
Segundo o governador paulista, o ataque às aposentadorias, pensões e o aumento da fome dos pobres na Argentina representam o “rumo certo”
Durante um evento com representantes do mercado na sexta-feira (28), o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), deixou clara sua oposição à proposta do governo federal de isentar o Imposto de Renda para aqueles que ganham até R$ 5 mil mensais. A iniciativa, que pode beneficiar milhões de trabalhadores brasileiros, foi criticada por ele sob o argumento de que comprometeria investimentos e levaria ao fracasso econômico.
“Quando você, por exemplo, abre mão de uma base de pagantes relevantes, quando você troca e aí resolve fazer o seguinte: Eu vou abrir mão dessa base, que é o que todos os países fazem, e vou apostar em outra coisa, eu vou tributar o capital, vou tributar, o estoque de capital. Ou seja, eu vou destruir a poupança e impedir o investimento. E aí é o contrato com fracasso”, declarou o governador.
O projeto, que tramita no Congresso Nacional, tem como objetivo aliviar o peso dos tributos sobre os trabalhadores de menor renda, transferindo uma parte da carga tributária para os mais ricos.
Enquanto trabalhadores poderiam ter um alívio financeiro de cerca de R$ 4 mil ao ano, segundo estudos do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese), Tarcísio se coloca contra essa proposta, sustentando a necessidade de manter os tributos sobre os assalariados. Em sua visão, o governo federal estaria apostando em uma política eleitoreira e colocando o país em risco de “superinflação e superendividamento”.
ELOGIOS A MILEI
A crítica de Tarcísio também se estendeu aos programas sociais alegando que “a gente não está dando a porta de saída, não está emancipando ninguém e a gente vai ficar cada vez mais limitado”. Sua posição reforça a lógica de que os mais pobres devem pagar a conta, enquanto os mais ricos seguem sendo beneficiados.
O governador rasgou elogios à política de arrocho praticada pelo presidente argentino Javier Milei, exaltando suas “medidas impopulares” e alegando que ele estaria colocando a Argentina no “rumo certo”.
“A gente precisa fazer o que tem que ser feito, porque vai ficar uma conta amarga para ser paga lá na frente. E alguém vai ter que chegar e tomar medidas impopulares para poder botar o Brasil no rumo certo. O Milei fez isso com muita propriedade na Argentina. Ele comunicou que ia tomar medidas duras na campanha, no discurso de posse, está tomando medidas duras”, afirmou.
Porém, a realidade vivida pelo povo argentino é dramática. Sob Milei, a inflação disparou e o PIB do país encolheu 1,7% apenas em 2024. Apesar de prometer ajuste fiscal, Milei recorreu ao Fundo Monetário Internacional (FMI) para um empréstimo bilionário, enquanto cortava investimentos públicos e programas sociais.

Os impactos são devastadores: a pobreza cresceu de maneira alarmante, com mais de 5 milhões de pessoas entrando nessa condição só no primeiro semestre de 2024. Entre elas, 3 milhões passaram a viver em situação de indigência, sem acesso suficiente à alimentação. De acordo com a ONU, um milhão de crianças dorme com fome todos os dias no país vizinho.
“A situação está ruim há algum tempo, os salários não são suficientes para comer, e o auxílio estatal tampouco”, relata Noelia, uma argentina de 38 anos que depende de refeições comunitárias para alimentar seus três filhos. A situação se repete em inúmeras famílias, com refeições reduzidas à base de pão e mate cozido, como conta Rosa, de 57 anos.
A desnutrição infantil cresceu a ponto de médicos argentinos identificarem casos de escorbuto e deficiência severa de vitaminas, algo antes associado a países em situação extrema de miséria. O colapso social levou o desemprego a crescer, com mais de 47% dos trabalhadores vivendo na informalidade e 30% dos trabalhadores formais já classificados como pobres.