Trump ignora proposta russa de preservação por mais um ano do Novo Start que expira nesta quinta-feira e, pela primeira vez desde 1972, nenhum tratado de prevenção da guerra nuclear está em vigor
O Papa Leão XIV pediu durante a sua audiência-geral de quarta-feira a “continuação concreta e efetiva” do tratado Novo Start entre Estados Unidos e Rússia, que é o último remanescente da arquitetura internacional de contenção da guerra nuclear e expira nesta quinta-feira (5), e que determina limite de 1550 ogivas implantadas e 800 veículos lançadores a cada lado (mísseis intercontinentais, submarinos nucleares e bombardeiros estratégicos).
O tratado também mantinha mecanismos de inspeção em campo e troca periódica de dados para garantir transparência e conformidade. Os dois países detêm 90% das 10.000 armas nucleares do planeta.
É a primeira vez desde 1972 que o mundo se vê de volta à situação de ausência de qualquer limite para as armas nucleares ofensivas estratégicas.
O pontífice reiterou que “a situação atual exige que façamos tudo ao nosso alcance para evitar uma nova corrida armamentista que ameace ainda mais a paz entre as nações”, registrou a agência de notícias do Vaticano.
Leão XIV considerou o Tratado Novo START, um “passo significativo para conter a proliferação de armas nucleares”. Por isso, fez um apelo urgente para que “este instrumento não expire sem que se busque uma continuidade concreta e efetiva”.
O papa enfatizou que é mais urgente do que nunca substituir a lógica do medo e da desconfiança por uma ética compartilhada que oriente as decisões para o bem comum e faça da paz um bem a ser preservado por todos.
Também o secretário-geral da ONU, António Guterres, chamou o fim do tratado Novo Start de “um momento grave para a paz e segurança internacional”.
“Pela primeira vez em mais de 50 anos, as duas maiores potências nucleares não têm limites em seus arsenais. Agora, há menos salvaguardas contra um ‘erro de cálculo devastador’, em comparação com a Guerra Fria e suas consequências”, destaca o comunicado.
“Esta dissolução de décadas de conquistas não poderia vir em um momento pior. O risco de uma arma nuclear ser usada é o mais alto em décadas”, alertou Guterres. Ele conclamou Washington e Moscou a negociarem um novo tratado.
Um quadro ainda mais deletério na medida em que o governo Trump ignora a Carta da ONU e a soberania alheia, invade a Venezuela e sequestra seu presidente, assumidamente para tomar o petróleo, e ameaça anexar a Groenlândia e o Canadá, além de montar sua própria “ONU fake”, seu mal-denominado “Conselho da Paz”.
“DEIXA EXPIRAR”, DIZ TRUMP
Proposta da Rússia, de que os limites de armas nucleares do tratado fossem preservados por mais um ano, para possibilitar mais negociações, apresentada pelo presidente Vladimir Putin em setembro do ano passado e reafirmada várias vezes, foi ignorada pelo governo Trump.
“Deixa expirar”, chegou Trump a comentar em janeiro, acrescentando que irá obter um “melhor”. Como assinalou o vice-ministro das Relações Exteriores russo, Sergei Ryabkov, “nenhuma resposta é uma resposta”.
O acordo Novo Start, também às vezes chamado de Start 3, foi assinado pelos presidentes Barack Obama e Dmitry Medvedev, entrou em vigor em 2011, com dez anos de duração, com previsão de prorrogação por mais cinco, reduzindo os arsenais nucleares em cerca de 30% em relação ao limite anterior.
Em seu primeiro mandato, Trump esboçou deixá-lo expirar, mas sua derrota para Biden permitiu no ano seguinte a assinatura da sua extensão. Antes, Trump retirara os EUA do Tratado INF de eliminação dos mísseis intermediários, que por três décadas eliminara no teatro europeu a ameaça de guerra nuclear, e do Tratado de Céus Abertos, de inspeções mútuas.
No que mais parece uma comemoração pelo fim do tratado, Trump postou em sua rede Truth Social que o New START foi “mal negociado” e está sendo “grosseiramente violado”. Ele vagamente acenou com um novo acordo que “reflita a realidade atual da segurança internacional”.
“NÃO MAIS VINCULADOS PELO TRATADO”
Na quarta-feira, em comunicado a Rússia assinalou que “nas circunstâncias atuais, presumimos que as partes do tratado não estão mais vinculadas por quaisquer obrigações ou declarações simétricas no âmbito do tratado, incluindo suas disposições essenciais”.
A Rússia anunciou que pretende agir “de forma responsável e ponderada”, adaptando sua estratégia aos desdobramentos da política militar americana. A Rússia afirma estar pronta para tomar as “contramedidas militares e técnicas” consideradas necessárias para proteger sua segurança nacional.
Ao mesmo tempo, declarou que permanece “aberta a explorar vias políticas e diplomáticas” para uma estabilização abrangente, baseada no diálogo fundamentado na igualdade e em interesses mútuos.
Na véspera, depois de ressaltar que a proposta russa de prorrogação dos limites às armas nucleares permanecia “válida”, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, advertiu que “literalmente, em poucos dias, o mundo poderá se encontrar em uma situação mais perigosa do que antes.”
