Sem a atuação da BR Distribuidora, privatizada por Bolsonaro, encher um tanque de 50 litros com gasolina ficou R$ 67,50 mais caro em três anos
Apesar da redução acumulada no preço da gasolina vendida pela Petrobrás às distribuidoras desde o fim de 2022, o consumidor brasileiro segue pagando mais caro para abastecer. Enquanto o valor do combustível na refinaria caiu 16,4%, passando de R$ 3,08 para R$ 2,57, o preço médio nas bombas subiu 27,1% no mesmo período, saltando de R$ 4,98 para R$ 6,33, segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).
A política de reajustes adotada pela Petrobrás desde dezembro de 2022 resultou em uma redução total de R$ 0,51 no preço da gasolina nas refinarias. Ao todo, foram 11 ajustes: oito cortes e três aumentos. O movimento mais recente ocorreu na semana passada, com diminuição de R$ 0,14, o equivalente a uma queda de 5,17% no valor cobrado das distribuidoras. Ainda assim, o alívio não chegou ao bolso dos motoristas.
O impacto é sentido de forma concreta. Encher um tanque de 50 litros com gasolina ficou R$ 67,50 mais caro em três anos, considerando o aumento médio de R$ 1,35 por litro identificado pela ANP. Em alguns municípios, o custo é ainda mais elevado. Na semana passada, o preço máximo registrado no país atingiu R$ 9,29 por litro, valor encontrado em postos de Barueri e Guarujá, em São Paulo.
Embora frequentemente responsabilizada, a Petrobrás responde por menos de um terço do preço final da gasolina, o equivalente a 28,4%. O valor pago pelo consumidor inclui ainda a mistura com etanol (16,4%), impostos federais (10,7%) e estaduais (24,8%), além das margens de distribuição e revenda, que somam 19,6%. “Desde a tributação até chegar ao posto, existe um caminho completo que envolve logística, custos operacionais e a própria dinâmica regional que pode afetar os valores”, explica Renato Mascarenhas, diretor da Edenred Mobilidade.
Especialistas apontam que fatores externos ao refino têm neutralizado os efeitos das quedas promovidas pela estatal. “Algumas mudanças tributárias e a valorização do etanol fizeram com que o valor final da gasolina aumentasse nos postos”, afirma Ricardo Hammoud, professor do Ibmec-SP. Entre os principais elementos está o aumento da carga tributária desde 2023, com destaque para a elevação de R$ 0,10 no ICMS por litro e o fim da isenção de PIS/Cofins em fevereiro daquele ano, que adicionou R$ 0,47 ao preço final.
O efeito dos tributos é imediato. “Quando o ICMS aumenta, como aconteceu no último mês, o impacto é direto e também mais rapidamente sentido nas bombas, independentemente dos valores praticados nas refinarias. […] Mesmo em momentos de alívio na origem, a carga tributária pode diminuir ou até neutralizar esse efeito para o consumidor a curto prazo”, afirma Renato Mascarenhas.
PRIVATIZAÇÃO DA BR DISTRIBUIDORA
Para a presidente da Petrobrás, Magda Chambriard, a incapacidade de garantir o repasse das reduções ao consumidor está diretamente ligada à privatização da BR Distribuidora, concluída em 2019. Em entrevista ao programa Sem Censura, da TV Brasil, ela lembrou que a estatal foi concebida para atuar em toda a cadeia do combustível. Segundo Chambriard, a Petrobrás foi criada para ser responsável pelos combustíveis “do poço ao posto”, papel interrompido após a venda da subsidiária.
“Com o acesso ao consumidor final, a Petrobrás conseguia ajudar a formular o preço [nas bombas]. Quando a Petrobrás sai da ponta, ela chega só até as refinarias […] A gente abaixa o preço do combustível, mas as distribuidoras em geral alargam suas margens e isso [queda dos preços] não alcança o consumidor final”, disse Magda Chambriard.
Representantes dos postos contestam a ideia de que a revenda seja a principal responsável pelos aumentos. O presidente do Sincopetro-SP, José Alberto Gouveia, afirma que a margem permitiria reduzir apenas R$ 0,06 dos R$ 0,14 cortados nas refinarias. “O governo precisa ser claro e destacar que a Petrobrás não interfere no resto da cadeia, mas, como ele não faz, o dono do posto vira vilão”, declarou.
