O Brasil Nação nasceu na luta pela Abolição

Vinte mil pessoas se reúnem em missa campal, no Rio, em ação de graças pela Abolição, no dia 17/05/1888 (foto: Antonio Luiz Ferreira)


IRAPUAN SANTOS

Um país pode surgir no mapa do mundo fruto de convenções, descoberta de colonizadores, decreto divino ou até mesmo mero ajuntamento de grupos étnicos. Mas, a Nação nasce num determinado momento histórico, em que se consolidam povo, território, cultura nacional e vida econômica.

Portanto, não é demais afirmar que, embora descoberto nos anos 1500, o Brasil se constituiu definitivamente como Nação no embate pela libertação institucional da maioria de sua população, o que representou a longa luta pela fim da escravidão. Não por outra razão os dois principais heróis nacionais gerados nos seus três primeiros séculos de existência sejam Zumbi dos Palmares e Tiradentes. O primeiro, acendendo a tocha da libertação no quilombo e o segundo, incorporando o fim da escravidão no ideário de um país soberano.

Portanto, as aspirações de independência, de vida própria para o país, de unificação do povo foram se amalgamando e cada vez mais isolando a usura, a ganância, o pensamento colonizado, culminando na campanha avassaladora que teve seu desfecho em 13 de maio de 1888 e resultou no advento da República em 1889.

Numa campanha sem precedentes no Brasil a consciência emancipacionista avançou para abolicionista, liberdade sem indenização aos escravocratas, sob o lema ‘A escravidão é roubo’, lema da Confederação Abolicionista.

Manifestações em cortejos, procissões, enterros, concertos se transformaram em assembleias para iludir a repressão, surgiram os territórios livres a partir do Rio de Janeiro. Casas, locais de trabalho, ruas, quarteirões foram libertados no centro da cidade.

As fugas em massa se multiplicaram. Foram criadas redes de asilos e quilombos abertos ou disfarçados para e pelos libertos. O telégrafo e o avanço das comunicações permitiram que a vaga libertária se espraiasse pelo País. Surgiram dezenas de sociedades antiescravocratas e províncias livres, seguindo o exemplo do Ceará.

A resistência conservadora dos barões do café no parlamento já não conseguia sustentar o sistema. Os militares se recusaram a cumprir o papel de capitães do mato. Por isso, os dois artigos da Lei Áurea representam , antes de tudo, a capitulação de um império isolado, que iria por terra um ano depois através da Proclamação da República”. 1

É evidente que nem todos os problemas sociais foram resolvidos, até porque a resolução deles depende da correlação de forças na sociedade.

Na verdade, somente com a Revolução de 30 os brasileiros veriam a consolidação de conquistas fundamentais no trabalho, ensino, na democracia e na independência nacional.

Não foram poucas as conquistas, durante ao menos 50 anos o Brasil teve uma das mais altas taxas de desenvolvimento no mundo capitalista e do ponto de vista do ideário se forjou no País uma consciência nacional desenvolvimentista, o que continua sendo um instrumento fundamental para a revolução.

O Congresso Nacional Afro-Brasileiro, CNAB, não obstante a obra que temos a realizar pela frente com o fim da discriminação racial, a incorporação em igual condições de participação de todo o nosso povo no processo do desenvolvimento e o fim da submissão do Brasil ao imperialismo, encara este ano de 2026 com otimismo e fé na transformação social.

Comemoramos neste ano o Centenário do nosso fundador Professor Eduardo de Oliveira, que, nascido no ano de 1926, ano em que o Brasil vivia convulsionado pela mobilização da Coluna Prestes, antecedida da Revolta Tenentista, foi um brasileiro fiel ao ideário progressista e transformador.

Dono de uma capacidade enorme de ação, assentada numa serenidade que só os grandes homens possuem, Eduardo de Oliveira, professor, advogado, poeta, compositor, foi um dos grandes brasileiros gerados pelo nosso povo no século passado e é uma referência para a nossa geração e as gerações vindouras.

Viva o 13 de Maio!

Viva o Professor Eduardo de Oliveira!

Viva a libertação nacional!

Irapuan Santos é presidente nacional do Congresso Nacional Afro-Brasileiro (CNAB)

Fonte consultada:

STALIN, Josef . O marxismo e o problema nacional e colonial. São Paulo. 1979. Editora Ciência Humanas.

1 SANTOS, Irapuan Ramos. A CANÇÃO NAS CONFERÊNCIAS EMANCIPADORAS: Uma contextualização histórico-musical. UFRJ. Rio de Janeiro.2023

Compartilhe

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *