Flávio admite que mentiu para diplomatas sobre as urnas eletrônicas

Jornalista disse que Flávio mentiu e ele teve que admitir (Foto: Reprodução - TV Band)

Confrontado com os fatos, durante entrevista ao programa Canal Livre, da Band, ele não teve como manter a mentira

O candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL), foi obrigado a recuar de uma das principais alegações utilizadas recentemente para lançar dúvidas sobre o sistema eleitoral brasileiro.

Durante entrevista ao programa Canal Livre, da Band, no último domingo (2), o senador admitiu que deu informações falsas ao afirmar, dias antes, diante de diplomatas estrangeiros, que as urnas eletrônicas brasileiras teriam origem na empresa venezuelana Smartmatic.

A correção ocorreu após questionamento direto da jornalista Adriana Araújo, que lembrou que o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) já havia esclarecido oficialmente que a Smartmatic jamais forneceu urnas eletrônicas ao Brasil.

Ela também destacou que o atual presidente da Corte, ministro Kassio Nunes Marques, indicado à Corte por Jair Bolsonaro, já havia desmontado a narrativa de que haveria suposta perseguição institucional ao grupo político do candidato.

Diante da contestação, Flávio reconheceu a mentira. “Essa parte eu me equivoquei”, afirmou.

Na sequência, confirmou que os equipamentos utilizados nas eleições brasileiras são produzidos pela empresa brasileira Positivo Tecnologia, vencedora da licitação realizada pelo TSE em 2020.

O TSE já reiterou, em nota pública atualizada em julho, que a Smartmatic “não forneceu nem fornece urnas eletrônicas para as eleições brasileiras” e que todo o sistema eletrônico de votação é desenvolvido, auditado e administrado exclusivamente pela Justiça Eleitoral.

Ainda assim, insistiu em sustentar parte da narrativa ao alegar que a Smartmatic teria participado de atividades ligadas ao suporte técnico e treinamento, argumento que não altera o fato central desmentido pelo próprio candidato: a empresa venezuelana nunca fabricou nem forneceu as urnas utilizadas nas eleições brasileiras.

FARSA MANTIDA

Embora tenha reconhecido o erro factual, Flávio Bolsonaro manteve o discurso de que o sistema eleitoral precisaria de “mais segurança” e “mais transparência”. Entretanto, não apresentou evidências técnicas nem indicou vulnerabilidades concretas que justificassem novas medidas de controle.

O candidato também afirmou que aceitará o resultado das eleições de outubro, mas condicionou esse reconhecimento à atuação do Tribunal Superior Eleitoral que, segundo ele, seja “imparcial”. A declaração preserva estratégia política recorrente: evitar contestar frontalmente o processo eleitoral enquanto mantém insinuações sobre a confiabilidade da Corte Eleitoral. Também evidencia uma chantagem contra o tribunal para tirar vantagem. 

REPETIÇÃO DE ROTEIRO

O episódio reproduz padrão político já conhecido no bolsonarismo: a divulgação de informações posteriormente desmentidas sobre o sistema eleitoral, seguida de recuos parciais, sem abandono da narrativa de desconfiança.

Foi justamente esse comportamento que levou o ex-presidente Jair Bolsonaro à condenação pelo TSE em 2023, por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação após reunião com embaixadores, em julho de 2022, quando apresentou acusações sem provas contra as urnas eletrônicas.

A fala de Flávio a diplomatas, em julho deste ano, estabeleceu inevitável paralelo com aquele episódio, tanto pelo conteúdo quanto pelo público escolhido para difundir a narrativa.

A diferença é que, desta vez, o próprio candidato acabou admitindo publicamente que uma das informações centrais da exposição dele era incorreta.

O estranho é que Flávio continue disseminando desinformações sem que o TSE, dirigido por Kassio Nunes Marques e André Mendonça, ambos indicados por Bolsonaro, tome providências contra ele.

REPERCUSSÃO

A entrevista repercutiu imediatamente nas redes. Vídeos do momento em que Adriana Araújo confronta o candidato circularam amplamente, acompanhados de críticas à divulgação de informações falsas sobre o processo eleitoral.

Entre as manifestações mais compartilhadas esteve a do perfil Artemis Zamis (@esquerdeando), que escreveu: “Como que esse ser abjeto pode ter voto?”.

Independentemente das reações nas redes, o episódio expôs contradição difícil de ignorar: mesmo após reconhecer que uma das premissas da crítica dele ao sistema eleitoral era falsa, Flávio Bolsonaro insistiu em sustentar a necessidade de ampliar mecanismos de segurança, sem indicar qualquer evidência objetiva de fraude ou vulnerabilidade.

Mais do que simples erro factual, a entrevista evidenciou a permanência de estratégia política baseada na manutenção de suspeitas sobre o processo eleitoral, ainda que os fatos apresentados inicialmente tenham sido desmentidos pelo próprio candidato.

O episódio reforça padrão que marcou o debate público nos últimos anos: a persistência de narrativas que sobrevivem mesmo depois de perderem o principal fundamento factual.

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