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As negociações do governo dos EUA com a Rússia são mais sobre a China do que sobre a Ucrânia. Donald Trump admitiu em entrevista a Tucker Carlson que quer “desunir” a Rússia e a China
O governo Donald Trump está conversando com a Rússia e diz que quer acabar com a guerra na Ucrânia. Já o secretário de Estado de Trump, Marco Rubio, chegou a propor que os EUA poderiam “fazer parceria com os russos, geopoliticamente”. Trump está tentando dividir a Rússia da China, na tentativa de isolar Pequim. Esta é a opinião do jornalista Ben Norton, fundador e editor do Geopolitical Economy Report.
CHINA É A MAIOR AMEAÇA
Segundo Norton, toda a movimentação dos EUA leva em conta centralmente a China. Os Estados Unidos veem a China como a ameaça número um ao seu domínio global. Isso foi afirmado claramente por altos funcionários do governo Trump e do governo anterior de Joe Biden. Rubio apelidou a China de “o maior desafio que esta nação já enfrentou”. O diretor da CIA de Trump, John Ratcliffe, afirmou que “a China era de longe nossa principal ameaça à segurança nacional”.
Trump deixou essa estratégia clara em uma entrevista com Tucker Carlson, o apresentador de talk show de direita, em 31 de outubro de 2024. Ele disse que era uma “vergonha” e era “estúpido” que os EUA tivessem pressionado a China e a Rússia juntas. “Vou ter que desuni-los, e acho que posso fazer isso também. Eu tenho que desuni-los”, afirmou Trump.
A seguir, uma transcrição parcial da entrevista de Trump:
“Somos uma nação em declínio. Somos uma nação em declínio muito sério. E veja o que essas pessoas estúpidas fizeram. Eles permitiram que Rússia, China, Irã, Coréia do Norte e outros se reunissem em um grupo. Isso é impossível de pensar.
Quando eu era jovem, eu amava, sempre amei a coisa toda, o conceito da história e todas as coisas que podem acontecer. A única coisa – e eu tinha um professor na Wharton School of Finance, mas também tínhamos aulas de história.
Ele disse que a única coisa que você nunca quer que aconteça é que você nunca quer que a Rússia e a China se unam. Nós os unimos, por causa do petróleo. Nós os unimos. Biden os uniu. É uma pena, a estupidez do que eles fizeram.
Vou ter que desuni-los, e acho que posso fazer isso também. Eu tenho que desuni-los. Mas logo no início eu li, e você aprendeu, você nunca quer a Rússia e a China – e eles são inimigos naturais, porque a Rússia tem terras enormes e a China precisa delas.
Eles são um inimigo natural. E nós permitimos que eles se tornassem, ficassem juntos. É uma coisa tão perigosa. Outra coisa que estamos fazendo é perder o dólar como padrão, por causa dessas pessoas que são assim – se perdermos o dólar como padrão, é como perder uma guerra. E isso nunca vai acontecer comigo. Não há como isso acontecer comigo”.
TRUMP AMEAÇA BRICS
Trump também vinculou a estreita parceria entre a China e a Rússia à questão da desdolarização, o esforço internacional para criar alternativas ao dólar americano como moeda de reserva global. A China é o maior parceiro comercial da Rússia, e os dois países removeram quase totalmente o dólar americano de seu comércio bilateral. Em vez disso, eles agora usam suas moedas domésticas, o renminbi e o rublo, em mais de 90% dos acordos.
O avanço da desdolarização levou Trump a ameaçar tarifas de 100% sobre os países do BRICS e outras nações que derrubam o dólar no comércio internacional e nas reservas cambiais. “Eu odeio quando os países saem do dólar. Eu não permitiria que os países saíssem do dólar”, declarou Trump durante sua campanha presidencial em 2024.