CHINA: NÃO À CORRIDA ARMAMENTISTA
Em uma coletiva de imprensa nesta quinta-feira (5), a China lamentou o fim do acordo nuclear entre EUA e Rússia e ressaltou que “tem aderido consistentemente a uma estratégia nuclear de autodefesa, respeitado a política de não uso primeiro de armas nucleares e assumido compromissos incondicionais de não usar ou ameaçar usar armas nucleares contra Estados não nucleares ou zonas livres de armas nucleares”.
“A comunidade internacional está preocupada que o vencimento do tratado terá um impacto negativo no sistema internacional de controle de armas nucleares e na ordem nuclear global”, acrescenta o comunicado.
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês Lin Jian, destacou, ainda, que a estratégia nuclear do país é estritamente de autodefesa e que não defende a proliferação nuclear.
Lin lembrou ainda que “’as forças nucleares da China não estão no mesmo nível das dos Estados Unidos e da Rússia” e que, portanto, o país não participará das negociações de desarmamento Washington-Moscou.
Cinicamente, o governo Trump tem manobrado para que, no novo tratado que promete arrancar, o arsenal da China seja incluído na conta e, por esse estratagema, acabar com a paridade duramente conquistada pela Rússia ao longo da Guerra Fria. Os EUA também mantêm ilegalmente arsenais nucleares na Europa, em países não-nucleares, como Itália, Bélgica, Alemanha, Holanda e Turquia, em violação do Tratado de Não-Proliferação.
Segundo estimativas, Estados Unidos e Rússia têm, respectivamente 5.244 e 5.598 ogivas nucleares. A China, 410; França, 290; Reino Unido, 225; Índia, 170; Paquistão, 180; Israel, 100; e Coreia do Norte, 50. No auge da Guerra Fria, eram mais de 70.000 ogivas nucleares.
DESMANCHE METÓDICO
A Rússia tem denunciado de forma consistente que os EUA empreenderam uma destruição metódica do sistema de prevenção da guerra nuclear, construído tanto graças à conquista, pela então União Soviética, da paridade de armas nucleares, quanto pela amplitude das manifestações pela paz e contra a guerra nuclear. Após a dissolução da URSS, assim como romperam com o compromisso de nenhum um centímetro de avanço da Otan a Leste, também iniciaram o desmonte dos acordos que refletiam a concepção de que é impossível haver vitoriosos em uma guerra nuclear, expressa na dística MAD, destruição mutuamente assegurada.
Assim, sob W. Bush, os EUA se retiraram em 2002 do Tratado ABM (antimíssil), enquanto publicações de think tanks ligados ao Pentágono passavam a fazer descaradamente apologia do “primeiro ataque de decapitação nuclear”, isto é, da “vitória na guerra nuclear”. Sob o pretexto de supostas ameaças do “Irã” e da “Coreia do Norte”, instalações antimísseis foram criadas na Romênia e Polônia, ou seja, na mais próxima fronteira da Rússia então possível, em paralelo à instalação, no Mediterrâneo, de navios porta-mísseis exatamente com tal finalidade.
A assinatura do Novo Start marchou na contracorrente, mas no primeiro mandato de Trump ele desmontou o acordo que prevenira a guerra nuclear na Europa por três décadas, assinado por Reagan e Gorbachev, o INF, e conquistado após manifestações gigantescas pela paz. E empurrando a Europa para o confronto e tornando inadiável a questão da quebra da neutralidade da Ucrânia e da anexação pela Otan, incrustada na própria constituição.
APOSTA NO CAOS
Em sua análise do novo quadro, o vice-chanceler Ryabkov disse à agência de notícias Novosti que “os elementos de estabilidade do sistema anterior” estão sendo perdidos e advertiu que “as manifestações dessa tendência voluntarista [dos EUA] que se aproxima do caos estão se tornando cada vez mais claras.”
Para ele, o diálogo com os Estados Unidos sobre estabilidade estratégica é impossível sem uma revisão radical da postura hostil de Washington.
Em relação à Groenlândia, Ryabkov afirmou: “A instalação de sistemas ditos de defesa antimíssil dos EUA na Groenlândia será respondida com medidas técnico-militares da Rússia, para as quais estamos preparados.”
Ele prosseguiu: “Se estamos falando da segurança do nosso país, ela estará garantida em qualquer caso, porque tudo o que está acontecendo é claro para todos verem. Tudo o que está acontecendo é motivado pelo desejo dos Estados Unidos de estender sua hegemonia, pelo menos no Hemisfério Ocidental.”
Ele também enfatizou que o aparecimento de mísseis americanos de alcance intermediário no Japão levaria inevitavelmente a medidas militares de contra-ataque técnico por parte da Rússia.
Ele salientou que a Rússia e a China concordam que a principal razão para a deterioração do sistema de segurança estratégica mundial reside nas ações unilaterais de Washington. Ele acrescentou que a China tem uma posição clara sobre o controle de armas e que a Rússia a respeita plenamente, assim como Pequim respeita a posição de Moscou.











