Sob Trump, os EUA trocam diplomacia por força e empurram o mundo para era de instabilidade
MARCOS VERLAINE (*)
A política externa dos Estados Unidos sob o comando de Donald Trump entrou em 2026 numa fase que pode ser definida sem exagero como “diplomacia do choque”1.
Em poucas semanas, Washington combinou 3 movimentos típicos de potência em tensão com o próprio declínio2: intervenção militar direta na América Latina (Venezuela), escalada bélica no Oriente Médio e ofensiva protecionista que ameaça a economia global.
O resultado é equação explosiva: império ainda poderoso, mas cada vez mais imprevisível. Quando isso acontece, a história mostra que o mundo costuma pagar o preço.
CAPTURA DE MADURO E INTERVENCIONISMO
O episódio mais emblemático dessa nova fase ocorreu na madrugada de 3 de janeiro de 2026. Em operação militar de grande escala — batizada de “Operação Resolução Absoluta”3 — forças dos EUA bombardearam alvos na Venezuela e sequestraram o presidente Nicolás Maduro e a mulher dele, Cilia Flores, posteriormente levados para custódia nos Estados Unidos. Eles foram sequestrados.
A ação envolveu centenas de aeronaves, forças especiais e bombardeios em áreas estratégicas próximas a Caracas.
Para Washington, tratou-se de “operação contra o narcotráfico” e “contra governo considerado ilegítimo”. Para muitos juristas e analistas internacionais, porém, a ação representou rompimento grave com os princípios básicos do direito internacional4, que proíbem o uso da força contra a soberania de outros Estados.
Não é apenas a Venezuela que está em jogo. O precedente é muito mais amplo. O sequestro de chefe de Estado por potência estrangeira lembra episódios como a invasão do Panamá em 1989 para prender Manuel Noriega: tipo de operação que parecia relegada ao século passado.
Ao ressuscitar esse método, Washington envia mensagem clara: a ordem internacional baseada em regras passa a ser substituída pela “lei do mais forte”.
Trump ressuscitou, o que o historiador britânico Eric Hobsbawm, analisou no “breve século 20” (1914-1991), definido entre a Primeira Guerra Mundial e a queda da URSS: a chamada era dos extremos5. O autor divide o período em 3 partes: a “Era da Catástrofe” (guerras/crises), a “Era de Ouro” (crescimento econômico) e o “Desmoronamento” (fim do socialismo soviético).
ESCALADA MILITAR NO ORIENTE MÉDIO
Enquanto a América Latina digeria o choque venezuelano, outra crise ganhava forma no Oriente Médio. Em fevereiro, os Estados Unidos anunciaram ataques contra alvos estratégicos no Irã, operação que culminou com a morte do líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, segundo anúncio feito pela própria Casa Branca.
A ofensiva — descrita como parte de campanha militar conjunta com Israel — atingiu instalações e lideranças ligadas à Guarda Revolucionária iraniana. A resposta de Teerã veio rapidamente, com ataques contra bases americanas na região.
O risco é evidente: qualquer escalada direta entre Washington e Teerã pode incendiar todo o Oriente Médio. Trata-se de região marcada por guerras por procuração6, rivalidades religiosas e disputas energéticas.
Conflito aberto poderia afetar desde rotas comerciais globais até o preço do petróleo.
GUERRA COMERCIAL COMO INSTRUMENTO POLÍTICO
No campo econômico, o governo Trump também adotou postura de confronto.
Em fevereiro de 2026, entrou em vigor tarifa global de 15% sobre praticamente todas as importações que chegam aos Estados Unidos. A medida foi apresentada como parte da estratégia America First7 — América Primeiro —, destinada a proteger a indústria americana.
Na prática, trata-se de “choque protecionista de grandes proporções”8.
Organismos internacionais e economistas alertam que esse tipo de política pode reduzir o crescimento global ao desencadear retaliações comerciais e desorganizar cadeias produtivas internacionais. Em um mundo profundamente integrado, tarifas não atingem apenas adversários. Atingem todo o sistema econômico e suas cadeias globais.
Para países exportadores de commodities, como o Brasil, a nova configuração pode abrir algumas oportunidades comerciais pontuais. Mas o saldo geral tende a ser negativo: menos previsibilidade, mais volatilidade e maior risco de crise econômica global.
IMPÉRIO EM TURBULÊNCIA
Esses movimentos — intervenção militar, ataques extraterritoriais e protecionismo radical — revelam algo mais profundo do que simples decisões políticas isoladas.
Estes refletem a crise de hegemonia. O império está em declínio. A própria reeleição de Trump, em 2024, reflete esta assertiva9.
Durante décadas — após a Segunda Guerra Mundial —, os Estados Unidos lideraram sistema internacional baseado em alianças, instituições multilaterais e regras relativamente estáveis. Mesmo quando intervinham militarmente, buscavam legitimação diplomática ou apoio de coalizões.
