O presidente do Tribunal de Contas da União (TCU), ministro Vital do Rêgo, disse nesta segunda-feira (12) que o órgão terá acesso aos documentos do Banco Central (BC) que serviram de base para a liquidação do Banco Master, após uma reunião, a portas fechadas, com o presidente do BC, Gabriel Galípolo.
“Essa inspeção já está acontecendo e, pela reunião que fizemos hoje, definimos que TCU vai ter acesso aos documentos que foram base para processo liquidatário. Fizemos uma reunião com objetivos claros, de dizimar qualquer tipo de duvida sobre nossa competência”, declarou Vital em entrevista coletiva após a o encontro.
Segundo Vital, o BC disse ser “muito importante o TCU realizar fiscalização”. “Tivemos do BC as portas inteiramente abertas para o poder fiscalizatório”.
Há indícios de irregularidades do Banco Master que podem envolver cerca de R$ 12,2 bilhões em operações de crédito fictícias.
A reunião ocorreu na sede do Banco Central e contou também com a presença de diretores da autoridade monetária e do ministro Jhonatan de Jesus, relator do caso no TCU.
O encontro foi articulado após a decisão do tribunal de instaurar inspeção direta no BC para apurar se houve falhas na supervisão da instituição financeira antes da liquidação do Master, o que gerou desconforto no mercado e reação de entidades do sistema financeiro.
TENSÃO SOBRE FISCALIZAÇÃO
Oficialmente, as partes afirmaram que a conversa visa alinhar entendimentos institucionais sobre o papel fiscalizatório do TCU diante da autonomia técnica do BC, numa tentativa de conciliar prerrogativas constitucionais sem expor ainda mais a crise entre os órgãos.
“É fundamental equilibrar o dever de controle exercido pelo Tribunal de Contas com a independência operacional do Banco Central, que atua de forma técnica e prudente”, disse Vital do Rêgo, em posicionamento divulgado pela assessoria do TCU.
Do lado do BC, Galípolo afirmou que a autoridade está aberta ao diálogo institucional e que o objetivo do encontro é “esclarecer procedimentos e ampliar a transparência” sobre a liquidação do banco.
CASO MASTER E OS R$ 12 BI EM SUSPEITAS DE FRAUDE
A liquidação do Banco Master, controlado pelo empresário Daniel Vorcaro, foi decretada em novembro de 2025 pelo BC, após a instituição monetária identificar problemas graves de liquidez e irregularidades em carteiras de crédito que teriam sido utilizadas para justificar operações financeiras de grande volume.
Investigações da PF (Polícia Federal) e do MPF (Ministério Público Federal) apontam que o banco teria vendido ao BRB (Banco de Brasília), instituição pública do DF, carteiras de crédito fictícias no montante de cerca de R$ 12,2 bilhões, como parte do esquema investigado na chamada Operação Compliance Zero.
O impacto dessas fraudes vai além dos balanços do banco liquidados. Clientes e investidores reclamam por reembolsos que ainda não começaram, e o caso ganhou repercussão por revelar supostas lacunas na regulação e fiscalização do sistema financeiro.
A liquidação também resultou na prisão e posterior liberdade com tornozeleira eletrônica de Vorcaro, que responde por acusações ligadas ao esquema.
INSPEÇÃO DO TCU E REPERCUSSÕES NO MERCADO
Na última semana, o TCU havia determinado inspeção técnica nas dependências do Banco Central para avaliar os procedimentos que levaram à liquidação do Master, mas o próprio tribunal suspendeu temporariamente a medida para definir calendário de entrega de documentos, muitos classificados como sigilosos.
O embate provocou acirramento institucional entre ambas as instituições.
Autoridades do setor financeiro e entidades representativas reiteraram plena confiança na atuação técnica do BC, e defenderam a autonomia regulatória da autoridade monetária como pilar de sistema financeiro sólido.
Em nota conjunta, bancos, cooperativas e fintechs destacaram que a supervisão independente é “essencial para a estabilidade e resiliência do mercado”.
INSTITUCIONALIDADE E PRÓXIMOS PASSOS
Apesar de o diálogo desta segunda-feira ter ocorrido a portas fechadas, interlocutores de ambos os lados afirmam que a conversa buscou desanuviar ruídos institucionais e consolidar caminho para que a fiscalização prossiga sem ameaçar a confiança dos mercados nem o funcionamento regular da autoridade monetária.
Segundo fontes ouvidas pela imprensa, o TCU pode concluir a fase de inspeção em até 30 dias, dependendo da cooperação entre os órgãos e da entrega de informações solicitadas.
Do lado do BC, a expectativa é de que a análise seja técnica e que medidas de reforço à transparência sejam anunciadas para conter efeitos negativos sobre investidores e depositantes.











