“Mercado” considera nome do economista Guilherme Melo “um fator de risco” para a manutenção dos juros nas alturas
A CNN Brasil publicou matéria segundo a qual o chamado “mercado financeiro”, leia-se bancos e grandes fundos revestidos do caráter “de investimento”, cujo CEP é situado na Faria Lima, enviou recado ao presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo, alertando para “um fator de risco” contrário à atual condução da política monetária a provável indicação do economista Guilherme Mello para a diretoria de Política Econômica do órgão.
O nome do economista teria sido indicado pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que tem a prerrogativa legal de indicar os diretores do banco, como o fez com Galípolo.
Bastou circular essa informação para que os rentistas ensaiassem uma reação ao modo de quem está acostumado a conduzir os rumos da política monetária, utilizando, para isso, a direção do BC, como tem acontecido nos últimos tempos, especialmente na gestão do ultraliberal Roberto Campos Neto, sob o governo Bolsonaro, mas, para espanto de muitos, também com Galípolo, que manteve e sustentou a Selic nas alturas.
A reação resultou no disparo dos juros futuros de prazo mais longo, aqueles que refletem de forma mais direta a percepção “de risco” sobre o cenário que está porvir. Foram 15 basis points a mais, o equivalente a 0,15 ponto percentual.
O movimento chamou a atenção pois se dá quando os juros de curto prazo, com vencimentos até 2028, estão em queda, pressionados diante da expectativa do início de um ciclo de cortes da Selic, que ainda não se confirmou, diante da relutância da atual direção do BC, que prefere continuar mantendo os juros na estratosfera sob o surrado e falacioso pretexto da pressão inflacionária, nunca tão contida como nos dias de hoje.
No fundo, como se sabe – e está explícito nas atas da autoridade monetária -, o objetivo é conter o crescimento da economia, em prejuízo do setor produtivo e dos que trabalham.
Mas o que faz a Faria Lima amedrontar-se com o nome de Guilherme Mello: o simples fato dele ser considerado um economista “heterodoxo”, contrário à política de juros alucinantes para conter a inflação, embora, em sua trajetória, já tenha dado sinais de conciliação com os chamados “ortodoxos”.
Outro dado que provoca a desconfiança dos bancos e rentistas é que Mello foi formado na Unicamp, cuja escola econômica não se rendeu à ortodoxia neoliberal e resiste com a presença de professores como Luiz Gonzaga Belluzo e Frederico Mazzucchelli. Carlos Lessa e Maria da Conceição Tavares também integravam essa academia.
Mesmo sabendo que as decisões em torno da política monetária são colegiadas, ou seja, tomadas, pelo menos em seu aspecto formal, pela diretoria do BC, a Faria Lima tem outras opões para controlar a importante diretoria para a qual Mello estaria sendo indicado.
Carlos Kwal, ex-secretário do Tesouro Nacional e, atualmente, sócio da Oriz Partners, uma badalada instituição financeira de São Paulo, abriu o jogo ao falar do cargo: “a direção da Política Econômica é o coração da política monetária”.
Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, também reagiu à suposta indicação de Mello: “Ele é um professor de economia de perfil heterodoxo, sempre teve esse viés, publicou muitos estudos contrários à política do Banco Central e isso tende a causar um ruído. Talvez não fosse o nome mais adequado”, afirmou polidamente.
Outro que, certamente, confrontaria a indicação de Mello, se estivesse vivo, é o avô do ex-presidente do BC. “Ou o Brasil acaba com os economistas da Unicamp, ou os economistas da Unicamp acabam com o Brasil”, disse Campos Neto, na época, no programa Roda Viva, depois de ter servido a ditadura por um longo período com a batuta da política ultraliberal, no que foi rebatido, posteriormente, por um artigo de Mello em parceria com o economista André Biancarelli:
“A chamada ‘escola de Campinas’ é um projeto intelectual que assombra o liberalismo tupiniquim desde sua origem.”
