Kevin Warsh é ligado ao magnata Ronald Lauder, chegado de Trump, e o primeiro a advogar a invasão da Groenlândia
EUGENE WEBB *
O presidente Trump acaba de nomear para presidente do Banco Central dos Estados Unidos (FED) Kevin Warsh, substituindo o atual presidente Jerome Powell, cujo mandato termina em maio. Powell teve atritos com a Casa Branca porque Trump discordou da maioria das decisões tomadas por ele desde o início do governo. Como Powell não pode ser legalmente demitido por Trump, o ditador orquestrou durante 2025 uma verdadeira campanha difamatória contra o atual presidente do Banco Central.
AMIGOS DE TRUMP
Enquanto as reações iniciais de representantes do capital financeiro sobre Warsh têm sido muito positivas por sua longa trajetória de serviços prestados, conhecimentos, experiência e suposta independência, ele na verdade tem bastante vínculos com bilionários que financiaram a campanha de Trump, como é comum acontecer com candidatos a presidente do Banco Central.
Kevin Warsh é casado com a bilionária Jane Lauder, neta de Estée Lauder, que tem patrimônio líquido de 2.7 bilhões de dólares. O sogro de Warsh é Ronald Lauder, republicano de longa data, presidente do Congresso Judaico Mundial (WJC) desde 2007 e que foi colega de turma de Trump em 1960 na Faculdade de Administração Wharton. Ele doou muito dinheiro para a campanha de Trump em 2016.
Segundo John Bolton, ex assessor de segurança nacional de Trump no governo 1.0, Ronald foi quem convenceu Trump a tentar comprar a Groenlândia. Ronald escreveu uma coluna para o jornal New York Post em 2025 onde afirma que “eu trabalhei de perto com negócios e líderes do governo da Groenlândia por muitos anos para desenvolver investimentos estratégicos lá, até durante o governo Biden, que ignorou e subestimou esta grande oportunidade.”
DE OLHO NA GROELÂNDIA
O bilionário está de olho nas terras raras essenciais para a inteligência artificial, armamentos avançados e modernas tecnologias, localizadas debaixo das camadas de gelo e pedras do Groenlândia . Argumentou que quando o gelo derreter, novas rotas marítimas se abrirão e o comércio e segurança globais serão reformulados; além disso, a Groenlândia, um epicentro da competição entre grandes poderes e potencial humano e natural, oferece uma parceria estratégica esperando para ser forjada.
Kevin Warsh tem currículo típico de intelectual orgânico do capital financeiro. Ele se formou em Direito pela Universidade Harvard em 1995 antes de se tornar banqueiro no Morgan Stanley. Foi Vice-Presidente e Diretor Executivo do Departamento de Fusões e Aquisições do banco Morgan Stanley e depois Secretário Executivo do Conselho Nacional de Economia durante o governo de George Bush em 2002. Em 2006 o presidente Bush o nomeou para o Conselho Diretor do Banco Central, o membro mais novo do Banco com apenas 35 anos, onde serviu até 2011. Warsh foi representante do Banco Central no G-20 e porta-voz do Banco para as economias emergentes e avançadas na Ásia.
Além disso, ele administrou e supervisionou as operações, o pessoal e a performance financeira do Conselho. Desde que se retirou do Conselho, ele se associou ao escritório da Família Duquesne, uma companhia de investimentos fundada por Stanley Druckenmiller para administrar o seu patrimônio pessoal. Druckenmeiller trabalhou como gerente de um Fundo Hedge ao lado de George Soros e tem um patrimônio estimado em 7.8 bilhões de dólares.
SOCORRO ÀS CORPORAÇÕES
Durante a crise financeira de 2008 Warsh ajudou o governo no resgate da companhia de seguros AIG e contribuiu para a aquisição da corretora Bear Stearns pelo banco JPMorgan. Ele criticou o Banco Central quando este diminuiu rapidamente a taxa de juros argumentando que iria aumentar a inflação e foi o único membro do Conselho que se opôs ao plano do banco de comprar 600 bilhões de dólares de títulos do Tesouro em 2011.
Warsh renunciou ao Conselho em 2011 e se tornou Distinto Pesquisador Visitante em Economia no Hoover Institution, uma organização não governamental famosa por suas posições politicas e econômicas a favor das corporações monopolistas que dominam a economia dos Estados Unidos. Ele é um crítico de Powell e declarou em entrevista à CNBC, que cobre a economia dos EUA, que apoiava uma mudança de regime no Banco Central, porque “a política do Banco estava ruim por muito tempo”.
TUDO PELOS MAGNATAS
Uma das maiores opositoras e críticas ao anúncio de Trump é a senadora democrata de Massachusetts Elizabeth Warren, que tem combatido com regularidade medidas e legislação favoráveis aos bancos dos Estados Unidos. Ela declarou que “Kevin Warsh – que se preocupou mais em ajudar Wall Street depois da quebradeira de 2008 do que milhões de americanos desempregados – aparentemente passou no teste de lealdade de Trump.”
Os membros do partido democrata do comitê do senado responsável por questões bancárias pediram ao coordenador do comitê, o senador republicano Tim Scott, que adie os procedimentos para a nomeação de Kevin Warsh. Segundo uma carta dos democratas membros do comitê enviada ao coordenador “a nomeação ocorre depois de meses de esforços repetidos do presidente Trump e seu governo para influenciar o Banco Central através da intimidação, incluindo a abertura de investigações criminais contra a diretora do Banco Lisa Cook e o presidente Jerome Powell.”
As investigações incluem sondagens do Ministério da Justiça a respeito de supostas informações erradas submetidas por Cook quando aplicou para obter uma hipoteca e contra Powell por supostas afirmações falsas para o comitê do senado sobre a renovação da sede do Banco. Durante a campanha difamatória contra Jerome Powel, o Ministério da Justiça abriu investigação contra ele acusando-o de afirmações falsas quando prestou depoimento sobre a renovação do prédio do Banco, que custou 2.5 bilhões de dólares.
BANKSTERS
A principal divergência entre Trump e Powell tem a ver com a suposta independência do Banco Central dos EUA no estabelecimento da taxa de juros. Com medo da inflação e uma recessão provocada por seu tarifaço, Trump queria uma redução da taxa para supostamente estimular a economia dos EUA, enquanto Powell tem se negado a baixar a cabeça para Trump e afirmou no ano passado que no seu entendimento a questão era “se o Banco Central será capaz de continuar a determinar as taxas de juro baseando-se em evidências e condições econômicas, ou se, ao invés, a política monetária será dirigida por pressões políticas ou intimidação.”
Até prova em contrário, Trump forçou a barra para impor um novo diretor do Banco Central que se submeta aos seus interesses de curto prazo e aos do capital financeiro que ele a cada dia jura que defende melhor do que ninguém. Porém, tanto Powell quanto Warsh são membros de carteirinha da oligarquia que o presidente Roosevelt no passado chamou de banksters, uma mistura de banqueiros com gangsteres.
* Professor, analista político e colaborador do HP nos EUA











