
“A boa notícia é que temos hoje uma recuperação. A má notícia é que ainda é sobre uma base fraca. Ainda vendemos menos máquinas do que em outros anos”, declarou o presidente da Abimaq José Velloso
As vendas da indústria de máquinas e equipamentos no Brasil cresceram 11,7% em fevereiro sobre janeiro, segundo dados divulgados pela Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq). Sobre fevereiro do ano passado, o resultado teve um incremento de 14,5%.
Em fevereiro as receitas líquidas de vendas (RLV) ficaram no patamar de R$ 22,9 bilhões. Nos dois primeiros meses do ano, a RLV, que excluiu impostos, contribuições e outras deduções, totalizou R$ 43,4 bilhões, ou seja, 16,9% acima do mesmo período de 2024.
Na comparação interanual, no entanto, a Abimaq considera a base de comparação bastante fraca, segundo a diretora de competitividade, economia e estatística da Abimaq, Cristina Zanella. “O início do ano de 2024 foi um dos mais fracos da história da indústria”, disse. Os 16,9% de crescimento no primeiro bimestre de 2025 ocorreram depois de três anos consecutivos de queda.
Conforme destacou o presidente-executivo da Abimaq, José Velloso, “não há um mercado aquecido”. Com valores deflacionados, o Brasil consumiu 35% menos máquinas em 2024 do que em 2013.
“A boa notícia é que temos hoje uma recuperação. A má notícia é que ainda é sobre uma base fraca. Ainda vendemos menos máquinas do que em outros anos”, afirmou Velloso durante a divulgação dos dados do setor na quarta-feira (3).
Segundo o empresário, o setor de máquinas e equipamentos já teve vendas, a preços constantes (excluído os efeitos da inflação), de R$ 570 bilhões em 2013, chegando em 2024 com vendas totais de R$ 370 bilhões. “Estamos muito longe do que tivemos no passado!”, acentuou o dirigente da Abimaq.
JUROS ELEVADOS
Os juros elevados foram a tônica nas declarações de José Velloso, assim como as do responsável pelo setor do agronegócio da entidade, Pedro Estevão, conforme manifestou a entidade após a elevação para 14,25% da taxa Selic pelo Banco Central em março deste ano.
“Esta taxa impõe desafios ainda maiores ao setor produtivo, especialmente aos setores da indústria intensivos em capital”, alertou a entidade em nota. “Segundo a nota, “Maiores taxas de juros aumentam o endividamento, encarecem o capital de giro, o crédito para investimento, reduz a capacidade das empresas de gerir os seus negócios, de se financiar para modernização, renovação ou ampliação do parque industrial, dificulta investimentos estratégicos essenciais para o aumento da produtividade e da competitividade da economia brasileira”.
Jose Velloso também citou as taxas do Finame, via de regra, inferiores à grande maioria das demais taxas do mercado, mas que mesmo assim situando-se em 21% ao ano, travando os investimentos e não permitindo a compra de máquinas e equipamentos. Além disso, há os custos proibitivos dos juros para o capital de giro.
De acordo com Pedro Estevão, ninguém do agro está tomando mais empréstimos em razão dos juros altos, aguardando os recursos do próximo Plano Safra que oferece juros mais compatíveis.
As exportações do setor em fevereiro totalizaram US$ 870 milhões, o que representou um aumento de 7,0% sobre janeiro e 6,6% sobre fevereiro de 2024. No acumulado do bimestre as vendas ficaram em US$ 1,7 bilhão, ou seja, inferior em 10% sobre o mesmo bimestre de 2024.
Nas importações, no bimestre deste início de ano, as compras no exterior tiveram crescimento em 6 dos 7 segmentos de mercado analisados a exceção do setor da petróleo e energia que registrou queda de 14,1%. Dentre os mercados com maior crescimento na importação de máquinas destaca-se o agrícola, que registrou expansão de 25,3% nas suas importações, o de componentes com aumento de 23,5% e o de infraestrutura e indústria de base com crescimento de 21,6%.
Sobre as importações Velloso destacou a redução da produção interna frente ao crescimento das importações, o que vem acontecendo há muitos anos de modo contínuo.
A melhora da receita líquida de vendas, na comparação interanual, contribuiu para a expansão do uso da capacidade instalada, o resultado no mês foi o maior desde abril de 2023. A indústria de máquinas e equipamentos encerrou o mês de fevereiro utilizando 77,2% da sua capacidade instalada.
Em fevereiro de 2025 houve incremento no número de pessoas empregadas na indústria de máquinas e equipamentos. O setor encerrou o mês com 407,199 mil trabalhadores, um aumento de 1,7% no comparativo mensal.
De acordo com a Abimaq, o setor é estratégico para o desenvolvimento do país e responsável por milhões de empregos diretos e indiretos e já representou 33% do PIB (década 70 e 80), com a participação reduzida a 14,4% em 2024.
TARIFAÇO DE TRUMP
Sobre o anúncio feito pelo presidente Donald Trump, em 2 de abril, de elevar a alíquota do imposto de importação em 10% para todos os países, além de aplicar uma tarifa adicional recíproca, a Abimaq, em nota, nesta quinta-feira (3), disse que “alterações abruptas nas tarifas de importação tendem a resultar em insegurança comercial e econômica. Essa elevação de tarifa pode gerar impactos negativos significativos para nossa economia e para a indústria brasileira de máquinas e equipamentos”.
“Do total da receita do setor de máquinas e equipamentos, cerca de 20% é direcionado ao mercado externo (exportação). Em 2024, exportamos US$ 13,2 bilhões, destes, 25% ou US$ 3,5 bilhões, foram direcionados para os Estados Unidos, equivalente a 7% da receita total do setor. O Brasil importou cerca de US$ 4,7 bilhões em máquinas e equipamentos de origem norte-americana, portanto somos deficitários”, ressalta a entidade.
“Sabemos que o governo brasileiro vem buscando resolver a questão por meio de negociações, o que para a ABIMAQ é o melhor caminho. Temos expectativas que tal decisão, no caso do Brasil, seja revista, a fim de que a relação comercial seja preservada”.