Rejeição a Milei dispara para 76,9% entre os jovens argentinos

Nas ruas de Buenos Aires, jovens comandam luta contra a estrangeirização de terras e a submissão ao FMI (ComunicaSul)

Pesquisas de julho mostram erosão acelerada exatamente na faixa etária que garantiu a eleição do mandatário em 2023, em meio a protestos contra o FMI, cortes de verbas, reforma trabalhista e lei de estrangeirização de terras

A figura caricata de Javier Milei segue se deteriorando, e o dado mais expressivo vem da juventude, setor que sustentou sua chegada à presidência da Argentina.

A desaprovação ao governo entre argentinos de 16 a 24 anos alcançou a 76,9% em julho, com apenas 23,1% de aprovação nessa faixa etária, apontou a pesquisa Latam Pulse, iniciativa conjunta da consultoria brasileira AtlasIntel com a Bloomberg Línea. Entre os jovens de 25 a 34 anos, a rejeição também é alta, chegando a 71,9%, que classificaram sua gestão como “má” ou “muito má”.

Os jovens de 16 a 24 anos foram um dos pilares da votação que levou Milei à Casa Rosada em 2023, quando seu pretenso discurso “antissistema’ encontrou ressonância entre os mais novos, pois vinha embalado sobre o cinismo de se afirmar contra a política tradicional.

Diante de mazelas como os sucessivos pacotes de ajuste fiscal, submissão ao Fundo Monetário Internacional (FMI), cortes de verbas da saúde e educação, reforma trabalhista e a tentativa de estrangeirização de terras, entre outras, menos de três anos depois, é justamente a juventude que lidera a rejeição ao governo.

Esses temas mobilizaram estudantes e trabalhadores mais novos nos últimos meses, ao lado dos movimentos sociais e partidos progressistas, ampliando o rechaço à continuidade dos desmandos de Milei.

“É preciso levar em conta que são três anos de expectativa de recuperação de emprego, salário e melhoria nas condições políticas, econômicas e sociais do país que só ocorreram retrocessos”, condenou Joana Giménez, secretária da Juventude da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras (CTA-Autônoma) da Argentina. A dirigente lembrou que ao invés de seguir em frente, os jovens foram obrigados a sobreviver fazendo bicos. Na luta contra a estrangeirização das terras, Joana valorizou o papel da seleção na Copa, erguendo a faixa “Malvinas argentinas” e dos militantes digitais que organizaram redes em defesa da soberania.

DESGASTE MAIOR ENTRE OS QUE GANHAM MENOS

A pesquisa também revela recortes por renda e escolaridade que reforçam o quadro de desgaste nas bases populares e mais jovens do eleitorado. Entre os que recebem menos de 630 mil pesos argentinos (R$ 2.159,00) mensais, a desaprovação chega a 78,8%, contra 44,9% entre quem ganha mais de 3 milhões de pesos (R$ 10.240,00). Por escolaridade, o repúdio é maior entre pessoas com apenas o ensino primário completo (77,8%) e 65% entre os que têm ensino superior.

As mulheres seguem desaprovando mais o governo (66,1% contra 58,5% entre os homens), mas a diferença é menor do que a observada em boa parte do mandato, sinal de que a erosão já atinge inclusive o eleitorado masculino que historicamente deu maior sustentação ao presidente.

METODOLOGIAS DISTINTAS, CONCLUSÕES SEMELHANTES: DESAPROVAÇÃO

O fenômeno não aparece isolado em um único instituto. Um monitoramento paralelo realizado pela consultora MYF, com metodologia distinta, chegou a conclusões semelhantes: entre os menores de 40 anos, a aprovação ao governo caiu para apenas 36,8%, praticamente empatada com os 37,4% registrados entre os mais velhos – uma inversão em relação ao padrão observado nos primeiros anos de mandato, quando Milei tinha vantagem na juventude. O mesmo levantamento mostrou ainda que 57% dos argentinos disseram que votariam por uma mudança total de governo e de políticas.

De igual forma, o Índice de Confiança no Governo (ICG), elaborado pela Universidade Torcuato Di Tella, caiu 6,5% em julho. “o nível mais baixo da era Milei”.

Diante do agravamento da crise, o conjunto das pesquisas constatou o crescimento do grupo “triplo nem”, jovens que não estudam, não trabalham e desistiram de procurar emprego.

Conforme inúmeros analistas citados pela imprensa argentina, a coincidência entre pesquisas de institutos diferentes fortalece a compreensão de que não se trata de uma oscilação pontual, mas de uma” tendência estrutural de desgaste” que o governo terá muita dificuldade de reverter, ainda mais diante do impacto de suas políticas no âmbito social e trabalhista.

O cenário é particularmente sensível para o mandatário porque cerca de 53% do eleitorado argentino é formado por pessoas com menos de 40 anos. Isso significa que a perda de apoio nessa faixa etária não é apenas um dado demográfico isolado, mas um risco eleitoral concreto para o um governo entreguista, que agora colhe os frutos da sua política entre os que ajudaram a viabilizar sua chegada ao poder.

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