Saarauís denunciam “indústria da morte” israelense

Saarauís denunciam a “tecnologia israelense a serviço da morte do reinado do Marrocos" (Caravana Brasileira)

“Nosso povo tem um alto nível de pessoas mutiladas que se reintegram, que não desistem, inclusive muitos voltam para o campo de batalha”, relatou Aziz Haidar, presidente da Associação Saarauí de Vítimas de Minas (ASAVIM) , à Caravana Brasieira de Solidariedade

Na tarde do dia 27 de novembro a sede daabriu suas portas especialmente para receber nossa delegação. Era uma quinta-feira, mas aqui na República Árabe Saaarauí Democrática (RASD), de cultura islâmica, um dia de descanso.

Aziz Haidar, presidente da organização, poeta e pintor, é ele mesmo uma vítima de mina terrestre. Combatendo as tropas marroquinas, estava em um jipe que explodiu. Um amigo morreu na hora. Acidentado, fez uma longa viagem de carro até o hospital em Tindouf, na Argélia, onde havia médicos cubanos. Ali teve amputado seu braço direito. As duas pernas estavam feridas e foi transferido para Argel, onde há melhor estrutura. Apesar dos esforços da equipe médica, suas duas pernas também tiveram que ser amputadas, pois gangrenaram. Foi dos argelinos que recebeu suas próteses e o apoio para se adaptar à nova realidade. “Comecei uma outra vida, já não era igual”, declarou.

“Não é fácil para uma pessoa mutilada manter sua vontade de viver, readequar-se ao próprio corpo. Muita gente desanima, se deprime. Nosso povo tem um alto nível de pessoas mutiladas que se reintegram, que não desistem, inclusive muitos voltam para o campo de batalha. Eu inclusive, agora dirijo carros, coisa que não fazia antes do acidente. É preciso continuar vivendo, lutar pela vida”, relatou Aziz.

PRÓTESES EM AMBAS AS PERNAS

Na sede da entidade, Aziz nos mostrou as próteses que usa nas duas pernas. Nas paredes, fotos de crianças, mulheres, homens, animais mutilados pelas bombas terrestres, que se movimentam por todo o território. Se quem as enterra não sabe onde o fez, elas tampouco estariam no mesmo lugar. Se espalham quando chove, de forma descontrolada. As regiões que mais receberam as minas, as mais próximas do grande muro da vergonha, são as mais perigosas.

Agora está ainda mais difícil viver na zona liberada, pois além das minas terrestres os céus são povoados por drones que já vitimaram mais de 300 pessoas. As máquinas atingiram saarauís, mauritanos, argelinos. Tecnologia israelense a serviço da morte.

Nesta guerra tão desigual, os sobreviventes dos acidentes com minas e explosivos são atendidos pela ASAVIM, que os auxilia a se reintegrar à sociedade, combatendo e mitigando qualquer forma de discriminação. Oferece apoio socioeconômico e psicológico, defendendo seus direitos. Fundada em 2005, ajuda as vítimas das minas terrestres, bombas de fragmentação e restos de explosivos. Atende a população que reside nos campos de refugiados e na zona liberada. Apoia pequenos negócios e cooperativas, oferece equipamentos e insumos – cadeiras de rodas, de banho, colchões ortopédicos, fraldas, muletas, ar-condicionado, geladeiras – leva cestas básicas de alimentos, faz adaptações nas casas.

De um lado, uma máquina de guerra que consome de 3 a 4 milhões de dólares ao dia. Do outro, um povo que, mesmo mutilado, volta às armas pelo direito ao seu território. Somam-se a esta corrente de vida, professores e médicos cubanos, o exemplo argelino de amor e solidariedade. Há 84 países que os respaldam reconhecendo seu direito à soberania e à autodeterminação. A RASD tem assento na União Africana. Alguns povos do mundo enviam sua solidariedade na forma de alimentos, água, construindo escolas.

Até este momento, nosso governo sequer reconhece seu direito de existir como uma nação soberana.

Nesta caravana, assim como nas que nos precederam, representamos aqueles que se somam à corrente de solidariedade, acreditando que a vida vencerá a máquina de guerra. Os saarauís, por seu lado, entregam seu sangue e sua carne pela causa. E constroem, no exílio, sua República.

Monica Fonseca Severo, da wilaya Bojador, República Árabe Saarauí Democrática, novembro de 2025.

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