Venezuela repudia anúncio, por Trump, de fechamento do seu espaço aéreo: é “ameaça colonialista”

Ataques de Trump à Venezuela são ameaça a toda a América Latina, alerta o ministro do Exterior da Venezuela, Yván Gil (Federico Parra/AFP)

O chanceler venezuelano Yván Gil classificou como “ameaça colonialista” a declaração do presidente dos EUA de fechamento do seu espaço aéreo e enunciou a medida como um “ataque direto à estabilidade de toda a América Latina e Caribe” que coloca em risco a aviação civil na região.

Trump declarou através de sua rede Truth Social neste sábado (29) “fechado o espaço aéreo sobre e ao redor da Venezuela” e ameaçou linhas aéreas e pilotos, em total violação às normas da aviação civil, à lei internacional e à Carta da ONU.

Uma espécie de complemento à já prometida (há dois dias) invasão terrestre “em breve” e ao cerco do país com navios de guerra e aviões sob o cínico pretexto de “combate ao narcotráfico”, bem como à execução sumária com mísseis e drones de 83 pessoas em 30 pequenas embarcações no Caribe e no Pacífico, sem provas e sem julgamento, já denunciada pela ONU.

Caracas alertou que a tentativa de impor jurisdição estrangeira sobre seu espaço aéreo compromete os princípios consagrados pela Carta das Nações Unidas e pelo Convênio de Chicago de 1944. Reiterou, ainda, que não aceitará ameaças, interferências ou ordens de qualquer potência estrangeira.

No sábado, Irã e Cuba denunciaram a nova agressão de Washington. Anteriormente, Rússia e China haviam se manifestado exigindo respeito à soberania da Venezuela. Também os governos do Brasil, da Colômbia e do México haviam contestado a perigosa escalada.

Em meados de outubro, Trump admitiu ter autorizado a CIA a realizar operações secretas em território venezuelano. Em resposta, o presidente venezuelano Nicolas Maduro perguntou: “Alguém acredita que a CIA não opera na Venezuela há 60 anos?” “Alguém acredita que a CIA não conspira contra o comandante [Hugo] Chávez e contra mim há 26 anos?”, perguntou ele.

Em setembro, a vice-presidente Delcy Rodríguez afirmou que “durante 27 anos consecutivos, a Venezuela não aparece nos relatórios da ONU como um país relevante em matéria de drogas ilícitas”. Ela mostrou que os registros oficiais colocam o Equador como o principal exportador de cocaína do mundo, uma afirmação apoiada pela própria Organização Mundial das Alfândegas, enquanto os Estados Unidos concentram 85% dos lucros globais do negócio ilícito em seu sistema financeiro.

No vídeo a seguir é o próprio Trump quem revela o seu real interesse na ingerência contra a Venezuela:

É O PETRÓLEO, ESTÚPIDO

Aliás, a restauração da mofada Doutrina Monroe, em tempos de MAGA, não poderia ter um pretexto mais ridículo do que “o combate ao narcotráfico”.

A Venezuela sequer faz parte do mapa da droga tanto do DEA quanto da ONU, não tem laboratórios para fabricar fentanil e é ínfima a porcentagem de droga que é transportada pelo Caribe.

Além de que todo mundo sabe que as drogas nas quais Trump é viciado mesmo são dinheiro e petróleo, sendo que a Venezuela tem, disparado, as maiores reservas comprovadas do mundo, 303,8 bilhões de barris. E, como o presidente biliardário já confessou em vídeo, fica logo do outro lado do Golfo, é só ir e pegar.

É daí que surge a gana pela “mudança de regime”, para saquear o petróleo e gás da Venezuela em prol do renascimento MAGA e da perpetuação do dólar, assim como o Nobel da Paz para a fascista Corina Machado, entusiasta de privatizar o petróleo e, agora, as ameaças militares diretas.

Assim como os EUA, com a “guerra ao terror”, fabricaram um pretexto para a invasão dos países de maioria islâmica que, coincidentemente, tinham muito petróleo – e deu no que deu -, agora Trump repete o truque inventando “organizações narcoterroristas” a serem combatidas não por meios policiais, mas por meios militares à revelia da lei internacional e passando por cima da soberania alheia – por exemplo, na “Baía de Guanabara”.

QUEM CRIOU O “CARTEL DE LOS SOLES” FOI A CIA

Assim como Sadam teria “armas de destruição em massa”, agora seria Maduro que “estaria invadindo os EUA com drogas” – além do “Trem de Aragua – e inclusive seria o chefe do “Cartel de Los Soles”.

O tal “Cartel de Los Soles” só existiu por um breve momento – era uma gozação sobre a operação montada pelo DEA para levar droga para os EUA nos anos 1990, que guardou em um quartel da Guarda Nacional venezuelana, o que depois virou um escândalo. Nada tinha a ver com “generais bolivarianos”, que nem existiam na época. Uma espécie de operação Velozes e Furiosos da época, com o dedo da CIA.

Agora, Trump requentou a história, ocultando de onde veio a coisa, e lançando a pecha sobre Maduro, contra quem foi instituído um prêmio de US$ 50 milhões para quem apresentasse informações sobre seu paradeiro, que todo mundo sabe que é o Palácio Miraflores.

