Pastor é investigado por ligação com fraude na Previdência e pirâmide de criptomoedas

Pastor César Belluci, líder da Sete Church - Foto: Reprodução

A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito do INSS passou a investigar a atuação do apóstolo Cesar Belluci, líder da Sete Church, após seu nome constar em requerimentos aprovados no colegiado que apura um amplo esquema de fraudes envolvendo benefícios previdenciários. Belluci também é citado em uma ação civil movida por investidores que afirmam ter sido vítimas de um suposto esquema de pirâmide financeira com criptomoedas, cujos prejuízos estimados chegam a cerca de 70 milhões de reais.

O caso ganhou projeção nacional depois que a senadora Damares Alves, do Republicanos do Distrito Federal, divulgou publicamente uma lista de pastores e igrejas mencionados nos trabalhos da CPMI, em resposta direta a críticas feitas pelo pastor Silas Malafaia, que havia desafiado a parlamentar a apresentar nomes e provas concretas de envolvimento de líderes religiosos em irregularidades.

De acordo com os autos do processo judicial, Belluci teria mantido vínculo empresarial com Meldequias Vasconcelos, apontado como um dos principais articuladores do esquema investigado. Os dois aparecem como sócios da BVK Invest – Belluci Vasconcelos Invest Ltda., empresa que, segundo a acusação apresentada pelas vítimas, teria sido criada com o objetivo de ocultar e distribuir patrimônio adquirido com recursos de investidores. Na ação, os autores sustentam que o apóstolo e outros envolvidos teriam emprestado seus nomes para a abertura de empresas utilizadas como instrumento de blindagem patrimonial, o que, na avaliação dos advogados das vítimas, indica participação direta na engrenagem financeira da fraude.

O esquema teria começado em 2021, por meio da empresa Ever Operações e Investimentos, que oferecia contratos de compra de bitcoins com promessa de rendimentos mensais entre 4% e 8%, além da retenção do capital investido durante os primeiros seis meses. Investidores relatam que os pagamentos iniciais chegaram a ser feitos, o que aumentou a confiança no negócio, mas que, em fevereiro de 2022, a empresa suspendeu os repasses sob a justificativa de instabilidade no mercado de criptoativos.

Ainda naquele período, dois dos sócios da Ever, Carlos Henrique de Camargo e Edson Lara, prestaram depoimento à polícia, enquanto Meldequias Vasconcelos passou a ser considerado foragido. Camargo afirmou publicamente ter entregue mais de 500 documentos às autoridades para comprovar sua inocência e declarou que Vasconcelos seria o principal responsável pelos desvios, criticando o fato de não ter sofrido, até então, medidas cautelares semelhantes às aplicadas a outros investigados, como prisão e bloqueio de bens.

Paralelamente, relatórios de inteligência financeira enviados à CPMI apontam que pessoas investigadas no escândalo conhecido como “Farra do INSS”, que envolve fraudes em descontos indevidos sobre aposentadorias e pensões e é alvo da Operação Sem Desconto da Polícia Federal, frequentavam a Sete Church. Um desses relatórios registra a realização de um Pix superior a 120 mil reais feito por um suposto participante do esquema à igreja. Outro fiel teria doado uma BMW e um relógio Rolex, além de passar a contribuir regularmente com dízimos a partir de 2022, ano em que o caso da pirâmide financeira com criptomoedas veio a público.

A defesa de Cesar Belluci nega qualquer envolvimento do apóstolo em práticas ilegais. Em nota, os advogados afirmam que ele conheceu Meldequias Vasconcelos no ambiente religioso, que a sociedade empresarial entre ambos foi desfeita ainda em 2021 e que Belluci não participou das operações financeiras investigadas. A defesa sustenta, ainda, que decisões judiciais já teriam afastado a narrativa de associação do líder religioso aos fatos, reconhecendo sua desvinculação total dos esquemas e a inexistência de qualquer benefício financeiro obtido por ele.

A divulgação do nome de Belluci por Damares Alves intensificou o embate público entre a senadora e líderes evangélicos. Em entrevistas, Damares afirmou que há indícios de envolvimento de grandes igrejas e pastores em fraudes contra aposentados e pensionistas, o que provocou reação imediata de Silas Malafaia, que classificou as declarações como irresponsáveis e exigiu a apresentação de provas. Em resposta, a parlamentar tornou públicos os requerimentos aprovados pela CPMI, que incluem convocações e pedidos de quebra de sigilo envolvendo instituições religiosas e seus dirigentes, argumentando que todas as medidas se baseiam em dados oficiais e relatórios técnicos analisados pela comissão.

Enquanto a CPMI do INSS segue em andamento, o caso continua a gerar repercussões no campo político, jurídico e religioso. A comissão avalia ampliar o alcance das investigações e aprofundar o acesso a informações sigilosas, em um cenário marcado por forte polarização, acusações públicas e pressão de diferentes setores da sociedade por esclarecimentos sobre o destino de recursos desviados e o eventual uso de estruturas religiosas em esquemas financeiros ilícitos.

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