O artigo que reproduzimos abaixo são as observações do ex-governador, ex-senador e ex-prefeito Roberto Requião sobre o discurso de Lula no último Sete de Setembro.
O importante do artigo de Requião é a definição nítida das limitações do programa que Lula estaria, supostamente, propondo para o país.
Mas isso o leitor poderá comprovar no artigo do ex-governador do Paraná. Eventuais discordâncias, aqui ou ali, quanto à avaliação da conjuntura que redundou no impeachment de Dilma Rousseff, ou naquela que o sucedeu, não devem nos fazer perder o que há de certo naquilo que escreve Requião.
Resta-nos apenas uma breve observação, mais de caráter histórico – porém, também, de caráter político.
Depois de tudo o que ocorreu após a derrubada da ditadura, e, principalmente, depois do que aconteceu nos mandatos de Lula e Dilma Rousseff, não é mais um segredo – ou uma afirmação de alguns analistas – que Lula tem um discurso fora do governo e outro quando está no governo. Ou que seu discurso de campanha é radicalmente distinto de suas ações no governo.
Antes de seu governo – e daquele de sua sucessora – era possível não enxergar tal fenômeno. Agora, não mais.
Tome-se, por exemplo, o belo e inteligente programa energético da campanha de Lula em 2002 e compare-se com o que foi realizado logo em seguida, por sua ministra das Minas e Energia, Dilma Rousseff.
Veja-se a discussão sobre os juros, liderada pelo professor Reinaldo Gonçalves, também na campanha de 2002, e a política financeira que o ministro da Fazenda de Lula, Antonio Palocci, instalaria apenas alguns meses depois.
Em antigo texto sobre a atividade do presidente do Banco Central de Lula, Henrique Meirelles, comentamos que a política implementada pelo BC naquele governo parecia muito mais com o programa do adversário vencido por Lula nas eleições, José Serra, do que com o programa que o povo consagrara nas urnas, em 2002.
E nem estamos nos referindo, ainda, ao famigerado – e despudorado – ajuste fiscal de Dilma Rousseff, que teve seus pródromos já no último semestre do segundo mandato de Lula, em 2010 (aliás, Lula, essencialmente, apoiou a bárbara política de Joaquim Levy, no segundo mandato de Dilma).
Porém, o que Requião demonstra, no artigo abaixo, é que mesmo o programa de campanha atual de Lula – o programa que exibe agora, quando está fora do governo – é muito limitado para o Brasil, para as necessidades de seu povo, para os problemas da nossa Nação (C.L.).
Apartes que eu faria ao belo discurso de 7 de Setembro do ex-presidente Lula
ROBERTO REQUIÃO *
Com certa tensão, pois estava torcendo fortemente para que ele fizesse um bom discurso, ouvi e apreciei o pronunciamento de Lula no dia 7 de Setembro.
Gostei de ouvi-lo retomar alguns temas preciosos e essenciais à nacionalidade, como a nossa soberania, hoje tão vilipendiada por essa presidência de capachos dos imperialistas.
No entanto, acrescentaria – e reforçaria – alguns temas à fala de Lula. Há muito tempo, mais tempo do que gostaria, tenho feito reparos às posições do PT em relação ao Banco Central. Esse negócio de Banco Central independente com o que meu prezadíssimo amigo Fernando Haddad andou flertando na campanha de 2018 – e parece que dele ainda não se desquitou – é um dos pressupostos para que o capital financeiro continue impondo seus interesses à economia nacional.
Independente do quê, Senhor dos Aflitos? Como é possível pensar em um projeto de desenvolvimento nacional, que crie empregos, que aumente os salários, que impulsione o consumo interno, que retome e inove o nosso processo industrial, e cuide da sanidade de nossa moeda, com um Banco Central que nada mais é que um puxadinho dos bancos, dos financistas, dos rentistas, da agiotagem consentida e louvada?
Então, acrescentaria ao discurso de Lula uma proposta de reformulação radical do papel do Banco Central, colocando-o a serviço do país, não da vil, asquerosa e deletéria especulação financeira.
