Trump destruiu “a certeza de que a América do Sul continuará sendo um continente de paz”, diz Amorim

Assessor para Assuntos Internacionais da Presidência, ex-ministro Celso Amorim (Foto: Tomaz Silva - Agência Brasil)

Lula, por sua vez, em artigo no New York Times, ao fazer um contraponto às pretensões imperialistas da Casa Branca, afirmou: “Esse hemisfério nos pertence!”

Celso Amorim, ex-chanceler e atual assessor especial do presidente Lula para assuntos internacionais, em entrevista à revista The Economist, afirmou que o ataque dos Estados Unidos à Venezuela promovido por Trump, bem como o sequestro de seu presidente, Nicolás Maduro, representa a destruição da “certeza de que a América do Sul é, e continuará sendo, um continente de paz”.

Segundo Amorim, a aparente tranquilidade era garantida por instrumentos jurídicos internacionais, como a Carta da ONU (Organização das Nações Unidas), “que se baseia no princípio da igualdade soberana dos Estados e proíbe a ameaça ou o uso da força contra a integridade territorial ou a independência política”.

“Para a maioria dos povos na região, intervenção militar estrangeira parecia uma coisa do passado. […] Ao final do século 20, a região estava estabelecendo os fundamentos para integração econômica, finalmente canalizando décadas de paz em direção ao desenvolvimento”, argumentou o ex-chanceler.

“Essa confiança se dissipou. A intervenção na Venezuela levanta uma questão maior que define cada vez mais a política internacional: como podemos viver em um mundo sem regras? Pilares do direito internacional concebidos para regular a segurança coletiva, disciplinar o comércio mundial e promover os direitos humanos estão sendo minados todos de uma vez. Quando a erosão começa, é difícil revertê-la”, sentenciou Amorim na mesma entrevista.

Segundo ele, o sequestro do presidente venezuelano lembra a captura do líder iraquiano Saddam Hussein, no início do século, quando os EUA, sob o pretexto de combater armas de destruição em massa, invadiu o Iraque e sentenciou sumariamente Saddam à morte. Tudo para encobrir o apetite pelo petróleo iraquiano, pois, até hoje, nenhuma prova foi exibida das tais armas de destruição em massa.

Amorim salientou, também, que a ação na Venezuela lembra os golpes de Estado perpetrados em vários países da América Latina nas décadas de 60 e 70, entre os quais o Brasil, com o apoio velado ou não da Casa Branca.

“Até a morte do presidente Salvador Allende durante o sangrento golpe no Chile em 1973 foi cercada por uma aura de heroísmo, totalmente ausente nesse caso”, denunciou o diplomata.

Na entrevista, Amorim avalia que o mundo está caminhando de volta para um momento em que “a força militar é o principal determinante da independência” e a guerra é vista como um “meio legítimo de mudança”. Ele aponta que a ausência de leis para regular as relações entre os países leva à “imprevisibilidade”, como “uma fonte formidável de poder e intimidação”.

Ele compara esse cenário com o “princípio da incerteza”, um dos fundamentos da física quântica, formulado em 1927 por Werner Heisenberg. A teoria mostra que é impossível conhecer com precisão, simultaneamente, a posição e o momento de uma partícula, e que quanto mais nos aproximamos de um, nos distanciamos do outro. “Agora podemos dizer o mesmo sobre o comportamento dos Estados: tudo pode acontecer a qualquer momento”, completou.

Nesse contexto, o Brasil aposta no multilateralismo, reforça Amorim e, como exemplo, cita o acordo assinado no último final de semana entre o Mercosul e a União Europeia — que levou 26 anos para ser costurado —, bem como o engajamento com instituições multilaterais, que, segundo ele, precisam de reforma. “Para a maioria dos países, investir na diversificação de parcerias e na autonomia tecnológica segue sendo o melhor caminho”, diz.

“O respeito à soberania e à não intervenção não deve ser abandonado. Devemos aprender com a história. Mesmo nas circunstâncias mais desafiadoras, a intervenção estrangeira —especialmente a intervenção militar— não é a resposta”, continuou o ex-chanceler.

“O Brasil continuará a trabalhar com a Europa, a China e outros países comprometidos com as instituições multilaterais e com a primazia do direito internacional. Esperemos que, juntos, possamos evitar um maior mergulho na violência e na anarquia”, esclareceu o assessor especial sobre a política externa que tem prevalecido no governo do presidente Lula.

“O Brasil fez uma aposta existencial na paz”, diz Amorim. “O uso de energia nuclear exclusivamente para objetivos pacíficos está consagrado na nossa Constituição, assim como a resolução de disputas por via pacífica e a busca de integração regional. Esse é o caminho que o Brasil escolheu e pretende seguir mesmo em circunstâncias adversas”.

“ESSE HEMISFÉRIO NOS PERTENCE”

Em artigo publicado no jornal norte-americano The New York Times, Lula, assim como seu assessor especial, Lula criticou o ataque dos EUA à Venezuela, sem citar o presidente Donald Trump. “Este hemisfério nos pertence”, escreveu.

O líder brasileiro definiu a ação na Venezuela como “mais um capítulo lamentável na contínua erosão do direito internacional e da ordem multilateral estabelecida”. Ele ressaltou que o futuro do país cabe a seu povo: “Somente um processo político inclusivo, liderado por venezuelanos, conduzirá a um futuro democrático e sustentável”.

O presidente chamou ações militares com a dos EUA de “incursões neocoloniais por recursos estratégicos”. A princípio, Trump apontou o narcoterrorismo e a ameaça à segurança internacional como justificativas para a operação. Depois, admitiu interesses na exploração de petróleo na Venezuela, que tem a maior reserva do mundo.

Líderes das grandes potências devem compreender que “um mundo de hostilidade permanente não é viável”, escreveu Lula. De acordo com ele, “por mais fortes que essas potências sejam, não podem se basear simplesmente no medo e na coerção”

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