Morre Laura Cardoso, ícone da dramaturgia brasileira

Foto: Reproução/Instagram

Ícone da dramaturgia brasileira, a atriz Laura Cardoso faleceu na madrugada desta terça-feira (18), aos 98 anos.

Segundo Fátima Cardoso, filha da atriz, Laura Cardoso faleceu de causas naturais após se sentir mal em sua residência em São Paulo, por volta da meia-noite.

Consagrada por importantes contribuições ao rádio, teatro e cinema – Cardoso começou sua carreira aos 15 anos ainda nas radionovelas –, a atriz foi pioneira na TV, atuando desde sua inauguração, em 1950, e conquistando a popularidade e aclamação do país em interpretações fortes e personalíssimas que marcaram a nossa teledramaturgia.

Em sua impressionante trajetória artística – tendo atuado em mais de 60 novelas desde a inauguração da Rede Tupi, e em todas as principais emissoras, como as extintas Excelsior e TV Rio, além de Band, Cultura, Record e Globo, onde permaneceu como contratada desde 1983 –, Laura Cardoso colecionou indicações e prêmios por sua atuação na televisão, no cinema e no teatro.

Os principais prêmios incluem cinco troféus da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte), prêmio Oscarito, do Festival de Gramado, por sua contribuição ao cinema brasileiro, dois Prêmios Shell e dois Troféus Imprensa. Em 2006 foi condecorada pelo presidente Lula com a Ordem do Mérito Cultural em reconhecimento à sua contribuição artística para o Brasil.

Ganhou ainda o Troféu Roquette Pinto por duas vezes e o Troféu Imprensa. No teatro foi eleita Melhor Atriz duas vezes, por Vem Buscar-me que Ainda Sou Teu (1990) e Vereda da Salvação (1993), além de ter sido homenageada com o Grande Prêmio da Crítica em 2014. No cinema, foi premiada como Melhor Atriz por Através da Janela, em 2000,e em 2002 ganhou o Troféu Mário Lago pelo conjunto de sua obra na televisão.

Na TV Globo, entre seus personagens mais lembrados estão Dona Isaura, mãe das gêmeas Ruth e Raquel em Mulheres de Areia (1993), e Dona Guiomar, de A Viagem (1994). Também participou de novelas como Irmãos Coragem, Rainha da Sucata, Caminho das Índias, A Vida da Gente e Chocolate com Pimenta.

No teatro, atuou em montagens dirigidas por nomes como Antunes Filho e Gabriel Villela e, no cinema, participou de mais de 20 filmes.

Nascida em 1927 no bairro do Bixiga, na capital paulista, e filha de camponeses imigrantes portugueses, o interesse pelas artes dramáticas começou ainda criança, a partir da literatura, quando despertou o interesse de colegas e professores lendo histórias na classe. Mas teve que enfrentar os preconceitos da época para se tornar atriz.

Como contou em entrevista no programa “Conversa com Bial”, em 2020: “Na época, a mulher nascia pra ser dona de casa”.

“As atrizes eram tratadas muito mal. Quando chegava nas festinhas, eram sempre olhadas de lado, achavam que éramos um mau exemplo. A vida de atriz foi sempre perfeita para mim, foi maravilhosa, limpa e bonita. Mas, atriz era considerada prostituta”, lembrou.

Firme, declarou em 2013 ao programa “Damas da TV”: “Eu nunca me liguei muito nisso, se eu era aceita ou não. Eu tinha uma meta que era fazer uma carreira de atriz, queria representar”.

“O passado foi divertido, foi amado. O passado foi amor, nós amamos, nós nos amamos, foi muito bom aquele começo, porque inventávamos as coisas”, disse sobre sua trajetória. “Muita coisa a gente acertou e muita coisa a gente errou, mas a gente tentou fazer o que está aí!”.

“Eu amo o meu local de trabalho e os meus colegas. Faz parte de mim, da minha família, do meu coração. Eu amo a minha profissão”, completou a atriz.

Com energia de tirar o fôlego – sua última participação em novela foi em 2019 e, no cinema, no ano passado, no filme “Dona Rosinha” –, e segundo colegas de trabalho, de doçura inigualável, sua saída de cena repercutiu no Brasil e em diversos países mundo afora, em especial em Portugal, por conta dos filmes e novelas brasileiras de sucesso por lá.

Ao canal GloboNews, o ator Tony Ramos afirmou que Laura Cardoso era “a rainha da televisão”. “Quero me lembrar dela com esse talento, vigor e determinação”, disse. “Ela tinha um riso aberto, de quem não teme nada”, acrescentou o artista. “Que figura incrível e poderosa nós estamos perdendo”, disse emocionado.

Para o ator e diretor Miguel Falabella, “Laura era gigante, compulsiva e tinha um talento que não cabia em seu corpo pequeno”. “Para mim, era sempre um privilégio estar com ela e assisti-la debruçar-se sobre algumas personagens. Te amo, Laura! Muito mesmo! Até um dia!”, declarou.

Em suas redes sociais, a atriz Zezé Motta afirmou que “a arte brasileira se despede de uma de suas maiores damas”. “Laura foi grande, foi inteira, foi eterna. Que privilégio termos vivido no mesmo tempo que ela. Vá na luz minha amada. Obrigada por tudo!”.

A atriz Fabiana Karla disse que “Laura tinha aquele dom raro de fazer tudo parecer simples e verdadeiro, tornando os momentos mais engraçados. Ah o olhar de Laura, forte e dizia tudo! Trabalhar ao lado dela foi uma lição de ofício e de vida. Uma das maiores atrizes que o Brasil já teve nos deixa, mas o legado de talento, carinho e humanidade permanece”.

Laura Cardoso foi casada com o ator, roteirista, diretor e produtor de televisão Fernando Balleroni, com quem viveu até a sua morte em 1980. Com ele, teve três filhos: Fátima, José e Fernanda. O seu filho José faleceu com apenas três dias de vida. A atriz deixa, além das filhas, netos e bisnetos.

O velório da atriz será realizado nesta terça-feira (18) na Funeral Home, no bairro da Bela Vista, em São Paulo, das 8h às 14h.

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