Argentinos tomaram as ruas da capital em defesa da Memória, da Verdade e da Justiça no 24 de março, condenaram o desgoverno neoliberal e submisso ao imperialismo trumpista e exigiram liberdade para a ex-presidente Cristina Kirchner
“Nos digam onde estão! Nos digam onde estão!” foi o grito de guerra que tomou conta da Praça de Maio no centro de Buenos Aires nesta terça-feira, entoado por mais de um milhão de argentinos, denunciando as vítimas do golpe cívico-militar de 24 de março de 1976.
No mesmo local, apesar dos fuzis apontados para elas, as Mães da Praça de Maio se concentravam para exigir informações do paradeiro dos seus filhos e filhas, desaparecidos pela ditadura com apoio dos Estados Unidos.
Cinco décadas depois, as ausências persistem, mas, idosas, as senhoras não clamam sozinhas. Afirmam em alto e bom som, muitas delas em cadeiras de rodas, que a Argentina exige “Memória, Verdade e Justiça” e que as medidas de “esquecimento histórico” promovidas por Javier Milei serão derrotadas, da mesma forma que suas políticas “selvagemente neoliberais e pró-imperialistas”.
O primeiro mar de aplausos veio quando foi mencionado que Pablo Grillo, o fotógrafo que teve o crânio fraturado por uma bomba de gás lacrimogêneo disparada por um policial militar, estava na praça. “Hoje o compromisso é duplo porque estamos enfrentando o governo mais repressivo desde o retorno da democracia”, disse María del Carmen Verdú, líder da Coordenadoria contra a Repressão Policial e Institucional (Correpi).
“Estamos nesta praça, com os 30.000 como nossa bandeira, com as Mães e Avós, com os sobreviventes dos campos de concentração, com os filhos, filhas, netos e netas, irmãos e irmãs, com os parentes dos detidos desaparecidos e com todas as organizações de direitos humanos acompanhadas pelo povo para dizer a Milei: a memória é a nossa ferramenta”, assinala o documento lido diante da maior multidão já vista nesta data, pela Avó da Praça de Maio, Estela de Carlotto.
“MILEI NÃO SÓ NEGA A REALIDADE, COMO JUSTIFICA O GENOCÍDIO”
Ela enfatizou a exigência de que o Estado “deve garantir a devolução dos netos sequestrados”, alertando que o governo Milei “não só nega a realidade, como também justifica o terrorismo de Estado e o genocídio”. É isso o que faz desmantelar as políticas de preservação da história e corta o financiamento dos espaços que funcionam nos locais onde existiam centros clandestinos, a fim de apagar a memória, denunciou.
Além disso, informou Estela de Carlotto, “Milei não cumpre sua obrigação de garantir reparações históricas e o pagamento de pensões para ex-presos políticos, exilados, seus filhos e sobreviventes que recebem pensões mínimas e não têm cobertura da previdência social”. “Desde que assumiu o poder, nada aconteceu além de uma redução nas políticas públicas destinadas a garantir este e todos os direitos do povo. O Banco Nacional de Dados Genéticos teve sua estrutura comprometida e a Comissão Nacional pelo Direito à Identidade teve seu quadro de funcionários reduzido pela metade”, assinalou.
“RUAS SÃO A RESPOSTA AO GOVERNO QUE GLORIFICA O TERRORISMO DE ESTADO”
Para Eduardo Tavani, presidente da Assembleia Permanente de Direitos Humanos, “as ruas repletas de manifestantes são uma resposta contundente a este governo antinacional que glorifica o terrorismo de Estado. A memória é, para nós, um valor supremo”.
Ao longo do dia os manifestantes exigiram a libertação imediata da ex-presidente Cristina Fernández de Kirchner, em um processo coberto de irregularidades, durante o qual houve inclusive uma tentativa de assassinato contra ela. “Isso merece nossa preocupação e condenação. Liberdade para Cristina Fernández!”, ressaltaram os participantes, grande parte jovens entre 14 e 18 anos, que se fizeram presentes não só na capital, como no interior.
Desde as primeiras horas da noite de segunda-feira (23), os manifestantes contaram com a presença de músicos, artistas e peças teatrais, que se estendeu até a manhã de terça-feira para acolher a multidão.
Em todo o país foram registradas as maiores marchas dos últimos anos, demarcando campo com os retrocessos aplicados por Milei. As duas Centrais Sindicais de Trabalhadores da Argentina (CTAs), juntamente com a Confederação Geral do Trabalho (CGT), sindicatos, partidos de oposição e movimentos sociais se uniram, fortalecendo a marcha.
MILEI JUSTIFICA ADMIRAÇÃO POR DITADORES E A POLÍTICA DE ÓDIO
Durante a manhã, o governo fascista de Milei, atolado numa profunda crise, divulgou oficialmente um vídeo sobre o 50º aniversário do golpe, tentando justificar a sua admiração por ditadores e a política de ódio que aplica para “fazer desaparecer” organizações de direitos humanos, internacionalmente reconhecidas pela sua resistência e luta.
O bajulador de Trump e “presidente mais sionista do mundo” propõe transformar a histórica data, atualmente conhecida como “Dia da Lembrança”, em “Dia da Verdade e da Justiça Plena”. Segundo ele, se o Estado processa os responsáveis pela ditadura, também deve processar as organizações armadas que surgiram para resistir aos seus crimes e restaurar a democracia usurpada. O vídeo evidenciou como quer fazer uso política do 24 de março e usá-lo na perseguição ao peronismo.
De acordo com Milei, assim como seu comparsa, o ex-presidente Mauricio Macri (2015-2019), o peronismo “usou as políticas de direitos humanos como um experimento narrativo fatal que custou bilhões de dólares aos argentinos” e, portanto, considera justificada a tentativa de fazer desaparecer organizações e seres humanos, como está acontecendo agora.











