roda dos enjeitados, para evitar a fome.
Mas é então que Arminda, uma escrava fugida e grávida, lhe atravessa o caminho.
… Cândido Neves, com as mãos robustas, atava-lhe os pulsos e dizia que andasse. A escrava quis gritar, parece que chegou a soltar alguma voz mais alta que de costume, mas entendeu logo que ninguém viria libertá-la, ao contrário. Pediu então que a soltasse pelo amor de Deus.
– Estou grávida, meu senhor! exclamou. Se Vossa Senhoria tem algum filho, peço-lhe por amor dele que me solte; eu serei tua escrava, vou servi-lo pelo tempo que quiser. Me solte, meu senhor moço! – Siga! repetiu Cândido Neves. – Me solte! – Não quero demoras; siga!
Houve aqui luta, porque a escrava, gemendo, arrastava-se a si e ao filho. Quem passava ou estava à porta de uma loja, compreendia o que era e naturalmente não acudia. Arminda ia alegando que o senhor era muito mau, e provavelmente a castigaria com açoutes, – cousa que, no estado em que ela estava, seria pior de sentir. Com certeza, ele lhe mandaria dar açoutes.
– Você é que tem culpa. Quem lhe manda fazer filhos e fugir depois? Perguntou Cândido Neves.
Não estava em maré de riso, por causa do filho que lá ficara na farmácia, à espera dele. Também é certo que não costumava dizer grandes cousas. Foi arrastando a escrava pela Rua dos Ourives, em direção à da Alfândega, onde residia o senhor. Na esquina desta a luta cresceu; a escrava pôs os pés à parede, recuou com grande esforço, inutilmente. O que alcançou foi, apesar de ser a casa próxima, gastar mais tempo em lá chegar do que devera. Chegou, enfim, arrastada, desesperada, arquejando. Ainda ali ajoelhou-se, mas em vão. O senhor estava em casa, acudiu ao chamado e ao rumor.
– Aqui está a fujona, disse Cândido Neves. – É ela mesma. – Meu senhor! – Anda, entra…
Arminda caiu no corredor. Ali mesmo o senhor da escrava abriu a carteira e tirou os cem mil-réis de gratificação. Cândido Neves guardou as duas notas de cinquenta mil-réis, enquanto o senhor novamente dizia à escrava que entrasse. No chão, onde jazia, levada do medo e da dor, e após algum tempo de luta a escrava abortou.
O fruto de algum tempo entrou sem vida neste mundo, entre os gemidos da mãe e os gestos de desespero do dono. Cândido Neves viu todo esse espetáculo. Não sabia que horas eram. Quaisquer que fossem, urgia correr à Rua da Ajuda, e foi o que ele fez sem querer conhecer as consequências do desastre.
Quando lá chegou, viu o farmacêutico sozinho, sem o filho que lhe entregara. Quis esganá-lo. Felizmente, o farmacêutico explicou tudo a tempo; o menino estava lá dentro com a família, e ambos entraram. O pai recebeu o filho com a mesma fúria com que pegara a escrava fujona de há pouco, fúria diversa, naturalmente, fúria de amor.
Agradeceu depressa e mal, e saiu às carreiras, não para a Roda dos enjeitados, mas para a casa de empréstimo com o filho e os cem mil-réis de gratificação. Tia Mônica, ouvida a explicação, perdoou a volta do pequeno, uma vez que trazia os cem mil-réis. Disse, é verdade, algumas palavras duras contra a escrava, por causa do aborto, além da fuga.
Cândido Neves, beijando o filho, entre lágrimas, verdadeiras, abençoava a fuga e não se lhe dava do aborto.
– Nem todas as crianças vingam, bateu-lhe o coração.
Por fim, Mariana, publicado em 1871, no Jornal das Famílias, é um dos contos mais desconhecidos de Machado. E, antes que o leitor machadiano proteste, advertimos que este não é o mesmo conto, de igual nome, que foi publicado no livro Várias Histórias (1896).
Trata-se de uma história de amor entre uma escrava e um senhor branco, em que a escrava prefere a morte do que viver separada. De certa forma, ela prefere a morte à escravidão – seu amor permeia essa decisão. O que separa o branco da escrava é, exatamente, a escravidão.
Mas o fim do conto é, já naquela época, uma referência à insensibilidade dos senhores de escravos diante do sofrimento destes. Coutinho, o homem pelo qual Mariana se apaixona, considera:
Creio que posso dizer ainda hoje que todas as mulheres de quem tenho sido amado, nenhuma me amou mais do que aquela. Sem alimentar-se de nenhuma esperança, entregou-se alegremente ao fogo do martírio; amor obscuro, silencioso, desesperado, inspirando o riso ou a indignação, mas no fundo, amor imenso e profundo, sincero e inalterável.
Porém, logo em seguida, diz o narrador do conto:
Coutinho concluiu assim a sua narração, que foi ouvida com tristeza por todos nós. Mas daí a pouco saíamos pela rua do Ouvidor fora, examinando os pés das damas que desciam dos carros, e fazendo a esse respeito mil reflexões mais ou menos engraçadas e oportunas. Duas horas de conversa tinha-nos restituído a mocidade.
Seria possível dizer muito mais sobre a obra de Machado de Assis e sua relação com o escravismo da época. Por exemplo, seria possível abordar o magnífico O espelho, que Lúcia Miguel-Pereira, a melhor biógrafa de Machado, considera o seu melhor conto. Nele, os senhores de escravo existem apenas como imagem especular dos escravos. Quando os escravos não mais existem, a própria imagem dos senhores desaparece no espelho (v. de nossa autoria, Brás Cubas, Quincas Borba e o Espelho do senhor de escravos, em Hora do Povo, 6 de agosto de 2020).
Mas é tempo de terminar. Já fomos longe demais neste prefácio. Cabe ao leitor usufruir os contos aqui reunidos como algumas das obras-primas, não somente da nossa literatura, mas da literatura e do humanismo mundiais.
Carlos Lopes é médico, escritor, diretor de redação do jornal Hora do Povo e vice-presidente do PCdoB.