Uma das principais revistas alemães, a Der Spiegel, publicou no fim de semana relatos feitos por dez soldados israelenses que participaram do genocídio perpetrado por Israel em Gaza, em que descrevem o repetido assassinato de palestinos desarmados e a destruição metódica de bairros para impedir o retorno de civis.
A publicação ocorre quando entra em exibição o documentário Naza, com depoimentos de 24 soldados e oficiais israelenses sobre o uso de sistemas de inteligência artificial para amplificar a carnificina em Gaza e matar civis intencionalmente.
O reservista Yaakov, que se voluntariou para lutar em Gaza e passou 250 dias na Faixa de Gaza central, revelou à Der Spiegel que a brigada dele “matou de 160 a 170 pessoas durante nossos mais de 80 dias lá.”
Desses, “apenas um homem era suspeito de portar uma arma”. “Todos esses mortos foram reportados como terroristas”, acrescentou.
Em outro incidente, soldados rotularam palestinos que se refrescavam na praia como “terroristas” e os mataram a tiros.
É de Yaakov também a descrição de uma política de “terra queimada” sob a qual “os palestinos não teriam mais para onde voltar.”
Confissão análoga foi feita à revista alemã por alguém que é identificado como “o reservista de infantaria David”: “Minha unidade matou muitos homens desarmados”.
Ele serviu em várias missões no centro de Gaza e em Khan Younis.
“Os árabes devem ser punidos. Eles precisam entender que estamos tirando cada vez mais terras deles, empurrando-os cada vez mais para trás”, foi a orientação que recebeu de um oficial de alta patente.
Inicialmente, segundo David os crimes de guerra foram cometidos por “israelenses relativamente instruídos e seculares”. Então, à medida que a guerra avançava – isto é, o genocídio -, “mais extremistas messiânicos chegaram”.
Muitos soldados tratavam os assassinatos como um “dever religioso”, disse David. Ele recordou os apelos para exterminar “todos os árabes, temos que construir assentamentos, vamos eliminar Gaza.”
“Coisas que você ouve de ministros como Bezalel Smotrich ou Itamar Ben Gvir”, ele explicou, descrevendo dois ministros da coalizão do premiê Benjamin Netanyahu.
Soldados frequentemente recebiam ordens para “atirar em homens em idade militar para matá-los”, continua David. Após matar palestinos, soldados acendiam cigarros e se gabavam para seus pais sobre os assassinatos, segundo o confidente.
“SEM MISERICÓRDIA”
A revista registra também as ordens recebidas pelo paraquedista Yuval Green, que serviu em Khan Younis: “Desta vez não mostraremos misericórdia. Se uma criança entra em uma casa onde há um terrorista, devemos matá-lo junto com a criança.”
Green serviu na 55ª Brigada Paraquedista por cerca de 50 dias entre o final de novembro de 2023 e janeiro de 2024. Segundo ele, o comandante “deliberadamente permaneceu vago” sobre quem os soldados poderiam matar, “de uma forma que permitiu que palestinos fossem mortos assim, de repente”.
“INCRIMINAÇÃO POST-MORTEM”
Tal, outro reservista israelense entrevistado, descreveu as consequências do ataque israelense ao Hospital Nasser em Khan Younis em 25 de agosto de 2025, que matou 22 pessoas, incluindo cinco jornalistas.
“Quando pessoas são mortas ou feridas, a primeira tentativa do exército é sempre ligá-las ao Hamas. Porque se eles podem dizer que os falecidos eram terroristas do Hamas, isso fica melhor aos olhos do mundo”, disse Tal.
Dentro do exército israelense, os soldados chamavam isso de “incriminação post-mortem”.
Israel inicialmente descreveu os jornalistas que matou como “terroristas do Hamas”.
“Os soldados a chamavam de ‘câmera do Hamas’ porque o Hamas poderia usá-la para ver tudo o que acontecia nas proximidades”, disse Tal. “O objetivo deles era desativar essas câmeras. Mas o cinegrafista da Reuters que eles miraram não era um terrorista. Eles mataram um jornalista legítimo.”
“Minha impressão é que esses soldados viam fundamentalmente os jornalistas como terroristas”, acrescentou.
Em suma, eles cometiam o genocídio e quem revelava ao mundo o crime horrendo é que eram os “terroristas”.
OMERTÀ VAI SENDO QUEBRADA
A omertà vai sendo quebrada, como mostrado na reportagem da Der Spiegel e no documentário “Naza”, aplaudido de pé em Veneza, assim como antes, em Cannes, “Hind” fora aclamado. E com o Nobel da Paz indo para Navi Pillay, a jurista sul-africana que encabeçou a investigação da ONU que comprovou o genocídio. Diante da repercussão de Naza, o regime Netanyahu reagiu ordenando identificar e processar criminalmente os soldados e oficiais que ali testemunham.
Nos Estados Unidos, em grande medida a opinião pública – inclusive parte da juventude judaico-americana -, se recusa a endossar o genocídio e manifesta simpatia pela libertação dos palestinos, ao contrário do que aconteceu por décadas.
Há que registrar ainda que é significativo que esses testemunhos do genocídio dados por israelenses estejam estampados em uma publicação da Alemanha. País que, a título de se lavar dos crimes do hitlerismo contra os judeus, há décadas é conivente com o apartheid e o genocídio contra os palestinos, sob a folha de parreira de deter o “antissemitismo”.
E a pergunta que não se cala é: como vai se sustentar uma sociedade que diz ter se constituído sob o brado de “nunca mais” e que agora tenta empurrar 74 mil cadáveres palestinos e centenas de milhares de toneladas de escombros de casas, escolas e hospitais para baixo do tapete?










