O Idiota no Estreito sem Saída


DAVI MOLINARI

Eu estava ali, como sempre, filando sessão de graça no happy hour do Fale Mais Sobre Isso. O boteco era território de democracia plena: mesas lá fora, mesas lá dentro, operário debatendo com professor, estudante tretando com artista e aquele tio do Uber que começa com “não sou de direita, mas…” e termina com um editorial completo.

Todo mundo revoltado.

Os jovens — principalmente os estudantes — cuspindo fogo contra as ameaças da família Bolsonaro à democracia e à cultura brasileira. Do outro lado, os conservadores de plantão miravam o STF como se fosse alvo de campeonato de tiro.

E, no meio disso tudo, o Doutor.

Meu psicanalista de mesa.

Silencioso.

Um “hmm” aqui, uma sobrancelha arqueada ali. No bloquinho, recém-saído do bolso do paletó como se fosse arma branca, ele anotava tudo. Absolutamente tudo. Às vezes, acho que ele não faz diagnóstico — faz ata.

Foi quando ela entrou.

A Diva.

O bar inteiro deu aquele vozerio coletivo, tipo quase gol em dia de jogo. Um murmúrio respeitoso, quase religioso. Ela era a mais linda do lugar — mas não só isso: inteligência afiada, coragem sem burocracia e uma independência que deixava até o garçom com crise existencial.

Consciente, mandou em alto e bom som, pra quebrar o clima:

— Juvenal, querido… I’m home!

Juvenal, nosso chanceler das relações exteriores, parou tudo. Fez uma mesura digna da monarquia decadente, puxou a cadeira, girou o encosto para apoio dos braços, como ela gostava — num ritual que já devia constar no patrimônio imaterial do boteco.

Em dois segundos, a mesa dela virou o G20 da sedução.

Eu fiquei olhando de longe.

Aquele olhar clássico: mil pensamentos, nenhuma atitude. Um programa inteiro rodando na cabeça… sem botão de “upload”.

O Doutor me observava.

Anotando.

Provavelmente: “paciente evolui bem na teoria, segue inapto na prática.”

— Doutor — falei, já meio cínico —, eu sou um idiota?

O Doutor tirou o bloquinho, rabiscou algo que parecia CID-10 com asteriscos de “caso perdido”. Eu continuei:

— Ela exige um voo alto, Doutor. F-15 em missão de guerra. Eu sou mais avião de patrulha. Fico circulando, analisando vento, sem coragem de descer.

Antes que o Doutor murmurasse qualquer coisa, o Juvenal se teletransportou da mesa da Diva pra nossa, pousando duas tulipas estupidamente geladas e a divina crocância das manjubinhas.

— Não, meu amigo — disse ele, apontando o queixo pra mesa dela —, o máximo que você pode ser é o idiota de Dostoiévski. Inocência genuína. Essa mulher aí sabe o que quer. Vai te dizer que bares, cafés e pubs foram os primeiros espaços onde mulheres podiam ir sozinhas, quando os parques ainda eram da família real. Ela quer conversa de verdade. Prospectar terreno. Sem segundas intenções.

Eu matei meio chope e ri, amargo.

— Não sei não, Juvenal. Me parece uma batalha perdida. Tipo Trump no Estreito de Ormuz — sem saída. O cara em plena dissociação da realidade, narcisismo cego alimentando um sonho inalcançável do ego. Rompe as regras do pessoal versus impessoal, do privado versus público. Intelectualmente hábil pra satisfazer desejos privados insanos, deixa um milhares de corpos pelo caminho, mas é idiota pra não ler os sinais. Me diga: tem alguma região do mundo que simbolize mais um beco sem saída do que o Golfo Pérsico?

— Você está certo — respondeu ele. — Ele abraça a idiotia por vaidade e ganância, porque não acredita nos piores cenários previstos. Repete os erros do passado com toda pompa e circunstância. Igual Goebbels em Berlim, 1945, ou Lyndon B. Johnson no Vietnã. Ambos foram destruídos dizendo que a guerra estava “sob controle” — enquanto o atoleiro engolia soldados e reputações.

— Tá vendo, Juvenal? O que eles têm em comum é dissociação cognitiva pura: discurso triunfalista versus realidade que todo mundo via. Existe um abismo entre o que dizem e o que acontece. Eu não quero ser esse tipo de idiota — falei, trocando olhares com a Diva.

Juvenal deu uma risada baixa, servindo mais manjubinhas.

— Mas, agora, quem não está lendo os sinais é você, meu analisado. Se ficar estudando isso como guerra, como conquista, tipo Netanyahu,  você já saiu perdendo na largada. Ela não quer galanteador. Não quer cavalheiro de armadura. Quer só interagir. Como nos bons e velhos bares: quer espaço público, sem intimidade forçada.

O bar inteiro zumbia ao fundo — alguém xingando o STF, outro falando da anistia pros golpistas, um estudante berrando contra o fascismo trumpista. O Doutor observava tudo, silencioso, anotando.

Antes que o Juvenal abrisse a boca de novo, o Doutor sacou primeiro. Pela primeira vez na noite, soltou uma frase, clara, baixa, cortante:

—— Só a ação transforma desde que se conheça a realidade, ainda que seja para aprender com a frustração.

Eu matei o chope do meu copo.

Me levantei.

O bar inteiro me acompanhou com o olhar — o Juvenal pescou um fio de esperança no jeito que o Doutor me encarava.

Fui em direção à mesa da Diva, sentindo o peso de todos os idiotas da história nas minhas costas.

E o Juvenal falou, alto o suficiente pra que eu e o Doutor ouvíssemos:

— Só a ação, meu guerreiro. 

Eu ri por dentro.

Idiota?

Talvez.

Mas, pelo menos, não daqueles que ficam no estreito sem saída, proclamando vitória enquanto a realidade já fechou o cerco.

A flor do sorriso dela se abriu quando me viu chegando.

E, pela primeira vez na noite, eu não analisei.

Só sentei.

O resto… bem, o Doutor que anote no bloquinho.

Publicado originalmente em Divã no Boteco – LXXXVI. Enviado pelo autor.

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