O presidente norte-americano, @therealDonald Trump, formalizou, no Fórum de Davos, nesta quinta-feira (22), a constituição do “Conselho da Paz”, seu clube privé já denunciado pelas pretensões a virar uma “ONU paralela” e “polícia do mundo”. E que, pelas modestas dimensões do evento, já nasce esvaziado, revelando o isolamento de Trump no planeta inteiro.
Entre os estadistas que se dispuseram a fazer figuração para Trump estão o presidente da motossera, o argentino Javier Milei, o presidente do Paraguai, Santiago Peña, e o primeiro-ministro do Kosovo, Albin Kurti. Com exceção da Hungria de Viktor Orban, nenhum país europeu ocidental apareceu. Presentes ainda, Azerbaijão, Bulgária, Armênia, Uzbequistão, Casaquistão, Indonesia e Mongólia.
Dos países árabes e muçulmanos, representantes da Jordânia, Emirados Árabes Unidos, Catar, Arábia Saudita, Turquia e Paquistão. Também o tecnocrata palestino Ali Shaath, nomeado para encabeçar o governo provisório em Gaza, conforme a resolução 2803 do Conselho de Segurança da ONU.
Um dos poucos integrantes confirmados do “Conselho” de Trump, o genocida Benjamin Netanyahu, com mandado internacional de prisão do Tribunal Penal Internacional, não foi com medo de sair de lá para o xilindró.
Teriam sido enviados 60 convites para integrar o “Conselho”, até mesmo ao Papa Leão XV. A maioria dos convidados preferiu não se pronunciar ainda.
“NÃO À ONU FAKE DE TRUMP”
Na véspera, o porta-voz da chancelaria chinesa, Guo Jiakun, havia reiterado a posição de Pequim de apoio ao sistema internacional centrado na ONU e contra qualquer instituição fantasma paralela.
“Não importa como a situação internacional evolua, a China defenderá firmemente o sistema internacional com a ONU em seu núcleo, a ordem internacional sustentada pelo direito internacional e as normas básicas que regem as relações internacionais com base nos propósitos e princípios da Carta das Nações Unidas”.
Em Moscou, o presidente russo Vladimir Putin recebeu o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, e ofereceu contribuir para o fundo do “Conselho da Paz” com US$ 1 bilhão, das reservas russas congeladas em bancos dos EUA, para ajuda humanitária à Palestina. “Acreditamos que apenas a formação e o funcionamento adequado do Estado palestino podem levar a uma solução final do conflito no Oriente Médio”, afirmou Putin.
A França anunciou que estava fora, com o ministro das Relações Exteriores, Jean-Noel Barrot, assinalando que “a carta deste ‘Conselho da Paz’ vai além do âmbito de Gaza e, portanto, além do plano de paz que foi aprovado pelas Nações Unidas. E porque a Carta, na sua redação atual, é de fato incompatível com os compromissos internacionais da França e, em particular, com a sua adesão às Nações Unidas, que obviamente não pode ser posta em causa em circunstância alguma”.
Celso Amorim, principal assessor internacional do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em entrevista ao O Globo, disse que o estatuto para criação do Conselho de Paz enviado junto ao convite representa, na prática, uma tentativa de reforma da Organização das Nações Unidas (ONU) conduzida por um único país — algo que considera inaceitável. Ele acrescentou não ver possibilidade de o Brasil aderir à proposta de Trump nos termos em que foi redigida.
FIGURAÇÃO E ISOLAMENTO
Aos parcos figurantes, Trump, no seu estilo megalomaníaco, disse que eram “as pessoas mais poderosas do mundo”, acrescentando que “isto não é os Estados Unidos, é para o mundo”. “Acho que podemos espalhar isso para outras coisas à medida que tivermos sucesso em Gaza”, delirou.
Na terça-feira, ele havia sido mais explícito: “Acho que vai ser incrível, esperava que a ONU pudesse fazer mais, esperava não precisar deste conselho, mas as Nações Unidas… em nenhuma das guerras que eu encerrei, as Nações Unidas me ajudaram”.
Nos últimos meses, tendo bombardeado oito países, prometido anexar o Canadá, a Groenlândia e o Canal do Panamá, mandado executar extrajudicialmente mais de 120 pessoas no mar no Caribe e no Pacífico, e bombardeado a Venezuela e sequestrado o presidente legítimo e ainda ameaçado Cuba de invasão, Trump demonstrou extensamente quais são seus “princípios de paz”.
