Nikolas Ferreira volta a espalhar fake news sobre Covid, que matou 700 mil no governo Bolsonaro

Deputado bolsonarista questionou vacinas e medidas anti-covid - Foto: Reprodução/Redes Sociais

O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) voltou a disseminar informações falsas sobre a pandemia de covid-19 ao publicar, no último domingo (2), um vídeo em que retoma alegações já desmentidas por estudos científicos sobre vacinas, hidroxicloroquina, uso de máscaras e distanciamento social. A publicação utiliza como base o depoimento do imunologista norte-americano Anthony Fauci ao Senado dos Estados Unidos, mas distorce o conteúdo da audiência para sugerir, sem provas, que medidas adotadas durante a pandemia foram uma fraude.

Entre as afirmações feitas por Nikolas está a de que Fauci teria reconhecido que a hidroxicloroquina era um tratamento eficaz contra a covid-19 e recuado apenas após o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, defender o medicamento. No entanto, anotações do próprio Fauci mostram justamente o contrário.

Em registros de março de 2020, o imunologista relata ter se oposto ao uso da hidroxicloroquina por falta de evidências científicas. Em outro trecho, descreve um confronto com o então assessor de Trump, Peter Navarro, ao afirmar que as supostas evidências favoráveis ao medicamento eram, em grande parte, apenas relatos anedóticos.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) também não recomenda o uso da hidroxicloroquina para prevenir ou tratar a covid-19. Segundo a entidade, análises de 30 estudos clínicos envolvendo mais de 10 mil pacientes concluíram que o medicamento não reduziu a mortalidade nem a necessidade de ventilação mecânica. As pesquisas também apontaram aumento no risco de efeitos adversos, como problemas cardíacos, lesões renais e insuficiência hepática.

No vídeo, Nikolas também sugere que partes de bebês abortados teriam sido utilizadas na produção das vacinas contra a covid-19. A alegação é antiga e já foi desmentida por diferentes agências de checagem e entidades científicas.

Algumas vacinas, como a Oxford-AstraZeneca, utilizaram linhagens celulares cultivadas em laboratório para pesquisa e desenvolvimento. Essas células descendem de um tecido fetal obtido legalmente na década de 1970 e vêm sendo reproduzidas continuamente desde então. As vacinas não contêm células fetais em sua composição, conforme explicam a Academia Americana de Pediatria e outras instituições científicas.

MASCÁRAS E DISTANCIAMENTO

Outra alegação feita pelo parlamentar é a de que um relatório do Congresso dos Estados Unidos teria comprovado a ineficácia do uso de máscaras e do distanciamento social durante a pandemia.

O documento citado, porém, foi elaborado por um subcomitê comandado por parlamentares republicanos e teve suas conclusões contestadas por pesquisadores e entidades médicas. Revisão publicada na revista científica The Lancet, baseada em 44 estudos observacionais, concluiu que o distanciamento físico e o uso de máscaras reduziram significativamente a transmissão do coronavírus.

A OMS também manteve, durante toda a emergência sanitária, a recomendação do uso de máscaras como parte do conjunto de medidas para reduzir a propagação da covid-19.

SILÊNCIO DE FAUCI NÃO É PROVA DE NADA

Nikolas ainda afirma que o fato de Anthony Fauci ter permanecido em silêncio durante parte da audiência seria uma prova de que teria mentido sobre a pandemia.

Na realidade, o imunologista invocou a Quinta Emenda da Constituição dos Estados Unidos, que garante a qualquer cidadão o direito de não produzir provas contra si mesmo. O recurso é uma garantia constitucional e não representa reconhecimento de culpa.

Fauci explicou aos senadores que optou por permanecer em silêncio porque suas respostas poderiam ser utilizadas em eventuais processos judiciais contra ele.

SAÚDE REAGE

As declarações de Nikolas também motivaram reação do ministro da Saúde, Alexandre Padilha. Em vídeo publicado nas redes sociais, o ministro criticou a tentativa de reescrever a história da pandemia e lembrou o impacto da covid-19 no Brasil.

“Essas vidas perdidas eram de brasileiros como todos nós. Não eram pessoas que estavam fadadas a morrer por qualquer outro motivo. Foram mais de 700 mil brasileiros e brasileiras mortos”, afirmou.

Padilha também criticou a condução da pandemia pelo governo do ex-presidente Jair Bolsonaro e declarou: “Enquanto tinham brasileiros morrendo com falta de ar, enquanto o governo ignorava ofertas para comprar vacina e investir em cloroquina, para transformar o Bolsonaro em vítima, eles precisam apagar as vítimas reais.”

Ao final da publicação, o ministro acrescentou: “Enquanto eles tentam reescrever a história para se proteger, as famílias brasileiras têm que lidar com a saudade.”

A ex-ministra da Saúde Nísia Trindade também reagiu ao vídeo.

“Nikolas Ferreira está mentindo mais uma vez […] Falar de Covid-19 não é uma questão de esquerda ou de direita. É uma questão de ciência, de saúde pública, de defesa da vida. O governo Bolsonaro não só errou gravemente ao recomendar cloroquina e hidroxicloroquina, como tratou de forma desumana a nossa população.”

Durante a crise sanitária, Nísia Trindade foi uma das figuras centrais à frente da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) na construção, em parceria com instituições de diversos países, de medidas de prevenção e combate à Covid-19.

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