Zema chama brasileiros beneficiários dos programas sociais de “imprestáveis”

Romeu Zema (Novo), ex-governador de Minas Gerais (Foto: Reprodução - Youtube - TV Bandeirantes)

Ao atacar beneficiários de programas sociais, presidenciável do Novo revela visão marcada pelo preconceito social e pelo ódio aos mais vulneráveis. Dos verdadeiros “imprestáveis” que mamam nos juros da dívida, Zema não fala nada

O candidato à Presidência, Romeu Zema (Novo), voltou a atacar os beneficiários de programas de transferência de renda e a tratar a pobreza como se fosse resultado de suposta falta de disposição para trabalhar.

Em declaração que já se tornou espécie de marca da pré-campanha do candidato do Novo, afirmou que o Brasil estaria “criando uma geração de imprestáveis” que “se recusam a trabalhar e optam por ficar fazendo bico”, acrescentando que esse comportamento estaria “passando de pai para filho”.

A declaração foi registrada novamente agora e repete formulação que Zema já havia utilizado em maio, junho e julho.

Não se trata apenas de frase infeliz. É concepção de país. Ao utilizar a expressão “imprestáveis” para se referir, de maneira generalizante, a pessoas que recebem proteção social, Zema substitui a análise da pobreza por julgamento moral.

Em vez de enxergar famílias vulneráveis, crianças, idosos, trabalhadores informais e pessoas submetidas a empregos precários, enxerga massa de supostos desocupados que precisaria ser disciplinada. A realidade, porém, desmente a caricatura.

“Imprestáveis” para a sociedade são os que lucram com juros exorbitantes sem construir nada de produtivo no país. Aqueles que mamam nos juros altos do Banco Central, cuja taxa Selic está agora em 14%.

“O único gasto que a gente faz de verdade é pagar R$ 1,2 trilhão de juros da dívida. Aqui no Brasil, o Estado foi aprisionado pela Faria Lima”, disse Lula com propriedade.

A despesa do setor público (que engloba União, Estados, municípios e estatais) com o pagamento de juros saiu de R$ 61 bilhões em junho de 2025 para R$ 110,7 bilhões em junho deste ano, segundo dados divulgados pelo Banco Central (BC) em 31 de julho.

No acumulado em 12 meses, os juros da dívida consumiram mais de R$ 1,160 trilhão dos cofres públicos.

Aí estão os verdadeiros “imprestáveis” que sugam todo o dinheiro público e que Zema protege e quer esconder.

NÚMEROS DESMONTAM ‘TESE’

Estudo da FGV (Fundação Getúlio Vargas) sobre uma década do Bolsa Família mostra justamente o contrário da narrativa de dependência permanente. Segundo a pesquisa, 60,68% dos beneficiários que estavam no programa em 2014 haviam deixado o benefício até 2025.

Entre adolescentes, a saída foi ainda maior: 68,8% na faixa de 11 a 14 anos e 71,25% entre 15 e 17 anos. A saída também aparece associada à maior escolaridade, à inserção no mercado formal de trabalho e à melhoria das condições socioeconômicas.

Outro dado é ainda mais eloquente: entre janeiro de 2023 e setembro de 2024, 91,49% das mais de 3,4 milhões de contratações formais foram de pessoas inscritas no CadÚnico (Cadastro Único). Mais de 71% dessas vagas foram ocupadas por beneficiários do Bolsa Família.

Ou seja: longe de produzir “geração de imprestáveis”, a política de transferência de renda tem funcionado, em milhares de casos, como ponte para a autonomia econômica.

Pesquisa publicada em 2026 também encontrou evidências de que a ampliação do Bolsa Família contribuiu para elevar o emprego entre famílias em extrema pobreza, além de produzir efeitos positivos em indicadores de saúde.

É legítimo discutir aperfeiçoamentos, portas de saída, qualificação profissional e mecanismos para estimular a formalização. O que não é aceitável, sobretudo para quem pretende governar o País, é transformar política pública complexa em instrumento de humilhação social.

PRECONCEITO TAMBÉM TEM GÊNERO

A fala de Zema se torna ainda mais problemática quando incorporada a outra proposta apresentada pelo presidenciável. Em junho, diante de empresários, ele afirmou que pretendia exigir dos homens beneficiários do Bolsa Família a conclusão dos estudos e cursos profissionalizantes, mas fazer distinção em relação às mulheres porque elas “têm outras atribuições em casa” e “têm filhos”.

A declaração revela compreensão estreita tanto da pobreza quanto do trabalho feminino.

BENEFÍCIO NÃO É FAVOR

Há outro equívoco fundamental, para se dizer o mínimo, na retórica de Zema: programas sociais não são benesse concedida por governantes. São políticas públicas de proteção social destinadas a enfrentar situações de pobreza e vulnerabilidade e estão vinculadas a direitos e condicionalidades.

No Bolsa Família, por exemplo, a permanência está relacionada a compromissos nas áreas de educação e saúde, como frequência escolar, vacinação, acompanhamento nutricional e pré-natal. O desenho do programa procura justamente articular transferência de renda com acesso a serviços públicos essenciais.

É possível — e necessário — combater fraudes. É possível aprimorar mecanismos de transição para o emprego formal. É desejável ampliar qualificação, creches, educação profissional e oportunidades de trabalho decente.

Mas nada disso exige chamar milhões de brasileiros de “imprestáveis”.

PROBLEMA NÃO ESTÁ NO POBRE

A formulação de Zema também desloca o foco do verdadeiro problema: a precariedade do mercado de trabalho brasileiro. Milhões de trabalhadores sobrevivem de empregos informais, bicos e atividades sem proteção justamente porque não encontram oportunidades formais compatíveis com sua realidade, formação, localização e responsabilidades familiares.

Culpar o beneficiário é a solução mais fácil. Difícil é discutir salário, produtividade, qualificação, creches, transporte, desenvolvimento regional, geração de empregos de qualidade e redução da desigualdade.

Mais difícil ainda é reconhecer que uma pessoa que recebe auxílio para não passar fome não deixou de ser trabalhadora, cidadã ou contribuinte em potencial.

Zema parece preferir a explicação moralista: se o pobre não está trabalhando formalmente, a culpa é dele. Trata-se de visão conveniente para quem olha a sociedade a partir de cima e transforma desigualdade estrutural em falha individual.

ESCOLHA DE PROJETO DE PAÍS

O episódio expõe, portanto, algo maior que disputa sobre o Bolsa Família. Expõe a visão de Estado que o candidato oferece ao eleitor.

De um lado, política social que procura garantir renda mínima, manter crianças na escola, ampliar o acesso à saúde, reduzir a pobreza e criar condições para a mobilidade social. De outro, concepção que enxerga o beneficiário primordialmente como alguém que precisa ser pressionado, vigiado e punido para trabalhar.

O contraste não poderia ser mais evidente. Quando a política pública deixa de enxergar pessoas e passa a classificá-las como “imprestáveis”, o debate sobre pobreza perde a dimensão econômica e social e ganha componente de preconceito de classe.

Não pode transformar milhões de brasileiros pobres em inimigos da sociedade.

Porque, no fim, a pergunta que a declaração dele deixa não é se os beneficiários são “imprestáveis”.

É que tipo de projeto de país considera aceitável chamar brasileiros pobres de “imprestáveis” em vez de discutir porque eles ainda precisam de proteção social.

M. V.

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