
“Eu os ouvi expirar o último alento”, diz o sobrevivente Munther Abed
“Sou o único sobrevivente que viu o que aconteceu com meus colegas”, diz Munther Abed, enquanto mostra fotos de seus colegas paramédicos no celular, ao conceder entrevista a jornalistas ingleses da BBC e do The Guardian.
Ele sobreviveu ao ataque israelense que matou 15 profissionais do socorro de emergência em Gaza, atacados na madrugada de 23 de março. Abed escapou ao se jogar no chão na parte de trás da ambulância, enquanto seus dois colegas que estavam na frente foram atingidos pelos disparos sobre o veículo do Crescente Vermelho (Cruz Vermelha árabe).
No ataque, cinco ambulâncias, um caminhão dos bombeiros e um veículo da Organização das Nações Unidas (ONU) foram atingidos “um a um” na região de al-Hashashin, no sul de Gaza, informou a ONU.
Os 15 corpos foram recuperados de uma vala comum somente no último domingo (30/3).
“Saímos da base perto do amanhecer”, Munther contou aos jornalistas.
“Eu os ouvi expirarem o ultimo alento”, relata.
Munther Abed, estava na primeira ambulância no local de um ataque aéreo, quando os soldados abriram fogo.
O tiroteio não parou contra uma sucessão de ambulâncias que chegavam ao local. Depois, com uma escavadeira abriram uma vala para jogar ali o ferro retorcido que restou dos veículos do Crescente Vermelho e da Defesa Civil.
Abed, estava na parte de trás da ambulância quando o ataque começou em Hashashin, Rafah. Os dois socorristas que estavam na parte da frente da ambulância morreram sob o fogo de rifles e ele sobreviveu ao se jogar no chão da ambulância.
“A porta abriu e lá estavam os soldados israelenses armados de rifles e usando óculos para visão noturna”, relatou Abed. “Eles me arrastaram para fora da ambulância”, prossegue, mantendo minha face para baixo. Ele foi algemado com as mãos para trás, foi obrigado a deitar no chão e teve início um espancamento. “Mesmo naquelas circunstâncias eu pude ver boa parte do que aconteceu desde aquele momento”.
Outros colegas chegaram à cena em ambulâncias e carros da Defesa Civil. Todos se viram no meio de um corredor de fogo. Ao todo foram oito tripulantes de amblâncas e paramédicos do Crescente Vermelho. Seis dos assassinados erram da Defesa Civil e um outro funcionário da ONU.
Seus corpos foram depois localizados ao lado de seus veículos destruídos e arremessados a uma vala.
Segundo outras testemunhas ao The Guardian, vários deles tinham as mãos ou os pés algemados.
Um funcionário do Crescente Vermelho, Assad al-Nassara, ainda está desaparecido, mas Abed afirma que o viu ainda com vida no local do morticínio. Ele está desaparecido desde então. Somente Abed está presente para contar a história
Abed saiu em uma ambulância do hospital Britânico, instalado na região de Al-Mawasi, que fica à beira-mar. Eles se deslocaram para o local denominado Hashashin, desértico e com dunas, em Rafah, de onde viera um pedido de socorro. Ele pulou para a parte de trás do veículo que saiu dirigida por seu amigo, Mostafa Khufaga, com outro funcionário, Ezzedine Shaath, ao seu lado, no banco da frente.
ISRAELENSES ESCONDENDO O CRIME
Diante da pressão internacional, Israel passou a dizer que o caso estava sendo “formalmente investigado” e a força israelense diz que não há nada que comprove ter ocorrido algo de errado, acrescentando que os veículos “avançavam de forma suspeita sem luz acesa ou qualquer sinal”.
Abed contesta essa versão como sendo “flagrantemente falsa”.
“As luzes da ambulância estavam acesas e o logo do Crescente Vermelho estava claramente visível enquanto avançávamos em direção ao local de onde nos haviam solicitado.
Os israelenses descrevem o local como “zona de guerra”, enquanto que Abed diz que Hashashin é “uma área civil onde o dia a dia transcorria normalmente e nunca foi designada como zona de combate”.
Estavam se aproximando do local atingido pelo ataque aéreo quando os israelenses abriram fogo contra eles.

