Movimentos sociais usam 8 de Março para denunciar violência, desigualdade e ameaças internacionais
Manifestantes foram às ruas de todo o país neste 8 de Março – Dia Internacional das Mulheres na luta pelo fim da violência e feminicídios, por igualdade salarial, contra a escala e 6×1 e em defesa da soberania dos povos.
Ao menos 18 capitais, além de outras cidades brasileiras, tiveram protestos neste domingo. Os atos, convocados pelos movimentos sociais e partidos políticos, mobilizaram milhares de pessoas em defesa dos direitos das mulheres brasileiras.
A presidente da Federação das Mulheres Paulistas (FMP), Keila Pereira, destacou a necessidade de ir às ruas para lutar “por melhores condições de vida e de trabalho”. E ressaltou que num momento de ameaças de Trump contra outras nações, é fundamental ressaltar a solidariedade com as vítimas dos ataques.
“Essas bandeiras precisam continuar na rua, principalmente num momento que a gente tem uma situação de mulheres e crianças sendo assassinadas de maneira covarde por Israel, pelos Estados Unidos, seja na Palestina, seja no Irã”, disse ao HP.
Keila, que é uma importante liderança comunitária e do movimento de mulheres, destacou ainda que as mulheres foram às ruas em defesa da vida. “Aqui no Brasil e, em especial em São Paulo, temos uma situação de aumento da violência, aumento dos casos de feminicídio, ao mesmo tempo em que existe uma completa na negligência do governo Tarcísio com a defesa das vítimas”, destacou.
“Os cortes de orçamento na Secretaria de Segurança, nas políticas de prevenção à violência contra a mulher, que no caso de São Paulo isso realmente aconteceu, são ataques inadmissíveis contra as mulheres”, disse.
“É uma luta que persiste na necessidade das mulheres da gente continuar lutando por melhores condições de trabalho, de vida, por assistência à maternidade e hoje especialmente pela paz e pela soberania dos povos”, completou Keila.

Mesmo com chuva forte na região central da capital paulista, manifestantes permaneceram no ato, muitos usando capas de chuva e guarda-chuvas.
“Estamos aqui na Paulista, embaixo de muita chuva para protestar contra os femicídios e toda forma de violência contra as mulheres. Estamos na luta por respeito e pela valorização de todas as mulheres”, disse Kátia, do Sindicato dos Servidores de São Paulo (SISPESP), durante o ato.

MANIFESTAÇÕES POR TODO O PAÍS

Em Campinas, o 8M teve como mote a defesa da vida das mulheres, contra o imperialismo, por democracia, soberania popular, pelo fim da escala 6×1 e fora Trump, Tarcísio e Dário, prefeito bolsonarista do munícipio.
O ato aconteceu na parte da manhã com uma caminhada do Largo do Rosário ao Largo do Pará, no centro da cidade, puxada ao ritmo de samba do Bloco “Vai pra Cuba” e em unidade das forças políticas e entidades progressistas do munícipio, contando com a presença da União Brasileira de Mulheres (UBM) e da Federação das Mulheres Paulistas (FMP).
No Rio de Janeiro milhares de mulheres ocuparam a orla de Copacabana. O protesto aconteceu no mesmo bairro onde, há poucas semanas, uma adolescente de 17 anos foi vítima de um estupro coletivo.
Durante a manhã, integrantes da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) também realizaram um ato simbólico na praia. Sob o tema “Parem de nos matar”, mulheres fincaram cruzes na areia em referência às vítimas de feminicídio.
Segundo o estudo “Retrato dos Feminicídios no Brasil”, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mais de 1,5 mil feminicídios foram registrados no Brasil no ano passado, o maior número da série histórica.
Desde 2015, quando a lei que tipifica o feminicídio foi sancionada, o país já registrou cerca de 14 mil casos.

Na capital de Minas Gerais, Belo Horizonte, centenas de pessoas participaram do ato que teve início na Praça Raul Soares. Além da denúncia da violência de gênero, a mobilização também incorporou críticas às políticas do governo de Romeu Zema (Novo). Durante o ato, manifestantes entoaram gritos de “Fora Zema”.
Entre as participantes estava Paula Dornelas, militante do Movimento de Mulheres Olga Benário e integrante da coordenação da Casa Tina Martins, espaço conhecido pela atuação no acolhimento de mulheres em situação de violência. Para ela, a presença nas ruas é uma ferramenta de pressão política.
Para Paula, enfrentar a violência contra mulheres passa também por questões econômicas e sociais. “Hoje as mulheres recebem cerca de 25% a menos que os homens fazendo o mesmo trabalho, e essa desigualdade é ainda maior quando falamos das mulheres negras. Como uma mulher sai de uma situação de violência se o salário não paga o aluguel, se a cesta básica está cara e se não tem creche para deixar os filhos?”, questionou ao jornal Estado de Minas.
No Distrito Federal, sindicatos, movimentos sociais e coletivos feministas se reuniram no Eixo Cultural Ibero-Americano (antiga Funarte) para denunciar o aumento da violência contra mulheres e defender políticas públicas de proteção. Entre as pautas do ato estão o combate ao feminicídio, o fim da escala de trabalho 6×1 e a ampliação da rede de atendimento às vítimas de violência.
Durante a manifestação, a presidenta da União Brasileira de Mulheres no Distrito Federal (UBM-DF), Maria das Neves, afirmou que o país vive uma situação de emergência diante do crescimento dos assassinatos de mulheres. “Estamos nas ruas para dizer que o Brasil vive uma calamidade pública. A cada 24 horas, quatro mulheres são assassinadas no país. O nosso grito é pela vida de meninas e mulheres”, declarou.

Em Santa Catarina, protestos foram convocados em cinco municípios: Blumenau, Caçador, Chapecó, Joinville e a capital Florianópolis. O estado registrou 52 feminicídios em 2025 e um dado ainda mais alarmante: foram pedidas 30 mil medidas protetivas. Os dados são Procuradoria da Mulher da Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc). Em Florianópolis, capital do estado, o ato percorreu o centro da cidade.

Em Porto Alegre, o ato aconteceu no centro histórico da capital gaúcha, com início na Praça dos Açorianos. O número de atendimentos a mulheres em situação de violência alcançou 25.724 notificações na Defensoria Pública do Estado do Rio Grande do Sul (DPE/RS).
Em Maceió, capital de Alagoas, a manifestação foi marcada para às 8h na Praça 7 Coqueiros, na orla da cidade.
Em Salvador, o ato saiu do Morro do Cristo e foi até a orla do Porto da Barra. De acordo com o Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), vinculado ao Ministério da Justiça, 103 mulheres foram assassinadas na Bahia em 2025, sendo mais de 80% das vítimas são mulheres negras, jovens e trabalhadoras.
PROVOCAÇÃO BOLSONARISTA
Na Avenida Paulista, um grupo de bolsonaristas tentou provocar um tumulto com ofensas direcionadas às mulheres. De acordo com a Rádio CBN, eles carregavam imagens do ex-presidente Jair Bolsonaro e do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
A Guarda Civil Metropolitana foi acionada e utilizou spray de pimenta para dispersar o grupo.











