Portugal terá 2º turno com PCP chamando todos a votarem no socialista José Seguro

Candidato socialista, Antonio José Seguro, sai na frente no primeiro turno de Portugal (AFP)

Catarina Martins, do Bloco de Esquerda também declara o voto em Seguro para derrotar o fascista André Ventura

Pela primeira vez desde 1986, as eleições presidenciais de Portugal vão a segundo turno, com o socialista Antonio José Seguro enfrentando o Javier Milei lusitano, André Ventura, no próximo dia 8 de fevereiro. Seguro obteve 31,15% dos votos (1.738.471) contra 23,39% do candidato da extrema-direita (1.305.055 votos) e venceu em todos os distritos, com exceção de Faro e Ilha da Madeira.

O grande derrotado foi Luis Marques Mendes, o candidato do primeiro-ministro conservador Luis Montenegro, que ficou em quinto lugar com 11,38% (633.789 votos).

As pequenas votações do Bloco de Esquerda e do PCP são indicativas de que boa parte do eleitorado de esquerda antecipou o voto útil, ainda mais porque Ventura chegou a ser apresentado à frente nas pesquisas. E, ainda pior, chegou a haver o risco de o segundo turno ser entre dois candidatos da direita.

Montenegro já anunciou que não apoiará ninguém – na prática uma recusa a endossar Ventura – alegando que seu campo político “não está representado no segundo turno”. Também o terceiro lugar, Cotrim de Figueiredo, disse na noite de domingo que não irá apoiar nenhum candidato no 2º turno.

Em 1986, o neosalazarista Freitas do Amaral chegou a vencer o primeiro turno, mas o socialista Mário Soares acabou sendo o eleito na segunda volta graças à frente ampla que rechaçou o retrocesso intentado às conquistas de Abril.

No regime semipresidencial português, o presidente não tem poderes executivos, lhe cabendo cumprir e fazer cumprir a constituição e, em tempo de crise, tem o direito de dissolver o Parlamento para convocar eleições legislativas.

TRUMPIZAÇÃO DA DIREITA

Ex-comentarista desportivo na televisão, hábil manipulador das redes sociais e autonomeado “antissistema” e “anticorrupção”, Ventura ganhou notoriedade pela xenofobia e racismo explícitos e chegou a ter dois dos slogans de sua campanha – “Isto não é Bangladesh” e “Os ciganos têm de cumprir a lei” –  desautorizados pela justiça eleitoral.

Em terceiro lugar, ficou o neoliberal Cotrim de Figueiredo (15,94%), seguido pelo almirante Gouveia e Melo (12,41%) e Marques Mendes (11,38%).  Catarina Martins, do Bloco de Esquerda e única mulher candidata, teve 2,05%, enquanto o comunista António Filipe teve 1,64%. Manuel João Vieira, Jorge Pinto, André Pestana e Humberto Correia obtiveram entre 1,08% e 0,08%.

Para analistas, o voto da direita tradicional se dividiu entre três candidatos (Cotrim, Gouveia e Melo e Mendes) – “se fragmentou”, segundo Ventura, que se gaba de ter saído do pleito como o ungido da direita, apesar de, até agora, nenhum setor da direita tradicional o ter subscrito.

“CASA COMUM DOS DEMOCRATAS E PROGRESSISTAS”

Em sua campanha, Seguro, ex-secretário-geral do PS, ex-eurodeputado e com ligações com o ex-primeiro-ministro e agora secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, se comprometeu em ser o “presidente de todos os portugueses”. Ele estava afastado da vida interna do PS desde 2014.

Ele classificou sua candidatura de “a casa comum de todos os democratas que, nesse momento difícil em nosso país, se unem para preservar o fundamental”.

Após o resultado do primeiro turno, Seguro chamou “todos os democratas, todos os progressistas e todos os humanistas a se juntarem a nós para derrotarmos o extremismo e quem semeia o ódio e divisão entre os portugueses”.

Ele também reiterou sua defesa dos serviços públicos, especialmente a Saúde, sob ataque da direita, advertiu que quase dois milhões de portugueses vivem em situação de pobreza, os salários e pensões mal conseguem chegar ao fim do mês e a falta de habitação que atinge “em especial nossos jovens”.

Sobre o resultado, afirmou que “venceu a democracia e voltaremos a ganhar no 8 de fevereiro”.

As mesmas pesquisas que chegaram a apontar Ventura na frente no primeiro turno, também indicavam sua derrota no segundo turno. Nas eleições parlamentares de maio, seu partido, o Chega, conquistou 60 cadeiras.

“PRIORIDADES CERTAS”

Nas palavras do próprio atual secretário-geral dos socialistas, José Luís Carneiro, o que está em disputa é se vai prevalecer a “ponderação, equilíbrio e visão democrática” representados por Seguro, ou a “convulsão, desequilíbrio, disrupção e mesmo vontade de romper com conquistas fundamentais que desde 1976 até hoje transformaram as nossas condições de vida para melhor” de Ventura.

Para Carneiro, Seguro venceu “também por colocar as prioridades certas” na sua campanha em paralelo à defesa da democracia e dos valores institucionais. “Saúde, em primeiro lugar, habitação, crescimento da economia e salários e defesa da dignidade das condições laborais de todos os portugueses”– diferenciando-se da “reforma” trabalhista do premiê Montenegro.

Ele também lançou um desafio aos eleitores. “Quem desejam ver a representar Portugal nas organizações internacionais? Quem pretendem ver na ONU a defender o direito internacional, a Carta da ONU, a paz, a segurança, o multilateralismo?”, questionou, defendendo que “é a essa pergunta que têm todos os democratas de responder” na segunda volta destas Presidenciais.

“BARRAR VENTURA”

“[Impõe-se evitar] uma agenda e concepções reacionárias, retrógradas e antidemocráticas de questionamento do regime democrático e de ostensiva desvalorização e ataque à Revolução de Abril”, afirmou o secretário-geral do Partido Comunista Português (PCP), Paulo Raimundo. “[Fazê-lo] exige de forma clara e evidente o voto contra a candidatura de André Ventura e conduz o voto em António José Seguro”.

Também ao chamar a derrotar Ventura e a “radicalização da direita”, a candidata do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, afirmou que a resposta adequada é “votar na segunda volta em António José Seguro com os olhos bem abertos para todas as lutas que se vão seguir”.

Ela registrou ainda a “reconfiguração e trumpização” da direita em Portugal, assinalando que “a hecatombe do resultado de Marques Mendes é a hecatombe do Governo e de Luís Montenegro, os grandes derrotados desta noite”.

Possivelmente, entre as razões para essa derrota do candidato de Montenegro, está a enorme resistência em Portugal à tentativa de impor uma “reforma trabalhista” para precarizar ainda mais o trabalho, facilitar as demissões e o arrocho salarial, além de reduzir o poder de negociação coletiva, que culminaram na greve geral de 13 de dezembro, a maior dos últimos anos.

Entre a numerosa comunidade brasileira residente em Portugal, a ameaça de eleição de Ventura traz crescente preocupação, por seu discurso anti-imigração e aberta hostilidade a estrangeiros, especialmente em relação a acesso a serviços públicos e inclusão social.

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