Sob Trump, essa lógica está sendo substituída por outra: unilateralismo explícito e demonstrações de força10.
Ao mesmo tempo, a sociedade americana vive polarização extrema, e o próprio sistema político enfrenta disputas internas intensas. Essa instabilidade doméstica frequentemente se traduz em política externa agressiva: fenômeno recorrente na história de potências em declínio relativo.
PERIGO DE UM MUNDO SEM REGRAS
O problema central não é apenas o comportamento de Washington. O problema é o efeito dominó.
Se a maior potência militar do planeta passa a agir sem respeito consistente às normas internacionais, outras potências tendem a seguir o mesmo caminho. Rússia, China, potências regionais e alianças militares começam a recalcular seus próprios limites.
O resultado pode ser uma ordem internacional menos previsível, instável e mais militarizada.
Em outras palavras: um mundo onde conflitos regionais podem escalar rapidamente para crises globais.
ERA DA INSTABILIDADE
A combinação de intervenção militar, confrontos geopolíticos e guerra comercial sinaliza que o mundo entrou em fase turbulenta, incerta e instável. As guerras são precedidas por estes elementos.
Não se trata apenas da política de um governo específico. Trata-se de momento histórico em que a arquitetura da ordem internacional construída após 194511 está sendo tensionada.
Quando impérios percebem que sua hegemonia já não é incontestável, frequentemente recorrem à força para reafirmá-la.
A história mostra que esse costuma ser o momento mais perigoso de todos.
(*) Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP
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1 A “diplomacia do choque” refere-se à estratégia de política externa marcada por confrontos diretos, retórica agressiva e rupturas propositais com protocolos tradicionais para forçar mudanças rápidas no cenário internacional.
2 A posição dos Estados Unidos como maior potência mundial em 2025-2026 é caracterizada por tensão paradoxal: o país mantém a supremacia militar, tecnológica e econômica, ao mesmo tempo em que enfrenta sinais claros de declínio relativo e crises internas profundas. A percepção de declínio é compartilhada pela maioria dos americanos (54%), que acreditam que o país está perdendo força no cenário internacional.
3 Intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela refere-se à operação militar, sob o codinome Operação Resolução Absoluta, conduzida pelos Estados Unidos, em 3 de janeiro de 2026, em meio à escalada das tensões entre ambos os países. As provocações de Washington vêm desde à época de Hugo Chávez.
4 Os princípios básicos do direito internacional orientam as relações entre Estados soberanos e organizações internacionais, garantindo estabilidade e previsibilidade. Os principais incluem igualdade soberana, não intervenção, solução pacífica de conflitos, autodeterminação dos povos e a prevalência dos direitos humanos.
5 “Era dos Extremos” é o termo cunhado pelo historiador Eric Hobsbawm para descrever o “breve século 20” (1914-1991), marcado por conflitos intensos, guerras mundiais, fascismo, Guerra Fria e grandes transformações sociais e tecnológicas. O período vai do início da Primeira Guerra Mundial até a queda da União Soviética (1991).
6 Guerra por procuração (do inglês proxy war) ocorre quando potências externas utilizam terceiros — como Estados menores, mercenários ou grupos rebeldes — para lutar em seu lugar, protegendo seus interesses estratégicos sem entrar em confronto direto.
7 O termo America First — América Primeiro — refere-se à postura de política externa dos Estados Unidos que prioriza nacionalismo, isolacionismo e unilateralismo em detrimento de alianças globais e intervenções estrangeiras.
8 Choque protecionista de grandes proporções em 2025/2026, impulsionado por tensões geopolíticas e tarifas (como as de Trump), ameaça a economia global, eleva custos, inflação e gera riscos de recessão. O aumento de barreiras comerciais, especialmente por grandes potências, gera represálias, fragmenta cadeias produtivas e prejudica o crescimento, com o Brasil enfrentando “irritantes” por suas próprias barreiras.
9 A reeleição de Donald Trump em 2024 é amplamente analisada como reflexo de crise interna e do declínio relativo do poder dos EUA, caracterizado por “novo imperialismo”, mais agressivo, porém sinalizador de fraqueza estrutural. Especialistas indicam que o retorno ao poder acelera a transição para ordem multipolar, com foco em protecionismo, disputas territoriais e incerteza global.
10 O unilateralismo explícito é estratégia de política externa em que um Estado age independentemente para defender apenas os interesses próprios, ignorando consensos internacionais, tratados ou organismos multilaterais como a ONU. Frequentemente acompanhado por demonstrações de força militar ou econômica, esse comportamento prioriza o nacionalismo, e desafia a ordem global.
11 A arquitetura da ordem internacional construída após 1945, frequentemente chamada de Ordem Liberal Internacional, foi desenhada para evitar novos conflitos globais e promover a cooperação econômica e política sob a liderança das potências vencedoras da Segunda Guerra Mundial.