O setor, porém, enfrenta outro problema estrutural: a concorrência desleal. Investigações como a Operação Carbono Oculto revelaram o uso de postos para lavagem de dinheiro do crime organizado, criando um “mercado paralelo” que não recolhe impostos nem registra trabalhadores. “Isso estreita a margem de todo mundo”, diz Gouveia, ao apontar que a ilegalidade pressiona indiretamente os preços praticados pelos estabelecimentos regulares.
A Federação Única dos Petroleiros (FUP) avalia que as privatizações realizadas durante o governo Bolsonaro seguem bloqueando os efeitos positivos da nova política de preços. Em janeiro, a Petrobrás anunciou nova redução de 5,2% no preço da gasolina para as distribuidoras, acumulando queda de 26,9% desde dezembro de 2022. O valor médio passou a ser de R$ 2,57 por litro. A estatal também anunciou redução de 7,8% no preço do gás natural, enquanto o diesel permaneceu inalterado.
Para o coordenador-geral da FUP, Deyvid Bacelar, a medida deve ser comemorada, mas com ressalvas. “Sem dúvidas é uma notícia importantíssima que deve ser comemorada. É o governo Lula cumprindo o que prometeu: abrasileirar o preço dos combustíveis e aliviar o bolso de quem mais precisa. Porém, sabemos que a herança nefasta do governo Bolsonaro, que entregou de bandeja empresas fundamentais como a BR distribuidora, dificulta a chegada desses preços ao consumidor”, afirma.
Bacelar resume o impasse: “Hoje em dia, cai o preço de venda da Petrobrás às distribuidoras, porém, as distribuidoras aumentam a margem de lucro e não repassam a queda dos preços para o consumidor final que abastece no posto. Esse é um grave problema que precisamos enfrentar”. Para ele, o debate é político e estratégico. “É o ano de reeleger Lula e continuar avançando até resolver definitivamente essa questão. Não podemos voltar a ser governados por pessoas como Bolsonaro e Paulo Guedes, que tentaram acabar com a Petrobrás, prejudicando quem mais precisa dela”.
Estudos do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep) reforçam o diagnóstico. Segundo o instituto, o aumento das margens de distribuição, revenda e biocombustíveis freou a queda dos preços em 2025. Entre janeiro e dezembro, a gasolina teve leve alta de 0,16%, o diesel caiu cerca de 1,5% e o GLP subiu aproximadamente 2,8%.
LIMITES DA PETROBRÁS
O diretor técnico do Ineep, Mahatma Ramos, destaca que a mudança na política de preços desde 2023 foi acertada. Para ele, “desde a volta do governo Lula em 2023, houve uma mudança na política de precificação dos derivados no Brasil, principalmente da gasolina e do diesel, que tem um impacto inflacionário alto no país. A Petrobrás tem sido bem sucedida nessa nova política na manutenção ou estabilização dos preços, evitando a volatilidade dos preços do mercado internacional aos consumidores brasileiros e isso é um ponto muito positivo, que deve ser comemorado”.
Ainda assim, Ramos alerta para os limites impostos pelas privatizações. “Infelizmente a Petrobrás hoje apresenta limites estruturais, dada a desintegração e a privatização de elos da cadeia do setor de óleo e gás durante os governos Bolsonaro e Temer, que impedem que hoje o governo atue em dois segmentos importantes para a definição desses preços, que são a distribuição e revenda dos combustíveis, que definem parcelas significativas do preço final aos consumidores brasileiros”.
Como saída, o especialista defende mais soberania energética. “É preciso garantir uma autonomia brasileira na produção de derivados, reduzindo as importações. Para isso é necessário que a Petrobrás amplie seus investimentos na expansão de seu parque industrial de refino, seja através da produção de insumos novos, de novas rotas tecnológicas de baixo carbono, seja na expansão de derivados de petróleo”. A FUP também reafirma a necessidade de reestatizar refinarias privatizadas, como a RLAM, na Bahia, e a Reman, no Amazonas.
A Petrobrás anunciou a retomada da atuação na distribuição em agosto do ano passado. O desafio agora é transformar essa decisão em política de Estado. Sem recompor os elos desmontados pela privatização, a queda no preço do refino continuará parando no meio do caminho — longe da bomba e ainda mais distante do bolso da população.