Trump delirou e disse que “o BRICS está morto”. A frase foi dita numa coletiva de imprensa na Casa Branca em 13 de fevereiro. Na realidade, o BRICS continuou se expandindo, admitindo no início de 2025 novos países com grandes populações, como Indonésia e Nigéria. A organização agora representa cerca de 55% da população mundial e 42% do PIB global (PPC). No entanto, Trump continuou a ameaçá-los. “Se eles quiserem brincar com o dólar, serão atingidos com uma tarifa de 100%”, alertou.
OPERAÇÃO NÃO É SECRETA
A tentativa de Trump de dividir a Rússia e a China, para tentar salvar o domínio imperial dos EUA, está longe de ser secreta. Foi debatido abertamente na mídia ocidental, com a revista Foreign Affairs alertando que “a parceria de Pequim e Moscou será difícil de quebrar”. O Wall Street Journal afirmou claramente que “o abraço de Washington a Putin visa criar uma barreira entre Moscou e Pequim”.
A imprensa ocidental apelidou essa estratégia de “Nixon reverso”, referindo-se ao ex-presidente dos EUA Richard Nixon. Nixon e Trump têm muitas semelhanças. Ambos eram republicanos de direita linha-dura que usavam retórica “populista”. Ambos também procuraram explorar as divisões entre a Rússia e a China – embora em direções opostas.
O presidente dos EUA, Richard Nixon, encontra Mao Zedong na China em 1972. Embora fosse um anticomunista virulento, Nixon fez uma viagem histórica a Pequim em 1972 para normalizar as relações com a República Popular da China. Washington viu a divisão sino-soviética, que aconteceu na década de 1960, como uma oportunidade de aumentar seu poder imperial, exacerbando as tensões entre a China e a URSS.
KISSINGER REVERSO
Isso acabou sendo um fator importante no declínio da União Soviética na década de 1980 e sua eventual derrubada em 1991. A estratégia de Trump também foi chamada de “Kissinger reverso”, porque o conselheiro de segurança nacional de Nixon, Henry Kissinger, foi o arquiteto da tática, conhecida como “diplomacia triangular”. Kissinger fez uma viagem secreta a Pequim em 1971, na tentativa de dividir ainda mais a China e a URSS.
Décadas depois, Kissinger achava que os Estados Unidos deveriam retornar a essa estratégia de “triangulação” para enfraquecer a China. Na verdade, Kissinger aconselhou Trump durante seu primeiro governo que ele deveria tentar melhorar as relações com a Rússia para isolar a China, informou o Daily Beast em 2018.
Ironicamente, foi a teoria da conspiração do Russiagate promovida pelo Partido Democrata que impediu Trump de seguir essa estratégia kissingeriana durante seu mandato. As alegações infundadas e absurdas dos democratas de que Trump era um “fantoche de Putin” distraíram sua nova estratégia mais insidiosa da Guerra Fria, destinada a derrubar a China. Em seu segundo mandato, no entanto, Trump abraçou totalmente essa estratégia.
Esse comentário tem muita coisa parecida com o que aomm fiz há mais de um mês atrás nos “comentários” do RT Brasil, quando se conhecia apenas as intenções do governo Trump em relação à guerra da Ucrânia e à Rússia. O elo fraco da aliança Rússia-China é teoricamente a Rússia. Afinal há uma diferença ideológica bem acentuada entre Putin e o seu partido e Xi Jinping e o Partido Comunista da China. Porém a pressão pró -China dentro da Rússia, independentemente do ponto de vista de Putin, deve ser bem grande, devido à participação decisiva da China no processo de neutralização dos efeitos das sanções econômicas contra a Rússia. Por outro lado, não há nada que os EUA possa oferecer à Rússia que a China não ofereça de forma tão ou mais vantajosa. A Rússia teria que abrir mão de vultosos investimentos chineses previstos para a integração econômica e comercial dos dois países, separados por uma enorme fronteira terrestre. Teria também que aceitar debilitar os BRICS ao ouvir o canto da sereia trumpista. Minha conclusão é a de que, por puro pragmatismo, Putin não corresponderá às expectativas de Trump, mas tentará tirar vantagens geopolicas dessa situação, como já está fazendo, sem se afastar da China.