O rompimento de uma adutora da Sabesp que interditou a Rodovia Anhanguera nesta sexta-feira (28) é mais um episódio de uma sequência de falhas que tem se tornado cada vez mais frequente desde a privatização da companhia. O vazamento, registrado no km 24, na região do Jaraguá, Zona Norte de São Paulo, bloqueou totalmente a via e provocou congestionamento desde o km 30, obrigando motoristas a buscarem rotas alternativas em plena tarde de sexta-feira. O abastecimento de água no entorno também foi suspenso para manutenção.
O episódio, que se tornou rotina para moradores e trabalhadores, não é isolado. Duas semanas antes, outro vazamento de grandes proporções no Jardim Damasceno, também Zona Norte, alagou ruas, interrompeu o fornecimento e exigiu reparos emergenciais pela companhia privada. Moradores chegaram a depender de caminhões-pipa enquanto esperavam a normalização, prevista para até 24 horas após o conserto.
Os casos se somam ao crescimento alarmante das falhas na rede desde que o controle da Sabesp foi transferido ao setor privado, em 2024. Dados obtidos pela TV Globo junto à agência reguladora – Arsesp, – mostram que, apenas até julho de 2025, foram registradas 52 falhas – número sete vezes maior que o registrado em todo o ano anterior, quando ocorreram apenas sete. A reversão brusca interrompe uma tendência histórica de redução: foram 82 falhas em 2020, caindo para 43 em 2021, 33 em 2022 e 20 em 2023. A promessa de eficiência, portanto, não resistiu aos primeiros meses de operação privada.
Especialistas apontam que o problema não está apenas no volume de ocorrências, mas na natureza delas. O engenheiro Antonio Eduardo Giansante, professor do Mackenzie, lembra que interrupções causadas por falta de energia ou vandalismo não explicam o avanço dos rompimentos. Para ele, o que se vê é a ausência de manutenção estruturada e de monitoramento contínuo. “Não basta atuar quando o dano já está feito. O correto é prever, acompanhar o desgaste, trocar antes de quebrar. Hoje, a gestão atua para corrigir falhas, quando deveria evitá-las”, ressalta.
A precarização do serviço corre paralela ao aumento do lucro. Em 2024, a Sabesp privatizada registrou R$ 9,5 bilhões de lucro líquido – alta de 171,9% em relação ao período anterior. No mesmo momento em que os números cresciam para o mercado financeiro, mais de 700 apartamentos em Santo Amaro chegaram a ficar quase um mês com torneiras secas, e milhares de famílias da periferia precisaram comprar água para beber e tomar banho.
Para o Sintaema, sindicato dos trabalhadores do setor, não há mistério na equação: corte de custos, demissões e queda no quadro técnico. Mais de quatro mil trabalhadores foram desligados desde a privatização, realizada pelo Governo Tarcísio de Freitas em julho de 2023, sendo 1,35 mil justamente na área de Operação, responsável por garantir que água chegue às casas, escolas e hospitais.
Ao mesmo tempo em que lucra, a concessionária falha onde deve atuar: fornecimento regular, manutenção preventiva, segurança hídrica. Quanto maior o rompimento, maior o prejuízo para a população – e mais distante parece o discurso de que a privatização traria modernização, qualidade e expansão do serviço.
A água, que deveria ser direito e bem comum, converteu-se em mercadoria. Enquanto a empresa comemora lucros recordes, a população assiste à quebra da promessa de eficiência alardeada pelos privatistas de que o interesse público seria prioridade da
“Demissões em massa, assédio, contas abusivas e água de péssima qualidade chegando às torneiras, principalmente nas periferias. Enquanto o mundo reestatiza serviços de saneamento, São Paulo segue na contramão, entregando a vida do povo à Faria Lima. O Sintaema segue firme na resistência: água não é mercadoria!”, criticou o sindicato em sua página eletrônica.











