DAVI MOLINARI
Cheguei ao Fale Mais Sobre Isso com a poeira ainda baixando — não da rua, mas do peito. Aquela poeira fina que sobe quando o sistema nervoso resolve tocar sirene sem incêndio. O bar estava num estado que a psiquiatria chamaria de ambiente gatilho, a psicologia de estresse crônico e a psicanálise, mais honesta, de angústia espalhada pelo ar.
Juvenal era acudido por um grupo de jovens, todos falando ao mesmo tempo, tentando acalmá-lo como quem tenta conter um ataque cardíaco com chá de camomila. O Laranjão, vizinho rico do duplex ao lado, dono do cachorro Messias — aquele que morde todo mundo e agora estava finalmente preso na carrocinha — tinha feito um escândalo. Gritava, ameaçava, apontava o dedo como quem segura um míssil imaginário.
Sentei na minha cadeira cativa da terapia informal. O Doutor estava ali, imóvel, coluna ereta, olhar distante, um monge tibetano assistindo a uma guerra híbrida. Não piscava. Só observava. Aquilo, por si só, já me dava uma leve taquicardia. Sempre achei perturbador alguém que observa demais quando o mundo está prestes a explodir.
Quando pensei em perguntar o que tinha acontecido, Juvenal se teletransportou para a mesa com duas tulipas de chope cremoso e uma porção generosa de manjubinhas — empanadas, como sempre, na única farinha que ele admite mexer.
— Olha… por isso que não gosto de armas — disparou, antes que eu abrisse a boca. — Senão eu ia perder minha primariedade judicial hoje com esse Laranja.
O Doutor inclinou a cabeça milímetros. Testemunha ocular. Talvez pericial.
— Ele quer comprar o Fale Mais Sobre Isso — continuou Juvenal, sentando-se conosco. — Já falamos que não está à venda. Mas ele é ostensivo. Hoje chegou ameaçando morte. Já trouxe fiscalização sanitária, já trouxe o cachorro Messias — que graças a Deus tá preso — e agora saiu gritando que eu traficava cocaína. Quando vocês sabem que a única farinha que entra aqui é da roça, pra empanar manjubinha.
Coloquei a mão no ombro dele. Um gesto solidário… e também preventivo. Eu conhecia aquele estado. O corpo em alerta máximo, como se uma equipe Delta pudesse surgir de trás da geladeira.
— Juvenal, isso é sério. Essas ameaças ativam o sistema de luta ou fuga. Eu mesmo já tive crise de pânico por menos. É aquela ansiedade que dispara do nada… não é, doutor?
O Doutor prendeu o beiço superior, fez um som que poderia ser “hum”, “aham” ou “CID F41.0”.
— Eu fico pensando — disse Juvenal, agora mais baixo — como um chefe de Estado dorme tranquilo sabendo que pode acordar sequestrado. O mundo virou terrorismo institucional. Com bandeira dos EUA no braço armado de uma facção global.
Aquilo me atravessou o diafragma.
Confessei:
— Eu acho que tô à beira de desenvolver uma síndrome do pânico crônica. Primeiro vem a taquicardia. Depois a falta de ar. Aí o pensamento catastrófico: vou morrer, vou perder o controle, o STF vai cair, o Congresso vai anistiar golpista. É um ciclo perfeito.
O Doutor anotava. Caneta firme. Como quem registra um terremoto emocional sem interferir na placa tectônica.
— A psicologia chama isso de aprendizado do medo, né? — continuei. — A gente aprende a temer o imprevisível. O corpo reage antes do pensamento. Já a psiquiatria diz que é serotonina fazendo greve. Mas a psicanálise… ah, a psicanálise diz que é o inconsciente gritando porque ninguém escuta.
O Doutor ajeitou os óculos. Um clássico.
— Trump é isso — entrou Juvenal. — Um homem com poder extremo e temperamento imprevisível. Ele vira gatilho coletivo. Não é só política, é produção industrial de pânico. Nas pessoas. Nas nações.
Balancei a cabeça.
— Só tem um jeito de parar esse tipo de figura — disse. — É ele se afundar na própria soberba. Como aquela que levou Hitler a se afundar. Como todos os que confundem poder com onipotência. O problema é que, até afundar, eles levam muita gente junto.
Juvenal suspirou.
— E o mais difícil é ver gente aqui no Brasil defendendo isso. Como se violência imperialista fosse patriotismo. Como se medo fosse método de governo.
Silêncio. Um silêncio espesso, desses que antecedem crise… ou insight.
O Doutor fechou o bloquinho. Olhou pra mim. Olhou pra Juvenal. E soltou, enfim, sua frase capital:
— Quando o poder se torna imprevisível, o pânico deixa de ser patologia individual e vira sintoma social.
Não deu tempo de interpretar.
O Laranjão voltou. Não estava mais sozinho. Vieram homens fardados, sem insígnias, sem nome, sem rosto. Neutros como algoritmos. Pegaram Juvenal pelos braços.
— Ei! — gritei, o coração disparando, o ar sumindo, o corpo entrando em estado de alerta máximo.
O Doutor não se mexeu.
Juvenal foi levado, diante de todos, como se fosse normal. Como se fosse parte do cardápio.
As manjubinhas esfriaram.
O chope perdeu o colarinho.
E meu corpo entendeu, antes da razão, que o pânico não estava em mim.
Continua…
Publicado originalmente em Divã no Boteco – LXIX. Enviado pelo autor.











