“Nenhuma parte da Copa do Mundo deve ser entregue a investidores privados. O Mundial não está à venda”. Se isso prevalecer, “todas as decisões sobre o futebol passarão a ser tomadas no interesse dos acionistas”, advertem as confederações
A rebelião no mundo do futebol, contra o plano do presidente da FIFA, Gianni Infantino, de criar um mafuá especulativo, a ser encabeçado por um cunhado da filha do presidente Donald Trump, a pretexto de melhorar os direitos comerciais da Copa do Mundo, se espalhou como fogo na pradaria, com duas das maiores confederações, a Uefa (europeus) e a Concacaf (americanos) rechaçando terminantemente o esbulho.
Em reunião de emergência nesta quinta-feira (30), a Uefa votou pelo boicote a todas as competições patrocinadas pela FIFA, incluindo a Copa do Mundo, caso o plano Infantino seja executado. Logo em seguida, a Concacaf, que congrega as federações da América do Norte, Central e Caribe, se pronunciou contra.
Em seu comunicado, a entidade máxima do futebol europeu reitera que suas 55 federações nacionais membros (mais de um quarto das 211) “rejeitam unanimemente e inequivocamente a proposta da FIFA de transferir a propriedade da Copa do Mundo e de outras competições para investidores privados”.
A Copa do Mundo não pode ser tratada como um “produto de investimento”, pois é “o maior legado do futebol”, “criado por gerações de jogadores, seleções nacionais e torcedores em todos os continentes”, afirma a Uefa.
“No momento em que investidores externos adquirem participações nos direitos de propriedade dos torneios”, “o futebol muda para sempre”: “Obter lucro comercial torna-se uma obrigação permanente. As expectativas dos investidores transformam-se numa pressão diária. A partir desse momento, todas as decisões sobre o calendário internacional, os formatos dos torneios e o futuro do futebol deixarão de ser tomadas no interesse do jogo e passarão a ser tomadas no interesse dos acionistas.” “Tal modelo não tem lugar no futebol mundial”, afirmou a Uefa.
Também a Concacaf e suas 41 federações rejeitaram por unanimidade o plano Infantino e a privatização parcial dos ativos da Copa do Mundo, criticando a falta de transparência, o prazo curto e a ausência de debate prévio. A entidade declarou que os lucros e o futuro do esporte devem permanecer exclusivamente nas mãos da “família do futebol”.
A Confederação Asiática de Futebol (AFC) também demonstrou sua disposição em se opor à estratégia da federação internacional. Seu presidente, Salman bin Ibrahim Al Khalifa, descreveu a falta de consulta aos membros da FIFA antes da decisão como “completamente inaceitável”.
Em uma carta aos seus membros, publicada pela Reuters, a AFC enfatizou que a medida “mina os fundamentos do futebol continental, que se baseiam na solidariedade, cooperação e transparência”. O plano também foi contestado pela Associação Internacional de Futebolistas Profissionais (FIFPro) e confederações regionais.
As confederações também condenam que “uma proposta tão crucial para o futebol tenha sido desenvolvida em segredo e praticamente aprovada sem qualquer consulta significativa com os responsáveis pela governança do esporte”. A Comebol ainda não se manifestou.
O mirabolante plano de Infantino é ainda mais inconveniente após o veto de Trump a um cartão vermelho durante a última Copa e a afoiteza com que o cartola-mor puxou o saco do Chefe da Casa Branca.
Pelo plano Infantino – ou deveríamos dizer Infantino-Famíglia Trump? – seria criada a FIFA Forward Enterprise (FFE), a ser formada com recursos de investidores privados que adquiririam participações, e que controlaria essencialmente todas as atividades comerciais da FIFA, principalmente relacionadas aos seus principais torneios, e administraria os direitos sobre eles.
Segundo o cartola, isso permitiria aumentar drasticamente os pagamentos anuais da FIFA às federações nacionais — de US$ 8 milhões para US$ 20 milhões no primeiro ciclo de quatro anos. A FFE foi avaliada em US$ 20 bilhões.
THRIVE CAPITAL, DA FAMÍLIA TRUMP
O plano previa a venda de cerca de 20% da FFE para “investidores” liderados pela Thrive Capital, de Joshua Kushner, irmão de Jared Kushner, genro do presidente Trump. Segundo várias fontes, a administração Infantino previa a data de 19 de setembro para aprovação a jato do esquemão.
Para a Uefa, a criação da FFE seria “ultrapassar um limite que as instituições que regem o futebol não têm o direito de ultrapassar”.
A entidade europeia advertiu que o boicote só seria suspenso se o plano for retirado “na íntegra e forem fornecidas garantias juridicamente vinculativas de que a organização nunca mais permitirá que proprietários privados administrem a FIFA ou seus torneios”.
Curiosamente, a Famiglia Trump não para de nos surpreender com sua voracidade: das memecoins $TRUMP ao Polymarket, “Riviera Sob Cadáveres” em Gaza, até o empreendimento hoteleiro no litoral da Albânia, passando pela presença de um sócio e um genro como enviados especiais em negociações de vida e morte. Agora, a Copa do Mundo…











