Hoje, quarta-feira, 29 de abril, sob a coordenação do vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, formou-se, no Instituto Rio Branco, no Palácio Itamaraty, a Turma Esmeraldina Carvalho Cunha.
Foi uma cerimônia emocionante, cujo ponto alto – aliás, ponto culminante, em todos os sentidos, de um planalto de sentimentos patrióticos – foi a lembrança do legado de heroísmo e amor à humanidade da mulher que dava nome à turma do Itamaraty.
Estamos resgatando, finalmente, aquelas mulheres e homens, gente comum e brasileira, gente valorosa, de infinita bravura, ainda que, muitas vezes, inconsciente, que manteve a essência de nossa Nação, nos tempos em que ela mais foi aviltada.
Esmeraldina, ao atravessar as portas do Palácio Itamaraty, é bem a representante desse povo – do qual fazemos parte e temos orgulho de fazer parte.
Quem foi, então, Esmeraldina Carvalho Cunha?
Pois, Esmeraldina, baiana de Araci, foi um exemplo não somente de resistência à ditadura reacionária, pró-imperialista, e, antes de tudo, sanguinária, instalada em nosso país no ano de 1964 e somente derrubada em 1985, mas foi também um exemplo de mãe – e, como tal, de mulher brasileira, naqueles tempos tão sombrios, e, infelizmente, inesquecíveis.
Ela foi mãe de Nilda Carvalho Cunha, militante do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR8), assassinada aos 17 anos, durante a “Operação Pajussara” – a perseguição ao capitão Carlos Lamarca e seus companheiros.
O Memorial da Resistência traça um breve perfil da filha mais nova de Esmeraldina:
“Nilda não era conhecida pelos órgãos de informações, isto é, foi presa apenas por estar no mesmo local onde se encontrava Iara Iavelberg [companheira de Lamarca].
“Inicialmente, ela foi levada para o quartel do Barbalho e, em seguida, foi transferida para a Base Aérea de Salvador, ficando incomunicável.
“Ela foi libertada dois meses mais tarde, muito fragilizada em decorrência das bárbaras torturas físicas e psicológicas a que havia sido submetida, além de ter presenciado os maus-tratos sofridos por seu namorado, Jaileno Sampaio.
“No início de novembro de 1971, foi ao quartel-general com sua mãe, Esmeraldina Carvalho Cunha, visitar Jaileno, contudo, não obteve autorização para vê-lo. Ao sair do local, sentiu-se mal e percebeu que estava perdendo a visão e tinha dificuldades para respirar.
“A partir desse momento, passou a ter uma série de sintomas de desequilíbrio mental provocado pelas intensas torturas de que havia sido vítima. Tinha alucinações, crises de imensa tristeza, momentos de perda de visão repentina, desmaios e forte insônia.
“Até que o psiquiatra Eduardo Saback recomendou que fosse internada para ser submetida a um tratamento de sonoterapia. No mesmo dia em que chegou à Clínica Amepe, em 4 de novembro de 1971, recebeu a visita do major Nilton de Albuquerque Cerqueira, que ameaçou prendê-la novamente.
“Após esse episódio, o estado de Nilda piorou sensivelmente. Assim, o médico responsável recomendou que ela fosse transferida para um hospital, tendo sido levada para o Sanatório Bahia.
“Alguns dias mais tarde, em 14 de novembro, Nilda morreu, surpreendendo a todos, já que seu estado de saúde havia melhorado consideravelmente. (…) Diante dessas circunstâncias, seu corpo foi enviado ao Instituto Médico Legal Nina Rodrigues que, no entanto, não entregou para a família o laudo da necropsia.”
Esmeraldina, além de Nilda, também era mãe de Lourdes, que “ficou com graves problemas psicológicos por ter sido assediada por agentes do Exército e sofrido torturas psicológicas”; de Lúcia e Leônia – que também foram militantes contra a ditadura, a última no Partido Comunista Brasileiro (PCB) e na Organização Revolucionária Marxista Política Operária (Polop).
Mas foi o assassinato da filha mais nova, Nilda, que marcou a trajetória de sua vida:
“Esmeraldina teve muita dificuldade em lidar com a morte da filha, entrou em um grave processo depressivo e foi internada no Sanatório Ana Nery, em Salvador (BA).
“Há evidências de que sua morte esteja relacionada às atividades de denúncia que começou a realizar após o falecimento de sua filha.
“Morreu aos 50 anos de idade, em 20 de outubro de 1972, sendo encontrada morta na sala de sua residência, pendurada por um fio de máquina elétrica. O seu corpo foi encontrado por sua filha Lubélia, ao entrar em casa com seu noivo. Após o ocorrido, sua outra filha, Leônia, estranhou manchas de sangue espalhadas pelo chão e a ausência de marcas do fio no pescoço de sua mãe, além do fato do rosto dela não estar arroxeado e tampouco a sua língua estar para fora.
“Desde a prisão de Nilda, em agosto de 1971, com o namorado Jaileno Sampaio, na casa onde fora presa Iara Iavelberg, Esmeraldina começou a procurar sua filha em diversos lugares, chegando a entrar em contato com comandantes militares, juízes e advogados. Quando conseguiu encontrá-la, assustou-se com as visíveis marcas de tortura.
“Depois disso, Esmeraldina teve muita dificuldade para rever Nilda, até quando esta foi solta e veio a falecer quando estava internada em um hospital em Salvador (BA).
“Depois de sair da internação no Sanatório Ana Nery, Esmeraldina passou a denunciar a morte de sua filha. Inicialmente, procurou os médicos do hospital onde Nilda ficara internada, no entanto, não encontrou ninguém que pudesse esclarecer os motivos que levaram sua filha à morte.
“Andava pelas praças públicas e ruas da cidade chorando e gritando acusações contra o Exército sobre a morte de Nilda após terem-na torturado. Em uma dessas andanças, foi presa na Secretaria de Segurança Pública, de onde foi liberada pela intervenção de uma amiga que a viu ser levada pela polícia.
“Logo após essa ocasião, recebeu uma ameaça de um homem desconhecido que teria sido enviado pelo major Nilton de Albuquerque Cerqueira, chefe da 2ª Seção do Estado Maior da 6ª Região Militar e comandante do Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOICODI) de Salvador, um dos comandantes da “Operação Pajussara”, informando-a de que se ela não interrompesse as denúncias, ele a faria parar.
“Não se calou” (v. Memorial da Resistência).
Esta foi a mulher que o Instituto Rio Branco e o Itamaraty homenagearam no dia de hoje.
C.L.
(Agradecemos a Olival Freire Jr., presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq – a sugestão para esta matéria.)











