Após derrota de Trump, delegações de EUA e Irã já na Suíça para acordo que finde sanções a Teerã

Presidente do Parlamento iraniano chega a Zurich para conversações (Escritório da Presidência do Parlamento do Irã)

Irã só aceitou enviar sua delegação depois de Israel se comprometer com cessar-fogo no Líbano. Teerã fez essa exigência após Netanyahu sabotar os entendimentos bombardeando Beirute e aldeias libanesas.

As negociações para viabilizar os 14 pontos do memorando de entendimento (MOU) tiveram início neste domingo (21) depois de declaração de comandante militar israelense de ter recebido instruções de Netanyahu e do ministro da Guerra (Katz) para suspender o fogo no sul do Líbano, segundo informam os canais de TV israelenses 12 e 14.

O Irã considera que os ataques de Israel no sul do Líbano configuram descumprimento dos Estados Unidos – que começou a guerra não provocada junto com Israel – de seus compromissos, em particular a não aplicação da primeira cláusula do Memorando de Entendimento sobre o fim da guerra em todas as frentes, incluindo o fim dos ataques sionistas ao Líbano.

Foi um período tenso com Israel bombardeando e destruindo bairros e cidades históricas, a exemplo de Nabatieh (com construções que datam de 1250) e deslocando 3 milhões de libaneses sob bombas, inclusive as de fósforo branco, proibidas pelas Convenções de Genebra, com seu uso considerado crime de guerra.

A tensão chegou ao ponto de Trump chamar Netanyahu de louco, o que não fez o Irã admitir aliviar os EUA, fornecedor principal de armas para Israel executar seus crimes. Ao contrário, no sábado, o Irã comunicou que o Estreito de Ormuz – por onde passam 25% da demanda mundial de petróleo – estava fechado até que os EUA garantissem de seu aliado no Oriente Médio o fim das atrocidades no Líbano. “Não abandonamos nossos parceiros em momentos de dificuldade”, declarou o Ministério do Exterior do Irã.  

Horas antes da continuidade das negociações Trump voltou a ameaçar bombardear o Irã. Disse que “atacaremos o Irã com muita força novamente, assim como fizemos na semana passada, só que com mais força.”

Trump fez a ameaça no mesmo dia em que Estados Unidos e Irã realizam as primeiras conversas após assinarem o acordo para o fim da guerra no Oriente Médio. As negociações ocorrem em Zurique, na Suíça, e a delegação do Irã é chefiada pelo presidente do Parlamento iraniano e chefe das negociações com os EUA, Mohammed Ghalibaf.

O vice-presidente dos EUA, J. D. Vance, disse na abertura das negociações que os EUA veem um futuro em paz com o Irã e que acredita que os dois países podem seguir “juntos”.

O vice-presidente do EUA disse ainda que chegou às tratativas com um pedido do presidente dos EUA, Donald Trump, para que os EUA “virem a página para transformar a relação com o Irã”.

O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, disse esperar avanço nas negociações com as conversas deste domingo: “Espero que os envolvidos nas negociações consigam fazer o processo avançar com sucesso”.

O memorando de entendimento assinado nesta semana prevê um prazo de 60 dias para um acordo final focado no programa nuclear iraniano e no levantamento das sanções contra a economia do país. A chancelaria do Irã anunciou para amanhã negociações técnicas entre iranianos e americanos, com a presença de representantes dos países mediadores Catar e Paquistão.

A primeira rodada de negociações entre EUA e Irã após a assinatura do MoU, com a participação dos mediadores do Paquistão e do Qatar, foi concluída após cerca de 80 minutos. As duas delegações se reuniram a seguir para consultas internas.

A delegação iraniana, encabeçada por Ghalibaf e que também inclui o ministro de Exterior, Abbas Araghchi, insistiu na total aplicação do MOU.

A delegação dos EUA, encabeçada pelo vice J. D. Vance, inclui Jared Kushner e Steve Witkoff. Também estiveram presentes o primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, e ainda o marechal Asim Munir, junto com o primeiro-ministro do Qatar, Sheikh Mohammed bin Abdulrahman Al Thani.

Assim que chegou, Ghalibaf teve conversas separadas com os dirigentes do Qatar e do Paquistão.

O porta-voz da delegação iraniana, Esmaeil Baghaei, destacou que o tema principal das conversas de hoje foi a demanda de que EUA implemente suas obrigações diante do MOU, que inclui medidas que reduzam o impacto das restrições ao Irã, assim como a guerra.

Diz o porta-voz iraniano que cabe aos EUA as medidas para o desbloqueio dos ativos do seu país sequestrados por Washington.

Baghaei afirmou que o aparato diplomático iraniano, com o total apoio do povo, garantiu um texto que serve aos interesses do país. “O fato de termos assinado um acordo para encerrar a guerra neste estágio não significa que esquecemos o passado ou abandonamos as lições custosas que aprendemos”.

“Nosso trabalho agora é mais difícil do que antes, porque implementar acordos internacionais é sempre muito mais difícil do que os redigir, especialmente com partes que não estão comprometidas com suas obrigações.”

Veja um resumo dos 14 pontos do memorando:

1. EUA e Irã declaram o fim imediato e permanente da guerra em todas as frentes, incluindo no Líbano, e se comprometem a não iniciar qualquer conflito um contra o outro e a garantir a integridade territorial e soberania libanesas;

2. EUA e Irã se comprometem a respeitar a soberania e integridade territorial um do outro e a não interferir nos assuntos internos um do outro;

3. EUA e Irã se comprometem a conduzir negociações para alcançar um acordo final em até 60 dias, com prazo prorrogável mediante consentimento mútuo;

4. EUA suspenderão seu bloqueio naval ao Irã e retirarão suas forças militares da região ao redor do Irã em até 30 dias após a assinatura do memorando;

5. Irã reabrirá o Estreito de Ormuz em até 30 dias e se compromete a garantir passagem segura e sem custos de navios comerciais por 60 dias. O Irã também dialogará com Omã e outros países do Golfo Pérsico sobre a futura administração do estreito;

6. EUA se comprometem, junto com seus parceiros regionais, a criar um programa para reconstrução e desenvolvimento econômico do Irã, com financiamento mínimo de US$ 300 bilhões;

7. EUA se comprometem a encerrar todos os tipos de sanções contra o Irã, incluindo resoluções do Conselho de Segurança da ONU, resoluções do Conselho de Governadores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e todas as sanções unilaterais americanas;

8. Irã reafirma que não produzirá nem adquirirá armas nucleares, e ambas as partes concordam em tratar da diluição do urânio enriquecido por meio de mecanismo acordado e com supervisão da AIEA. EUA e Irã também concordam em discutir o tema do enriquecimento e outras questões nucleares no futuro;

9. EUA e Irã concordam em manter o status quo atual até chegarem a um acordo final: o Irã manterá sua atual política nuclear; os EUA não vão impor novas sanções nem aumentarão sua presença militar no Oriente Médio;

10. EUA se comprometem a permitir que o Irã comercialize seu petróleo e produtos petroquímicos;

11. EUA se comprometem a liberar totalmente todos os ativos e fundos iranianos que estavam congelados ou restringidos pelas sanções;

12. Ambas as partes concordam em estabelecer um mecanismo de implementação para supervisionar a execução deste memorando e a futura adesão ao acordo final;

13. Após a assinatura e início da implementação das cláusulas 1, 4, 5, 10 e 11, as negociações sobre o acordo final se concentrarão exclusivamente nas demais cláusulas;

14. O acordo final será ratificado por meio de uma resolução vinculante do Conselho de Segurança da ONU em até 60 dias.

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