Pelo estatuto ungido em Davos, Trump é presidente vitalício e quem dá a palavra final sobre tudo, e quem convida e desconvida participantes no Conselho. Também estabeleceu a módica quantia de US$ 1 bilhão por um lugar permanente em seu exclusivo clube.
Somando o agradável [ao ego de Trump] ao útil [à sua ganância], o evento seguiu com a apresentação, pelo genro do presidente norte-americano, Jared Kushner, do projeto imobiliário “Nova Gaza”, com 180 torres ao longo de 40 km de litoral e com vista para o Mediterrâneo. E que lembra muito a tristemente célebre “Riviera sobre Cadáveres”, antevista em AI em vídeo que causou comoção nas redes sociais, no pior momento do genocídio.
GENOCÍDIO A CONTA-GOTAS
Enquanto Trump asseverava em Davos que “níveis recordes” de ajuda humanitária haviam entrado em Gaza desde o início em outubro de um acordo de cessar-fogo mediado pelos EUA, a agência de notícias norte-americana, Associated Press, informava que “palestinos desesperados em um depósito de lixo em um bairro de Gaza cavaram com as próprias mãos itens plásticos para queimar e se aquecer no frio e úmido inverno no enclave, devastado por dois anos da guerra Israel-Hamas.”
Também noticiou a morte de quatro palestinos por tanques israelenses a leste da Cidade de Gaza enquanto Trump lançava seu Conselho da Paz, como informado pelo diretor do Hospital Shifa, Mohamed Abu Selmiya, e em Khan Younis, o enterro de três fotojornalistas assassinados na véspera.
Conforme a AP, “a cena na área de Muwasi, na cidade de Khan Younis, contrastava fortemente com a visão do território projetada por líderes mundiais reunidos em Davos, Suíça, onde inauguraram o Conselho de Paz do presidente dos EUA, Donald Trump, que supervisionará Gaza.”
Em Gaza, a situação segue dramática. “Meses após o início da trégua, centenas de milhares de palestinos ainda definham em campos de deslocados, abrigados em tendas e prédios devastados pela guerra, incapazes de protegê-los das temperaturas que caem abaixo de 10 graus Celsius”.
“Os preços são exorbitantes e procurar lenha é perigoso. Dois meninos de 13 anos foram baleados e mortos por forças israelenses na quarta-feira enquanto tentavam coletar lenha, disseram autoridades hospitalares.”
“Quando sobreviver significa cavar no lixo”, prossegue a AP. “Para Sanaa Salah, que mora em uma barraca com o marido e seis filhos, acender uma fogueira é uma tarefa diária crítica para que possam cozinhar e se aquecer. A família dela mal tem roupas suficientes para se aquecer.”
“Esta é a nossa vida”, ela disse. “Não dormimos à noite por causa do frio.” Lenha é simplesmente muito cara, disse Aziz Akel. A família dele não tem renda e não pode pagar os 7 ou 8 shekels (cerca de $2,5) que isso custaria. “Minha casa se foi e meus filhos ficaram feridos”, disse ele.
MAIS TRÊS JORNALISTAS MORTOS
“No hospital Nasser, no sul de Gaza, dezenas de palestinos se reuniram na quinta-feira para lamentar três jornalistas palestinos — incluindo um colaborador frequente da Agence France-Presse — mortos no dia anterior quando um ataque israelense atingiu seu veículo, segundo autoridades de saúde de Gaza.” A tropa de ocupação alega que o ataque ocorreu “após avistar suspeitos que operavam um drone que representava uma ameaça”. A AFP exigiu uma investigação completa.
Com os fotojornalistas Anas Ghunaim, Abdul Ra’ouf Shaath e Mohammad Qeshta, já chega a 293 o total de jornalistas assassinados pelas tropas israelenses. “Os enlutados choraram na quinta-feira sobre os corpos dos jornalistas, que estavam cobertos por sacos mortuários e tinham coletes de imprensa colocados no peito”, registrou a AP.
Os três jornalistas mortos na quarta-feira estavam filmando perto de um campo de deslocados no centro de Gaza, gerenciado por um comitê do governo egípcio, disse Mohammed Mansour, porta-voz do comitê.
Mais de 470 pessoas foram mortas por Israel em Gaza desde o início do cessar-fogo em outubro, segundo o ministério da saúde de Gaza – pelo menos 77, perto da linha de cessar-fogo que divide o território entre áreas controladas por Israel e a maior parte da população palestina de Gaza. São 71.384 os palestinos mortos em Gaza pelas tropas israelenses, e mais de 171.251 feridos, na maioria, mulheres, crianças e idosos.











