Segundo a PF, foram despejados R$ 12,2 bilhões do BRB para a Tirreno, uma empresa fantasma, criada com data falsificada por um ex-funcionário do Master. Outra empresa fantasma tinha uma atendente de lanchonete como falsa dona
Em acareação no último dia 30 de janeiro, entre o banqueiro Daniel Vorcaro e o ex-presidente do Banco Regional de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa, a Justiça tomou conhecimento, de forma mais detalhada, das diversas fraudes cometidas pelo Banco Master e pelo governo de Brasília, durante as investigações da negociata bilionária entre o banqueiro preso e o BRB.
A compra criminosa do Master pelo BRB, pelo valor de R$ 12,2 bilhões, foi interrompida pela ação do Banco Central. Em seguida o Master foi liquidado e o seu presidente foi preso quando tentava fugir em seu jatinho particular para Dubai. Uma operação neste valor – que trará um rombo ao banco de Brasília que poderá chegar a R$ 5 bilhões – não poderia ser feita sem a autorização do governador de Brasília, o bolsonarista Ibaneis Rocha.
Ele não só autorizou a operação como pressionou, junto com outros bolsonaristas, como o senador Ciro Nogueira, o deputado Nicolas Ferreira e outros, para que o Banco Central permitisse que o golpe fosse consumado. O senador tentou demitir o diretor do BC que impediu a negociata e chegou a propor num adendo a uma PEC que o limite do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) fosse aumentado de R$ 250 mil para R$ 1 milhão. Vorcaro depois deixou claro que seu esquema de enganar os trouxas era prometer segurança dada pelo Fundo Garantidor de Crédito, que acabou tendo um rombo de R$ 40 bilhões.
A jornalista Daniela Lima, em reportagem de UOL, neste fim de semana, revelou uma dezenas de fraudes levadas a cabo pelo banqueiro Daniel Vorcaro. Na acareação ele disse que o banco estava negociando com carteiras de terceiros e não com carteiras “de originação própria”. O diretor do BRB, tentando se descomprometer, rebateu afirmando que o que havia sido informado a ele é que eram carteiras do Master que haviam sido vendidas e que o banco estaria recomprando.
Uma das falcatruas centrais descobertas pelos investigadores ocorreu com a empresa Tirreno, uma empresa criada às pressas para ajudar no assalto. O Master comprou a carteira de crédito da empresa fantasma, não pagou e a revendeu para o BRB que pagou de imediato, acrescido de um prêmio. Os criminosos falsificaram documentos para tentar justificar ao Banco Central que a transferência de R$ 12,2 bilhões do BRB para o Banco Master decorreu da compra de carteiras de crédito originadas exatamente da tal empresa Tirreno.
Os investigadores descobriram, então, que uma empresa chamada SX 016 Empreendimentos e Participações S.A., de propriedade de André Felipe de Oliveira Maia, um ex-funcionário do Master até 2022, foi transformada para Tirreno Consultoria Promotoria de Crédito e Participações S.A, com um capital declarado de R$ 30 milhões. A alteração de nome da empresa foi feita, segundo os investigadores, em abril de 2025, mas, para tentar burlar a fiscalização do BC, ela foi antedatada fraudulentamente para dezembro de 2024.
Ou seja, o BRB decidiu transferir criminosamente uma quantia bilionária, mais precisamente R$ 12,2 bilhões, do banco público da capital para uma empresa de fachada, informada como sendo a Tirreno, mas que, na verdade, na data da operação, era a SX 016 Empreendimentos e Participações S.A., criada por um ex-funcionário do Master, numa manobra de compra de uma carteira de crédito que teria sido vendida ao próprio Master. Um verdadeiro caso de polícia. Os interrogadores pareciam estar diante da verdadeiros gângsteres.
O ex-presidente do BRB, nomeado por Ibaneis Rocha para dirigir o banco, afirmou, durante a acareação, que não notou fraudes na Master, apenas uma “mudança no padrão documental e de originação do crédito”. Ele claramente estava mentindo, porque, com toda a certeza, estava seguindo ordens superiores para realizar a negociata. Como dissemos antes, uma operação deste vulto e tão cheia de irregularidades não poderia ser levada em frente sem que Ibaneis não autorizasse. E, para reforçar tudo isso, Vorcaro disse na acareação que esteve várias vezes na casa do governador. Nota-se que ele não disse que esteve no Palácio do Governo. Ele disse que esteve na casa de Ibaneis Rocha.
A quadrilha continuou sendo desmascarada pela ação da polícia. Segundo a PF, o BRB comprou em 24 de dezembro de 2024 uma carteira de crédito do Master de uma empresa chamada The Pay Soluções de Pagamentos LTDA. Os investigadores descobriram que os títulos da tal empresa eram inexistentes. O BC avaliou que a operação envolveu a soma de R$ 1,7 bilhão. O cinismo era tão descarado que a The Pay Soluções, segundo a jornalista Daniela Lima, tinha como sócia proprietária uma laranja e a empresa não existia.
A The Pay Soluções de Pagamentos LTDA tinha como sócia administrativa e representante legal Priscila Franca Parigine, uma atendente de lanchonete registrada na Panificadora Delícias da Vovó, desde 2019 na periferia de Itu, no interior de São Paulo, com um salário de R$ R$ 1486,00. Os investigadores foram até o local o constatam que Priscila não era dona de empresa nenhuma e mora numa residência simples na periferia de Ita. Para eles, o Master fraudou e criou mais uma empresa fantasma neste caso. Ou seja, uma falsificação grosseira envolvendo uma operação de R$ 1,7 bilhão. Por tudo isso, como disse o presidente Lula, não há como esses gangsteres escaparem das garras da Justiça.
SÉRGIO CRUZ











