Procuradoria identifica indícios de fraude bilionária e confusão patrimonial que envolve fundo ligado ao dono do Banco Master. Investigação avança com busca de provas e bloqueios de bens
A Procuradoria-Geral da República (PGR) identificou indícios de que o banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do extinto Banco Master, teria utilizado cerca de R$ 650 milhões vinculados à instituição financeira para operações em empresa de imóveis, a Super Empreendimentos, segundo documentos investigativos citados em pedidos de busca e apreensão que motivaram a nova fase da Operação Compliance Zero.
A Super é dona de imóveis usados por Daniel Vorcaro. Desde 2021, a empresa comprou 19 imóveis, segundo levantamento do UOL, incluindo as casas onde Vorcaro mora em Brasília e São Paulo. Juntos, somam mais de R$ 300 milhões. A empresa tem como sócio Fabiano Zettel, cunhado do ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
Após receber os recursos, a empresa comprou por R$ 36,1 milhões uma mansão em Brasília, localizada numa área nobre da capital. A mansão era usada por Vorcaro.
O caso faz parte de inquérito que apura suspeitas de gestão fraudulenta de instituição financeira, manipulação de mercado, lavagem de dinheiro e organização criminosa, com mandados cumpridos pela PF (Polícia Federal) em 5 Estados da Federação.
Até o momento, 42 ordens de busca e apreensão foram cumpridas e valores e bens que somam mais de R$ 5,7 bilhões estão bloqueados, conforme determinação do STF (Supremo Tribunal Federal).
TRAMBIQUE PATRIMONIAL E RECURSOS DESVIADOS
Relatórios da PGR mostram que fundos ligados a Vorcaro — especialmente o Astralo 95 e o Reag Growth 95 — que deveriam operar como veículos de investimento, movimentaram aproximadamente R$ 1,45 bilhão entre abril e maio de 2024, incluindo aporte de R$ 300 milhões no Atlético-MG, por meio do fundo Galo Forte FIP.
Esses fundos, segundo a investigação, teriam sido usados para desviar recursos que originalmente pertenciam ao Banco Master, dificultando a identificação da origem dos recursos e a vinculação entre o dinheiro do banco e aplicações em empresas imobiliárias e outras operações pessoais de Vorcaro.
A PGR afirma que o uso de fundos desse tipo em transações imobiliárias e outros investimentos pode configurar “confusão patrimonial”, já que faltam elementos claros que distingam os recursos do banco dos bens pessoais e das aplicações em empresas controladas pelos investigados.
“Há dúvidas quanto ao efetivo controle da cadeia de fundos e à origem específica dos valores utilizados”, foi escrito pela PGR no pedido que autorizou os mandados.
MEDIDAS JUDICIAIS E ANÁLISE DE PROVAS
O ministro Dias Toffoli, do STF, determinou que todo o material apreendido na nova fase da operação seja encaminhado à PGR para análise, argumentando que isso permitirá “a adequada formação da opinião ministerial sobre a materialidade e autoria dos delitos em apuração”.
Inicialmente ele determinou que todo material apreendido fosse lacrado e colocado sob a guarda do seu gabinete. A medida causou grande estranheza nos meios políticos e jurídicos e a repercussão foi muito negativa. Ele recuou e disponibilizou o material para ser acessado pela PGR.
Mas ele foi novamente criticado por deixar de lado a Polícia Federal, provocando críticas da corporação. Ele pareceu recuar novamente, mas sua decisão soou mais esquisita ainda, porque ele escolheu 4 peritos para a tarefa, que não têm nada a ver com a investigação, E novas críticas dos policiais federais e também dos peritos. O diretor da PF, Andrei Rodrigues, reuniu-se com a Advocacia-Geral da União (AGU) para discutir medidas visando reverter a decisão de Toffoli.
Os dispositivos eletrônicos apreendidos foram isolados de redes de comunicação para preservar a integridade das provas até a conclusão do periciamento.
Entre os alvos das medidas judiciais está também o cunhado de Vorcaro, Fabiano Campos Zettel, que chegou a ser preso temporariamente na ação.
Investigadores esperam que a extração de provas de celulares, computadores e documentos ajude a traçar o fluxo financeiro que teria permitido que valores do banco fossem transferidos para empresas de imóveis e outros negócios particulares.
CRISE NO SISTEMA BANCÁRIO E LIQUIDAÇÃO DO MASTER
A investigação ocorre no contexto da liquidação extrajudicial do Banco Master, decretada pelo Banco Central em novembro de 2025, após a constatação de problemas graves de governança e fraudes em títulos de crédito emitidos pelo banco.
A fraude que está no centro da investigação é a compra de R$ 12, 2 bilhões pelo Banco Regional de Brasília (BRB), banco público de Brasília, com títulos que se mostraram falso. Segundo o governo de Brasília, cerca de R$ 10 bilhões foram resgatados pelo BRB em ativos do Banco Master. R$ 2,2 bilhões estão descobertos, não foram resgatados. Outro problema é que dos R$ 10 bilhões supostamente resgatados, os investigadores suspeitam que R$ 5 bilhões não têm liquidez, ou seja, não valem nada.
Vorcaro foi preso em dezembro de 2025 ao tentar embarcar para o exterior, mas teve a prisão relaxada e cumpre medidas restritivas, incluindo uso de tornozeleira eletrônica e prisão domiciliar.
Especialistas ouvidos por veículos de imprensa afirmam que o colapso do Banco Master é um dos maiores escândalos financeiros recentes do Brasil, e envolve bilhões em recursos questionados e deixa dúvidas sobre a solidez de controles internos do sistema financeiro. Além do mais, quantos Bancos Master estão à solta e agindo por aí?
RESPOSTA E DEFESA
Até o momento, a defesa de Daniel Vorcaro não divulgou posição oficial sobre as suspeitas referentes à utilização dos R$ 650 milhões em empresa de imóveis.
Em outras frentes, Vorcaro e advogados têm alegado que cooperam com as investigações e enfatizam a necessidade de transparência no devido processo legal.
À medida que a análise da PGR avança, a expectativa é que os autos identifiquem precisamente como e para que fins os supostos recursos desviados foram empregados, o que pode resultar em novas acusações formais e pedidos de bloqueio adicionais ou mesmo pedidos de devolução de valores aos credores e investidores lesados.











