Na casa dos vampiros não há espelhos


DAVI MOLINARI

Naquela tarde, o Fale Mais Sobre Isso parecia uma assembleia nacional da brasilidade. 

Na televisão, comentaristas desenhavam tantas setinhas para explicar como o Brasil deveria enfrentar o Japão que, se dependesse deles, a seleção japonesa já teria pedido desculpas antes de entrar em campo.

Na parede ao lado, um projetor transformava o salão num pedaço de Parintins. O Caprichoso incendiava tudo de azul. O Garantido respondia de vermelho. Em menos de cinco minutos, já existiam duas torcidas organizadas no boteco.

– O Caprichoso marca pressão melhor que muito zagueiro convocado! – provocou um estudante.

– E o Garantido joga sem VAR! – rebateu outro.

Juvenal atravessou aquele campo minado equilibrando seis tulipas de chope.

Nunca derramava uma gota.

Derrubava apenas convicções.

Foi quando resolvi estragar o happy hour do doutor.

– Doutor… tive um sonho esquisito.

Ele nem respondeu.

Apenas levantou uma sobrancelha naquele movimento mínimo que, traduzido para o português, queria dizer:

“Lá vem o analisado transformar meu happy hour em plantão voluntário.”

– Sonhei que o teto era uma bola de futebol gigantesca. Cada gomo era um espelho. Centenas deles. Eu olhava para cima procurando meu rosto… mas cada espelho devolvia uma versão diferente de mim.

– Igual perfil de rede social… – resmungou um rapaz da mesa ao lado, sem tirar os olhos do celular.

Algumas mesas riram.

A essa altura, minhas sessões de terapia já eram tão públicas que deveriam cobrar ingresso e emitir nota fiscal.

O doutor permaneceu imóvel.

Continuei.

– Num espelho eu parecia dez anos mais velho. No outro, dez anos mais novo. Num terceiro, um sujeito pronto para fundar um partido. No quarto, alguém preparado para pedir desculpas por existir. Teve um que me devolveu uma cara tão bonita que desconfiei imediatamente. E acordei.

Até o doutor deixou escapar um meio sorriso.

Foi quando Juvenal estacionou duas tulipas de chope sobre a mesa.

Nunca vi ninguém pousar cerveja com tanta elegância.

Piloto de caça faz mais barulho.

Ao lado, aterrissou uma porção de manjubinhas tão crocantes que um aposentado jurou ter ouvido o estalo da primeira mordida lá da calçada.

Juvenal limpou as mãos no pano do ombro.

Olhou para mim.

Depois para o doutor.

Depois para o espelho manchado atrás do balcão.

– Espelho é um bicho traiçoeiro.

– Por quê? – perguntei.

– Porque tem gente que passa tanto tempo escovando a própria imagem… que esquece de passar um sabão na biografia.

– É a tal validação… – arrisquei.

Juvenal deu de ombros.

– Quem sabe quem é não precisa pedir recibo de existência.

O doutor continuava escrevendo no bloquinho, como quem já conhecia o final da conversa.

Foi então que o celular da mesa vizinha resolveu substituir a Copa pela novela da semana.

Era a madrasta contra o enteado.

Michelle versus Flávio.

Já na fase do mata-mata.

Um estudante comentou:

– Rapaz… essa família briga pior que reunião de condomínio.

Juvenal corrigiu sem levantar a voz.

– Que nada. Condomínio ainda faz assembleia. Ali é briga por espelho. Todo mundo querendo descobrir quem herda o sobrenome… e quem herda a sombra.

– O 01 foi buscar validação nos Estados Unidos… prometeu amizade, prometeu cargo, prometeu patriotismo importado… – comentei.

Juvenal nem esperou eu terminar.

– Coitado…

Fez uma pausa dramática.

– Foi procurar espelho logo na casa dos vampiros.

O boteco veio abaixo.

Até o doutor respirou fundo para esconder o riso.

Olhei para a televisão.

Olhei para Parintins.

Olhei para o celular.

O país inteiro parecia procurando um motivo para comemorar junto.

Uns encontravam isso numa camisa amarela.

Outros num boi de pano.

Outros numa mesa cercada de amigos, chope gelado e manjubinhas.

Mas havia quem continuasse procurando apenas um espelho onde pudesse aparecer sozinho.

Na televisão, as setinhas continuavam tentando vencer o Japão.

Enquanto isso, num canto mais silencioso do bar, alguns estudantes comentavam os mortos e desaparecidos dos terremotos na Venezuela.

Bastou um minuto.

Só um.

Para lembrar que a realidade continua pouco impressionada com o nosso narcisismo.

Juvenal recolheu os copos vazios.

Parou diante do espelho atrás do balcão.

Passou o pano lentamente.

Como quem limpava muito mais que vidro.

Sorriu.

– O que foi? – perguntei.

– Estou conferindo uma teoria.

– Qual?

– Dizem que vampiro não tem reflexo.

– E daí?

Ele olhou para o espelho.

Depois para o salão.

Deu aquele sorriso enviesado de quem ia servir uma ironia sem cobrar couvert.

– Faz tempo que esse espelho anda refletindo tanta gente… que estou começando a desconfiar dessa história.

O bar explodiu.

O torcedor do Caprichoso bateu na mesa.

O do Garantido ria sem conseguir segurar o copo.

Até o aposentado que entendia mais de futebol que o Ancelotti quase engasgou com a manjubinha.

O doutor fechou o bloquinho.

Ajeitou os óculos.

Tomou o último gole do chope.

Esperou a última gargalhada morrer sozinha.

Então falou pela única vez naquela noite:

– Quem vive pedindo validação acaba esquecendo de construir um rosto.

O silêncio entrou no boteco sem pedir licença.

Lá fora, alguém gritou:

– Vai, Brasil!

Na parede, o Caprichoso e o Garantido continuavam dançando como se soubessem que identidade não se herda, não se compra e não se mendiga.

Constrói-se.

Olhei uma última vez para o espelho atrás do balcão. Foi então que compreendi meu sonho.

O espelho nunca esteve partido.

Quebrado era quem precisava do olhar dos outros para descobrir quem era.

Publicado originalmente em Divã no Boteco – XCVIII. Enviado pelo autor.

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