É claro que não haverá de ser um rompimento tranquilo, pois vamos enfrentar quase um século de doutrinação da ortodoxia monetária e financeira. Quase um século de pregação ideológica, de preconceitos ideológicos entranhados nos poderes públicos, na imprensa, na academia. E nem se fale em déficit público, em retomada da economia com financiamento público, que já sacam as metralhadoras.
Ah, atalhariam também os nossos rapazes e as nossas moças com alta sensibilidade às reações da agiotagem nacional: isso não seria bem recebido pelo mercado, provocaria um mal-estar entre os investidores, aumentaria o nosso isolamento, a mídia cairia de pau e coisa e loisa.
E daí? Que se nos dá se o mercado chie, guinche e zurra se os nossos compromissos são com Brasil e o seu povo e não com o mercado e os rentistas muito ricos.
Certa esquerda, aquela boazinha, bem comportada, que gosta de exibir suas habilidades com os talheres à mesa da burguesia, precisa se livrar dos fetiches com que se ataviou para parecer confiável. BC independente, superávit primário, austeridade fiscal, dólar flutuante, e o que mais? Teto dos gastos?
O segundo aparte que faria a Lula seria para reforçar a mensagem contra o entreguismo e contra a desestatização das empresas que são estratégicas para a implantação de um projeto de desenvolvimento nacional e popular. Precisamos recuperar e dar sustância ao discurso francamente nacionalista, brasileiro, sem medo do que os apátridas e os silvérios do mercado, e da mídia comercial, possam dizer.
Por fim, apartearia o companheiro Lula sugerindo que ele propusesse um programa de ação mínimo que unisse todos os brasileiros de boa vontade, ponto de partida para uma frente realmente nacional, popular e democrática. Um programa onde constassem pontos como: referendo revogatório de todas as medidas antinacionais, antipopulares e antidemocráticas, aprovadas desde o golpe de 2016 até hoje; medidas emergenciais para a criação, a curtíssimo prazo, de milhões de novos empregos; aumento salarial, recuperando as perdas dos últimos cinco anos e que contemplasse também os aposentados e pensionistas; retomada da política de aumento real do salário mínimo; medidas urgentes para impedir a disparada dos preços dos gêneros de primeira necessidade e de consumo popular; recuperação e elevação dos investimentos em saúde, educação, habitação popular, saneamento básico e infraestrutura; resgate da política de apoio à agricultura familiar e da reforma agrária; retomada da política externa independente, soberana e alinhada aos interesses do desenvolvimento, da segurança, da paz, da cooperação e concórdia entre os povos; imediata elaboração e execução de uma política nacional de defesa e preservação da Amazônia.
Quando acenamos ao povo, os nossos corações não devem estar plenos somente de boas intenções. Devemos trazer nas nossas mãos propostas concretas, factíveis que atendam imediatamente os brasileiros. Emergência é emergência e não pode ser adiada!
Tocaria também no tema corrupção. Firmeza no combate à corrupção que endemicamente contamina a sociedade, mas sem cair em armadilhas entreguistas e perseguição, atropelamento do Direito com intenções ideológicas, como hoje ocorre.
São os apartes que gostaria de fazer ao pronunciamento do companheiro Luís Inácio Lula da Silva. Espero que ele, e vocês, aceitem.
Para concluir: que tal sermos práticos e começarmos hoje mesmo uma campanha nacional contra o aumento de preços dos alimentos? Acredito que uma campanha assim, de fortíssimo apelo popular, poderia ser o ponto de partida para unificar o discurso e as ações das oposições contra o governo, que já descartou qualquer medida para impedir a alta de preços. Trezentos reais de ajuda emergencial ou de renda mínima… para comprar o quê? Se estávamos procurando por onde começar, que tal por aqui?
*Roberto Requião é ex-senador da República e foi três vezes governador do Paraná. Também presidiu o Eurolat, o parlamento Europeu e Latino-americano, além de comandar o Parlasul.