“Queda dos juros tem que ser imediata e significativa”, defende Nilson Araújo de Souza

Nilson Araújo de Souza. Foto: Hora do Povo

Faria Lima usa a agressão ao Irã como pretexto para manter juros proibitivos. Selic não interfere nos preços do petróleo, diz economista

Nos últimos dias, tem se intensificado a campanha dos bancos e rentistas contra a redução da Selic, taxa básica de juros, que está em 15% nominal desde junho do ano passado, e que, em termos reais, ou seja, descontada a inflação, supera os 10% ao ano. O juro real no Brasil está entre os mais elevados do planeta. Esta taxa de juros está estrangulando a economia brasileira e os investimentos produtivos.

Eles estavam admitindo no máximo uma redução insignificante, de 0,25% ou de 0,50%, na próxima reunião do Conselho de Política Monetária (Copom), do Banco Central. Agora, os bancos estão aproveitando a guerra no Oriente Médio para pressionar pela manutenção da mamata atual.

PRETEXTO FALSO

Estão fazendo uma orquestração para manter ou alterar muito pouco as atuais taxas de juros absurdas, que vêm sendo praticadas pelo Banco Central. O pretexto apresentado pela Faria Lima é que a guerra de agressão dos EUA e Israel contra o Irã vai provocar inflação.

Segundo seus porta-vozes, o juro não poderia cair por causa da inflação que virá com a elevação dos preços do petróleo.

O economista e professor Nilson Araújo de Souza, autor, dentre outros, do livro “Economia Brasileira Contemporânea – De Getúlio a Lula”, contesta esta afirmação dizendo que a taxa de juros não tem nenhuma interferência no preço internacional do petróleo. Para a própria ideologia neoliberal, o que provoca inflação é o excesso de demanda; a taxa de juros funcionaria como um regulador da demanda, a fim de equilibrá-la com a oferta.

Mesmo essa tese aparentemente lógica está sendo contestada por economistas de extração neoliberal. Afirmam que uma taxa de juros persistentemente alta, como é a nossa, em lugar de combater a inflação, a acelera, porque os juros altos se transformam em custo para as empresas que o repassam para os preços. Sem falar no efeito deletério sobre a atividade produtiva. Muita gente comemorou o crescimento de 2,3% do PIB em 2025. Além de muito insignificante, o crescimento do PIB foi caindo, a cada trimestre, ao longo do ano, ou seja, desacelerando. Esta pode virar recessão se os juros básicos permanecerem nas alturas.

Portanto, “a manutenção dos juros nos níveis atuais, ou próximo disso, só agravará os custos das empresas”, além de seguir “pressionando as despesas financeiras do governo, sem nenhum efeito na inflação”, argumenta o professor, lembrando que em 2025 o governo foi obrigado a gastar mais de R$ 1 trilhão com juros da dívida pública.

CHOQUE DE OFERTA

Além disso, enfatiza o professor, “até as pedrinhas de areia da Praia do Olho d’Água sabem que o que está ocorrendo com o petróleo é um ‘choque de oferta’. Ou seja, é a redução da oferta mundial provocada pelo ataque do governo imperialista dos EUA contra o Irã. E problema de oferta, e logo em nível internacional, nem de longe se combate com juros elevados. Veremos que o Brasil já tem experiência com esse problema”.

Na opinião do economista, uma alteração muito pequena na Selic na reunião desta semana do Copom, apesar de sinalizar o início da reversão da política monetária restritiva, alteraria muito pouco os indicadores macroeconômicos do país.

Com o juro real passando de 10%, uma redução de 0,25% ou 0,50% já teriam pouco efeito, argumenta Nilson Araújo de Souza. Mas, “nem essa redução insignificante o ‘mercado’ – leia-se meia dúzia de monopólios financeiros – está admitindo mais”, denuncia o professor.

Segundo o economista, não é admissível que o BC mantenha os níveis atuais de juros ou reduza muito pouco a taxa Selic. “Isso seria desastroso para o país”, alerta.

Ele também desmonta a carcomida tese monetarista de arrochar a sociedade sob o pretexto falacioso de combater inflação. “Em primeiro lugar, não há nenhum excesso de demanda atualmente no Brasil que justifique a manutenção de uma política de juros que coloca o Brasil com uma das maiores taxas de juros reais do mundo”, afirmou.

“E, segundo, mesmo que houvesse algum excesso de demanda, o remédio certo seria o aumento dos investimentos produtivos, para atender a demanda aquecida, e não a elevação dos juros para reprimir o consumo e a atividade econômica”, acrescentou.

PETROBRÁS E A DEFESA DO BRASIL

O economista argumenta ainda, sobre os preços dos combustíveis, que a Petrobrás não necessariamente tem que internalizar os preços estipulados pelas bolsas externas, que são muito sensíveis à especulação petroleira, principalmente em tempos de guerra. O Brasil, segundo ele, é exportador de petróleo e tem grande capacidade de produção de derivados internamente. “Seus preços, portanto”, defende Nilson, “podem ser definidos pelos custos de produção mais uma taxa de lucro adequada”. A Petrobrás tem capacidade tecnológica para isso e deve se afastar da especulação internacional”, prossegue o professor.

Além disso, deve, como o governo já começou a fazer, defender os consumidores e taxar as exportações de petróleo, estimulando a produção interna e o abastecimento do mercado nacional de derivados. “O Brasil tem também capacidade de refino, só que as refinarias foram presenteadas a grupos estrangeiros, que preferem refinar o petróleo extraído aqui, em suas refinarias em sua sedes”, denuncia.

Nilson explicou que a política de preços chamada de PPI (Paridade de Preços de Importação), aplicada integralmente na administração Temer e Bolsonaro, provocou uma grande crise no país ao internalizar a frenética especulação com os preços do petróleo. Ele destacou que o governo Lula se afastou dessa política, mas ainda há pressões de grupos importadores para que o país se submeta aos preços internacionais. A hora, segundo Nilson, “é de defender a economia nacional”. Ou seja, “fazer com que a Petrobrás seja uma empresa efetivamente pública, com prioridade no desenvolvimento do país, acima da prioridade na distribuição de dividendos aos seus acionistas, a maioria estrangeiros”.

Nilson argumenta ainda que, depois da desaceleração do ano passado, já há sinais, neste início de ano, de desaquecimento da economia. Ele alerta que “manter os níveis de juros nestes patamares praticados pelo BC, numa circunstância como esta, vai agravar essa tendência”. “A indústria está desacelerando e é um dos setores mais críticos à atual política monetária do Banco Central”, observa o economista, defendendo uma redução importante nas taxas de juros “para que o país possa acelerar o seu crescimento e começar a promover a transição de uma economia financeirizada para uma produtiva”.

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