As reações revelam que o setor rentista não quer correr nenhum risco na condução da política monetária restritiva hoje avalizada por Galípolo, mesmo tendo sido indicado por um presidente que, ao tempo de Campos Neto, fez as críticas mais ácidas a essa condução.
As informações dão conta de que o “mercado financeiro” prefere Paulo Picchet, atual diretor de Assuntos Internacionais do BC, alinhado com a política de juros altos praticada atualmente. Ou, então, Tiago Cavalcanti, professor do Trinity College, da Universidade de Cambridge, ou, ainda, Thiago Ferreira, pesquisador do Federal Reserve.
Neles, a Faria Lima não vê riscos de uma mudança na condução da diretoria de Política Econômica do BC.
Pelo que se sabe, Mello não é, rigorosamente, um economista alinhado com uma política fortemente desenvolvimentista, embora, dizem, tratar-se de um economista que recorre frequentemente aos ensinamentos de John Maynard Keynes, que defendia a ativa intervenção do Estado na economia para alcançar objetivos sociais e estabilizá-la.
Ele seria um defensor do que se chama de Teoria Monetária Moderna, uma abordagem heterodoxa segundo a qual governos com soberania monetária não enfrentam risco de insolvência e podem financiar gastos por meio da emissão de moeda, tendo como principal limite não o orçamento, mas a inflação e a disponibilidade de recursos reais.
“É exatamente essa preferência pela liquidez dos bancos, assim como a demanda por financiamento, que influencia diretamente a taxa de juros do financiamento. Se os bancos estiverem dispostos a ficarem mais ilíquidos, a pressão adicional por dinheiro gerada pelas novas decisões de investimento não afetará a taxa de juros. Caso contrário, as taxas de juros subirão conforme se elevar a preferência por liquidez dos bancos”, já escreveu ele.
Essa visão não serve aos que preferem continuar utilizando a alucinada política de juros altos para abocanhar, só de encargos, algo em torno de R$ 1 trilhão por ano na especulação dos títulos do Tesouro Nacional, recursos que, em grande medida, poderiam estar sendo destinados ao investimento público, hoje ainda muito acanhado, e às políticas sociais tão calorosamente defendidas por Lula.
Como não serve aos que pretendem manter o Brasil aprisionado a uma política de contenção dos gastos públicos, leia-se, por exemplo, saúde e educação, através de instrumentos ortodoxos como o Arcabouço Fiscal, limitador do investimento público e da renda.
Não por outro motivo, programas fundamentais para colocar o Brasil em outro patamar de desenvolvimento, como o Nova Indústria Brasil (NIB) e o Novo PAC, seguem patinando, sem poder oferecer aquilo que foi planejado na sua origem.
O BC, enfim, deve manter e, se possível, aprofundar a rota que leva à estagnação da economia e ao atraso social, enquanto na outra ponta um grupo cada vez mais reduzido é cevado pela especulação turbinada pela política de juros altos. Um grupo que, agora, se sente ameaçado com a mudança na diretoria do órgão, e já reagiu com um movimento claramente especulativo.
Avalia-se que a escolha de Mello seria uma forma do presidente Lula colocar alguém “verdadeiramente de confiança” no BC. Dizia-se algo semelhante de Galípolo e deu no que deu.
Em janeiro de 2024, quando o BC estava ainda sob comando de Roberto Campos Neto, indicado por Bolsonaro, Mello afirmou, em entrevista à Globo News, que a expectativa do governo era pela redução da Selic. Um bom sinal.
“As condições estão colocadas para uma contínua queda na taxa de juros para trazer a taxa de juros brasileira para um patamar que a gente chama de mais neutro, hoje ela ainda é contracionista, ela segura a economia, puxa para baixo a economia. Nós esperamos que ao longo deste ano ela caminhe para o campo da neutralidade”, afirmou.
Espera-se, caso a indicação seja efetivada, que a previsão se concretize e a diretoria colegiada do BC passe a ter, no mínimo, alguém que faça um contraponto a essa verdadeira insanidade que capturou a política monetária de um país que precisa, urgentemente, se desenvolver.
MARCO CAMPANELLA











