
Para ele, o Brasil não pode crescer. Quando isso ocorre, “você precisa dar doses maiores do remédio [isso é: aumentar mais os juros] para conseguir o mesmo efeito”, declarou em sessão na Câmara dos Deputados
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, defendeu a manutenção dos juros altos, afirmando que “a política monetária no Brasil precisa ser mais dura que a de outros países”. A declaração feita durante as comemorações dos 60 anos do Banco Central, na Câmara do Deputados, ocorreu em resposta às críticas de parlamentares, que repudiaram a recente decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de elevar a taxa Selic em 1 ponto percentual, para 14,25% ao ano.
Na sessão solene pelos 60 anos do BC, realizado na terça-feira (1/4), no plenário da Câmara, Galípolo disse que “a economia brasileira vem apresentando, ou apresentou recentemente, a queda mais rápida da sua taxa de desemprego e a menor taxa de desemprego da série histórica”, além de “um dos maiores crescimentos do rendimento das famílias”. Para ele, esses fatores atrapalham a política monetária.
“Você precisa dar doses maiores do remédio [isso é: aumentar mais os juros] para conseguir o mesmo efeito”, declarou Galípolo, ao tentar rebater críticas de deputados, que no evento exigiram a redução dos juros altos para que a economia não retorne ao estado de recessão.
Entre outros fatores, o BC justifica que precisa combater – via o aumento da Selic – a inflação, que segundo Galípolo vem sendo causada por um suposto aumento da demanda. No entanto, a atual pressão inflacionária do Brasil tem entre os seus principais fatores o aumento de preços administrados e das altas pontuais de alguns preços de commodities agrícolas e de energia no mercado internacional. Ou seja, por situações que não podem ser afetadas pela política monetária do BC.
O deputado federal Mauro Benevides Filho (PDT-CE) alertou que a decisão de aumentar os juros impacta no crescimento da dívida pública.
“Em dezembro, o Congresso Nacional cortou R$ 49 bilhões de despesas, mas no mesmo dia o Banco Central aumentou a Selic em 1 ponto e fez o ‘forward guidance’ (orientação sobre o que esperar da política de juros futuramente) de mais 2 pontos. Isso acabou representando R$ 150 bilhões a mais na dívida”, afirmou Benevides Filho, ao ressaltar que desde 1999 os resultados primários foram insuficientes para reduzir a dívida pública, que responde à taxa Selic.
“Desde 1999, quando foi instituído o tripé macroeconômico, de lá para cá, nunca se teve um resultado primário capaz de pagar os juros da dívida pública. Mesmo nos anos que eram positivos, nunca existiu. Então tem alguma coisa no modelo que precisa ser examinado”, defendeu Benevides.
O deputado Luiz Carlos Hauly (Pode-PR) exigiu que os diretores do BC: “parem de mentir para o povo brasileiro que a culpa é do déficit público! Não é. O déficit público do ano passado foi mínimo. Os Estados Unidos foi dez vezes maior, contra 5% de juros”.
“Na média dos bancos centrais do mundo e dos principais pontos de análise macroeconômico dos países, o Brasil não merece pagar 14,25% de juros, enquanto os Estados Unidos pagam 5,5%. Enquanto a média da OCDE é mais baixa ainda. E vou dizer do porquê, a nossa inflação média, no ano passado, foi 5%. O OCDE, 4,5%. Estados Unidos, 2,2%. Nossa dívida pública é de 76% do PIB, bruta. A média da OCDE, 84%. Estados Unidos, 124%”, lembrou o parlamentar. “Déficit fiscal, o do Brasil foi de 0,9%, em 2024. O da OCDE foi 3,4%. Nos Estados Unidos, o déficit foi de 8% do PIB”, sentenciou.
“Eu não tenho o que comemorar com o Banco Central”, afirmou o parlamentar. “Se não sair dessa manipulação de taxa de juros com base na inflação. Desde o plano real, a inflação média do Brasil é 6%. Onde está o problema?, questionou Carlos Hauly, ao denunciar que a manutenção da taxa de juros em níveis escorchantes “aumenta o custo das empresas brasileiras e do preço dos bens e serviços, tanto interno quanto na exportação, e encarece a vida do brasileiro”.
Já o deputado Heitor Schuch (PSB-RS) apelou para que o BC pudesse “dar uma reduzida nessa taxa de juros”. “Na semana passada teve a maior feira da agricultura familiar do Brasil, em Rio Pardo (RS). Não deu um negócio, porque ninguém se atreve a comprar uma máquina, por menor ou maior que seja, pagando 15% de juros. A indústria de máquinas vai parar e dos equipamentos agrícolas também. Porque o agricultor pode não ter muito estudo, mas sabe fazer conta e não quer ficar devendo para ninguém. E a grande maioria dos nossos agricultores gaúchos, porque plantaram cinco vezes e não colheram , estão endividados”, disse o parlamentar, ao destacar que seu estado foi bastante afetado por problemas climáticos nos últimos anos.
Nesta quarta-feira (2), em evento comemorativo na sede do Banco Central, em Brasília, com a presença de autoridades e ex-presidentes do BC, Galípolo agradeceu o ex-presidente da instituição Roberto Campos Neto pela ajuda durante a transição de mandatos.
“A finalidade do Banco Central é continuar tomando cada decisão de maneira independente, técnica, transparente e objetiva”, disse Gabriel Galípolo.
Na foto no alto, da esquerda para direita, Fernando Haddad, ministro da Fazenda; Davi Alcolumbre, presidente do Senado; Gabriel Galípolo; Hugo Motta, presidente da Câmara dos Deputados, e Simone Tebet, ministra do Planejamento.