O Sacrifício das Manjubinhas e o Bode da Patuleia


DAVI MOLINARI

Havia um silêncio na mesa. Daqueles mais estrondosos que mísseis hipersônicos. A tarde morria cinematograficamente, avermelhada, depois de uma semana cinzenta — parecia até que São Paulo tinha contratado um diretor de fotografia soviético.

O doutor me contemplava mudo, esperando a primeira fissura na muralha de concreto que eu estava chamando de alma naquele dia. Eu olhava o copo de chope como quem olha um oráculo espumante. Quem sabe ele destamparia o que eu queria dizer.

Não destampou.

Só fez espuma.

Juvenal apareceu com a travessa de manjubinhas crocantes, irradiando aquele perfume de fritura filosófica que salva civilizações.

— O que há, guerreiro? — perguntou ele, largando o prato na mesa. — O Donald Trump invadiu teu quintal e sequestrou tua língua?

Peguei uma manjubinha.

Mastiguei.

O sal trouxe minha alma de volta do limbo.

— Não é isso, Juvenal… — suspirei. — É que eu ligo o noticiário e vejo um museu de grandes novidades, como cantava o Cazuza.

O doutor tomou nota na caderneta. Fez um rabisco de quem registra algo profundo, como: “paciente ainda respira via filosofia de rock nacional”.

— É um absurdo — continuei. — O Trump inventa qualquer desculpa para começar uma guerra e quase toda a imprensa reproduz o pretexto do conflito como se fosse verdade. Neutralidade jornalística virou desodorante de cocô geopolítico.

Juvenal coçou o queixo.

— Pois é… e o cara ainda fala que está lutando contra o mal absoluto.

— Exato! — bati na mesa. — Ele diz que o inimigo corta cabeça de criança, então precisa bombardear crianças para salvar… as crianças.

O doutor levantou uma sobrancelha.

— Isso não é novidade — continuou Juvenal, com a calma de quem já viu três golpes de Estado e dezenas de promoções de cerveja. — Esse papo de bem contra mal é antigo. Vem lá do tal do… como chama… Zaratrusta?

— Zaratustra — corrigi.

O doutor fez um gesto com a mão, como quem diz: “deixa ele errar, faz parte do processo terapêutico da humanidade”.

— Pois é — prossegui —. O sujeito lá na Pérsia, onde hoje é o Irã, desenvolveu a ideia de que o mundo é uma luta entre luz e trevas. Fundou o internato no inferno e os terrenos no céu que continuam sendo vendidos em livros “sagrados” até hoje.

Juvenal arregalou os olhos.

— Quer dizer que essa história de bem contra mal começou lá atrás?

— Começou… e virou ferramenta política. Sempre que alguém quer bombardear, prender ou derrubar alguém… inventa um demônio.

O doutor parou de escrever.

Silêncio.

— E quando a coisa aperta — continuei — aparece o tal do bode expiatório. Aquele que queima na fogueira para pagar a conta do restaurante que nunca frequentou.

— Igual rodízio dos poderosos — disse Juvenal. — Eles comem e a gente paga.

Mastiguei outra manjubinha.

— Exatamente. Quando a crise econômica aperta, quando a desigualdade cresce, quando o povo começa a fazer perguntas perigosas… aparece um inimigo mágico.

Juvenal começou a contar nos dedos.

— Comunista… petista… imigrante… professor… artista…terrorista… jornalista… tribunal…

— Tribunal! — apontei o dedo para ele.

Na mesa ao lado, um grupo de estudantes discutia alto sobre o Supremo Tribunal Federal.

— Aqui no Brasil — continuei — estão tentando convencer metade do país de que todos os problemas nacionais moram num prédio em Brasília.

Juvenal riu.

— Um prédio com juízes perigosíssimos, brincou Juvenal.

— Perigosíssimos — confirmei. — Porque são os únicos que podem mandar certos messias tropicais passar uma temporada na suíte presidencial da Papudinha.

O doutor fechou lentamente a caderneta.

Mas ainda não falou.

Eu continuei.

— Então cria-se a narrativa: o tribunal é o mal, o inimigo é o mal, o adversário é o mal… e nós — quero dizer, eles — ‘somos o bem’. Pronto! A sociedade encontra um culpado para sacrificar.

Juvenal assentiu.

— Tipo churrasco psicoterapêutico.

— Exatamente.

O doutor então inclinou a cabeça, como um maestro preparando a orquestra.

Silêncio absoluto no boteco.

Até as manjubinhas esticaram os ouvidos para prestar atenção.

Ele fechou a caderneta com um toc elegante e disse calmamente:

— Quando uma sociedade precisa inventar demônios para se sentir pura… é porque alguém manipula para esconder os próprios pecados.

Silêncio.

Eu olhei o copo.

Olhei o prato.

Olhei o boteco cheio de gente prevendo o futuro da política, da democracia e do preço da… cerveja.

Então entendi.

— Quer dizer… — murmurei — quando eles gritam “expiação”…

Juvenal completou:

— …é porque estão procurando queimar um bode para aliviar a patuleia.

Peguei a última manjubinha e mastiguei devagar… enquanto na TV o mundo acabava.

No Fale Mais Sobre Isso, o Juvenal só queria saber de uma coisa:

— Ainda tem esperança para outra rodada?

— Sempre. Até no inferno.

Publicado originalmente em Divã no Boteco – LXXXIII. Enviado pelo autor.

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