Antônio Seguro é eleito presidente português no 2º turno com 66,4% dos votos. O fascista Ventura obteve 33,6%. Ampla frente democrática barrou o retrocesso
O candidato socialista Antonio José Seguro é o novo presidente de Portugal, vencendo ao fascista André Ventura neste domingo (8) por larga margem, 66,4% a 33,6%, com 97,45% das urnas apuradas, graça à ampla frente democrática contra o retrocesso.
Seguro mais que dobrou sua votação em relação ao primeiro turno, quando obteve 31,15% dos votos. Segundo a CNN, Ventura já reconheceu a derrota. Foi apenas a segunda vez em quarenta anos em que a eleição presidencial foi decidida no segundo turno.
“O povo português é o melhor povo do mundo”, afirmou o eleito, na saída de casa, na cidade de Caldas da Rainha, em Leiria, agradecendo à votação que barrou o caminho ao fascismo na primeira eleição após os 50 anos da Revolução de Abril.
Seguro irá suceder ao presidente Marcelo Rabelo, considerado um democrata conservador e que já cumpriu dois mandatos. No regime semipresidencial português, o presidente não tem poderes executivos, lhe cabendo cumprir e fazer cumprir a constituição e, em tempo de crise, tem o direito de dissolver o Parlamento para convocar eleições legislativas. A eleição ocorreu com o país em estado de calamidade pública devido a tempestades que assolaram Portugal, causaram enchentes e várias mortes, e dificultaram o comparecimento, que foi de 49%, comparável ao sob a pandemia.
O derrotado Ventura, ex-comentarista desportivo na televisão, hábil manipulador das redes sociais e autonomeado “antissistema” e “anticorrupção”, ganhou notoriedade pela xenofobia e racismo explícitos e chegou a ter dois dos slogans de sua campanha – “Isto não é Bangladesh” e “Os ciganos têm de cumprir a lei” – desautorizados pela justiça eleitoral.
O primeiro-ministro de centro-direita, Luis Montenegro, cujo candidato ficara apenas em quinto lugar no primeiro turno, anunciou “toda a disponibilidade para trabalhar em prol do futuro de Portugal, com espírito de convergência para resguardar o interesse dos portugueses”.
As duas maiores forças de esquerda, o Partido Comunista Português e o Bloco de Esquerda, logo após o primeiro turno, haviam chamado todos os democratas a unirem forças contra a ascensão de Ventura. Montenegro não declarou apoio a Seguro, mas não pediu voto para Ventura. Os outros três candidatos de direita, Cotrim de Figueiredo, Gouveia e Melo e Marques Mendes, também não se somaram à campanha do fascista, apesar de todos os acenos deste em prol da “unidade da direita”.
Em sua campanha, Seguro, ex-secretário-geral do PS, ex-eurodeputado e com ligações com o ex-primeiro-ministro e agora secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, se comprometeu em ser o “presidente de todos os portugueses”. Ele estava afastado da vida interna do PS desde 2014.
Ele classificou sua candidatura de “a casa comum de todos os democratas que, nesse momento difícil em nosso país, se unem para preservar o fundamental”.
Após o resultado do primeiro turno, Seguro chamou “todos os democratas, todos os progressistas e todos os humanistas a se juntarem a nós para derrotarmos o extremismo e quem semeia o ódio e divisão entre os portugueses”.
Ele também reiterou sua defesa dos serviços públicos, especialmente a Saúde, sob ataque da direita, advertiu que quase dois milhões de portugueses vivem em situação de pobreza, os salários e pensões mal conseguem chegar ao fim do mês e a falta de habitação que atinge “em especial nossos jovens”.
“[Impõe-se evitar] uma agenda e concepções reacionárias, retrógradas e antidemocráticas de questionamento do regime democrático e de ostensiva desvalorização e ataque à Revolução de Abril”, afirmou o secretário-geral do Partido Comunista Português (PCP), Paulo Raimundo. “[Fazê-lo] exige de forma clara e evidente o voto contra a candidatura de André Ventura e conduz o voto em António José Seguro”.
De forma análoga, a candidata do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, convocara a votar nele segunda volta, para derrotar Ventura e a “radicalização da direita”, e mantendo “os olhos bem abertos para todas as lutas que se vão seguir”.
O fato de o candidato do atual governo Montenegro só ter sido o quinto na disputa eleitoral é uma decorrência, também, da enorme resistência em Portugal à tentativa de impor uma “reforma trabalhista” para precarizar ainda mais o trabalho, facilitar as demissões e o arrocho salarial, como revelado na greve geral de 13 de dezembro, a maior dos últimos anos.
Ventura, que coincidentemente estava saindo de uma igreja ao ser entrevistado, prometeu “continuar a trabalhar humildemente” para conquistar a “confiança dos portugueses” e momentaneamente deixando de pregar o ódio encenou “torcer que Antonio Jose Seguro faça um governo que corresponda à expectativa”.