“Assim que o tiroteio começou eu busquei cobertura no chão da parte de trás e foi de lá o que eu ouvi de meus colegas: alguns ruídos até que eles expiraram seu último alento”.
“De repente, tudo ficou quieto, a ambulância parou. A porta do lado do motorista foi a primeira a ser aberta e eu ouvi vozes falando em hebraico. Fui tomado de medo e pânico e comecei a citar versos do Alcorão”, relata Abed.
“Logo a seguir me alcançaram, tiraram minha roupa e fiquei só com a parte de baixo, tive minhas mãos atadas às costas. Me atiraram ao chão, já fora da ambulância, e começou um interrogatório.
“Passei por tortura que incluiu espancamento, insultos, ameaças de morte e sufocamento. Ao mesmo tempo um soldado pressionava a ponta de um rifle contra minhas costas”.
Outro soldado encostava um punhal contra meu ombro esquerdo. Após um tempo, chegou um oficial israelense que mandou parar aquilo dizendo: “Vocês estão loucos”.
Durante este tempo em que foi agredido, Abed pôde ver um veículo da Defesa Civil e mais uma ambulância se aproximando. Assim que chegaram perto de onde eu estava, caíram sob fogo intenso que se prolongou por cerca de cinco minutos. Não vi ninguém sair dos veículos quando o fogo parou.
“Cerca de cinco minutos depois, outras duas ambulâncias chegaram vindas pelo caminho que leva dali ao centro de Rafah. Eram também do Crescente Vermelho. Eu pude apenas ver as luzes vermelhas das ambulâncias e ouvir novamente o som de tiros. Mais dez minutos se passaram e vi chegar outra ambulância, desta vez vinda pelo caminho que leva a Khan Yunis. Esta foi atacada, assim como as demais”.
“Quando o sol começou a se levantar, por volta das seis da manhã, a paisagem ficou mais clara. Havia tanques e o sobrevoo de drones. A área em volta estava completamente cercada por soldados, quando chegou uma enorme escavadeira e, com ela, começaram a cavar um grande buraco para depois jogarem aí as ambulâncias destruídas, socorristas, e a seguir cobriram o buraco com terra.
“Tive a certeza de que, aqueles que não morreram imediatamente pelos tiros sobre os veículos de socorro, foram executados”, disse finalmente Abed.
Os corpos dos colegas de Abed, Khufaga e Shaath, forram retirados da mesma vala de onde a Defesa Civl retirou as ambulâncias destruídas. Junto com eles foram localizados mais seis do Crescente Vermelho: Saleh Muamer, Mohammad Bahloul, Mohammed al-Heila, Ashraf Abu Labda, Raed al-Sharif e Rifatt Radwan – mais seis corpos eram de funcionários da Defesa Civil e um da agência UNRWA, filiada à ONU.
Quando acabou de passar pela tortura, Abed foi forçado a se dirigir a palestinos sobreviventes do bombardeio na região próxima. Ali me disseram para orientar que todos fossem na direção de Al Mawasi. “Alguns dos sobreviventes eram mulheres carregando filhos mortos. Uma mulher estava com um filho no braço que morreu com um tiro no peito. Outra mulher, carregava sua irmã que havia recebido um tiro no pé. Havia também idosos.
“Eu ajudei a reunir os homens em grupos de cinco. Uma parte deles passava pelas tropas, mas alguns eram levados por elas e forçados a entrar em um grande buraco. Até agora não sei o destino destes”.
Abed foi solto ao anoitecer. Lhe devolveram o relógio e seguiu com a roupa de baixo, sem receber de volta sua carteira de identidade, seu uniforme e seus sapatos. Foi orientado a voltar para Al Mawasi e ao caminhar de volta conseguiu uma carona com uma ambulância que o pegou mais adiante.
Abed contou ao Guardian que ainda estava muito dolorido e se sentindo em estado de choque.
“Eu entrei para este trabalho por amor, apesar dos perigos que o cercam e o risco que corremos durante as missões. Um trabalho que agora passa de arriscado para abertamente letal”.
“Não somos mais tomados de surpresa quando alguém é morto. Qualquer um pode ser alvejado pois estamos lidando com uma força de ocupação que despreza as leis e os tratados internacionais. Em todas as missões que embarcamos, temos a sensação de que ela pode ser a última”.