A invencionice e a liquidação extrajudicial de pescadores foi desmascarada pelo presidente colombiano, Gustavo Petro, que disse que os chefes do narcotráfico moram em Miami, Paris e Madri, não nas áreas pobres sul-americanas. Moram do lado da casa de Trump, ele acrescentou, acabando incluído também na lista de Washington de narcotraficantes.

Terras raras também estão na mira de Washington:

DEZ ANOS DE SANÇÕES FEROZES CONTRA A VENEZUELA

Sobre a situação interna na Venezuela, depois de dez anos de sanções e embargo econômico impostos pelos EUA, o editor do Geopolitical Economy Report, Ben Norton, assinalou que o país sofreu dificuldades imensas, tendo o acesso ao sistema financeiro internacional sido bloqueado e o país impedido de exportar seu petróleo – sua principal fonte de divisas – e até mesmo impedido de consertar/atualizar sua infraestrutura petrolífera, causando uma redução impressionante de 99% da receita do governo, segundo a principal especialista da ONU em sanções, a relatora especial Alena Douhan.

“No entanto, a economia venezuelana está em melhor estado hoje do que durante a tentativa anterior de golpe liderada pelos EUA em 2019-20, que causou hiperinflação. A taxa de inflação caiu bastante. Os salários reais subiram. Comida e necessidades do dia a dia são acessíveis. A economia, no entanto, se dolarizou bastante, o que corroi a soberania monetária do governo venezuelano.”

Para Norton, os últimos ataques dos EUA provavelmente aumentarão o apoio ao governo venezuelano, pois deixarão claro que existem apenas duas opções realistas: “Maduro ou um fantoche de direita dos EUA”.

“Como a líder do golpe de extrema-direita financiada pelo governo americano, María Corina Machado, que Washington quer colocar no poder e que tem sido explícita sobre privatizar as enormes reservas de petróleo da Venezuela e vender os ativos do país para empresas americanas.”

As sanções dos EUA à Venezuela começaram em 2015, quando Obama declarou a Venezuela como uma suposta “ameaça à segurança nacional”, assinalou Norton. O preço global do petróleo também despencou de 2014 a 2016. Ambos os fatores causaram enormes problemas econômicos na Venezuela.

“As sanções ilegais dos EUA então se intensificaram significativamente sob Trump em 2017. E em 2019, Trump impôs um embargo econômico à Venezuela (como o bloqueio ilegal dos EUA a Cuba, que dura mais de seis décadas, em violação do direito internacional).”

“As sanções dos EUA causaram uma escassez significativa de dólares e outras moedas fortes na Venezuela, o que impediu o banco central de estabilizar a moeda nacional, o bolívar. Além disso, houve ataques enormes por especuladores cambiais baseados nos EUA, com a ajuda de grupos de mercado negro baseados na Flórida, como o DolarToday. O banco central também tentou manter uma taxa de câmbio fixa durante esses ataques especulativos, o que significava que ele sangrava a pouca moeda forte que tinha para tentar defender o bolívar. Juntos, esses fatores causaram hiperinflação na Venezuela.”

Outro fator muito importante a considerar – destacou Norton – é que a grande maioria da tecnologia e da infraestrutura petrolífera usada na Venezuela no último século foi projetada por empresas ocidentais. A indústria do petróleo havia sido nacionalizada por Chávez, mas a tecnologia da qual dependia ainda era propriedade intelectual de corporações dos EUA e da Europa.

“Assim, as sanções impediram a Venezuela de reparar seus equipamentos de petróleo e comprar as novas máquinas necessárias para manter e modernizar sua infraestrutura de petróleo. Isso causou uma grande queda na produção de petróleo da Venezuela.”

“Na verdade, a Administração de Informação de Energia (EIA) do governo dos EUA se gabou em 2019 — durante uma tentativa de golpe patrocinada pelos EUA — de que a produção venezuelana de petróleo bruto havia caído para seu nível mais baixo desde 2003 (após outra tentativa de golpe apoiada pelos EUA).”

A situação nos últimos anos melhorou, enfatizou o editor, porque a Venezuela conseguiu substituir parte de sua maquinaria de petróleo por tecnologia do Irã, Rússia e China. Técnicos do Irã, Rússia e China também ajudaram a Venezuela a reparar e atualizar sua infraestrutura de petróleo.

“Isso permitiu que a Venezuela exportasse mais petróleo bruto, principalmente para a China. A produção de petróleo hoje ainda é muito menor do que era antes do início das sanções dos EUA em 2015, mas está subindo lentamente, ultrapassando agora 1 milhão de barris por dia, o nível mais alto desde a última tentativa de golpe liderada pelos EUA, durante o primeiro mandato de Trump.”

Isso significa que a Venezuela agora está ganhando mais moeda forte, que pode usar para estabilizar sua própria moeda e reduzir a inflação. A situação econômica melhorou significativamente nos últimos anos. Na verdade, a inflação tem sido maior na Argentina, sob o presidente libertário Javier Milei, apoiado pelos EUA, do que na Venezuela, apontou.

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