O sincericídio do frentista e os grupos de extermínio do clã Bolsonaro


DAVI MOLINARI

Num desses dias de peleja eleitoral que se encerraram com a vitória de Lula, travava um debate franco, aberto e civilizado com um frentista no posto de gasolina.

Seu nome não irei declinar. Entre o primeiro e o segundo turno, ele admitiu que Jair Bolsonaro não lhe inspirava tanta convicção. Mas confessou que não havia transferido o título de sua terra natal e que não votava em São Paulo, tendo perdido também o prazo para o voto em trânsito. Para não perder a viagem, provoquei-o:

– Como você pôde cogitar votar em um sujeito cercado de homens armados e homicidas, como Adriano da Nóbrega?

Foi quando ele me brindou com uma pequena pérola de cinismo cotidiano:

– Todo poderoso é cercado por quem faz o serviço sujo.

Contestei, por certo, dizendo que nem todos são assim; há homens públicos dotados de caráter, assim como há simples bandidos empoleirados no poder.

Abasteci o carro, paguei e saí dirigindo. Foi então que a ficha caiu.

O livro A República das Milícias, de Bruno Paes Manso, apenas confirmou o que eu já sabia desde pequeno, em São Paulo. Como jovem periférico da Zona Sul, eu morava vizinho ao que hoje é a urbanizada Vila Guarani. Todo mundo sabia que ali reinavam os “Pés de Pato”: matadores contratados pelo comércio local que, como bons mercenários, cumpriam o trabalho imundo de exterminar “suspeitos” – sempre os pobres, pretos e maltrapilhos – que rondavam as lojas em busca de alguma oportunidade. Atuavam como “gansos” para a polícia e terceirizavam o desaparecimento de pessoas que os policiais militares não podiam registrar ou oficializar (prática ainda mais conveniente durante a ditadura militar). Embora, na prática, muitos desses Pés de Pato fossem os próprios agentes do Estado fazendo um rentável “bico”.

Mas, voltando aos homens que ganham a vida prestando serviços de extermínio. Assassinos de aluguel não são novidade na história, tampouco a ocupação de territórios por paramilitares. O que verdadeiramente salta aos olhos – e desafia a modesta inteligência humana – é a infiltração dessa engenharia na política institucional. O grupo desvia recursos públicos, humanos e materiais para alimentar uma facção que atua paralelamente ao Estado, servindo a poderosos para grilar terras, acumular riquezas, tomar recursos minerais, intimidar oponentes e orquestrar a conquista do poder.

E não é por mero acaso que o clã Bolsonaro, desde os primeiros passos de sua ascensão, tratou de oferecer esse serviço clandestino e dele se beneficiar. Não por acaso, seus integrantes se colocaram à disposição dos esquemas de poder e do homem mais poderoso do mundo. O clã não ascende ao lado da extrema direita global por carregar um profundo projeto neoliberal ou antissocialista, mas simplesmente porque oferece a mão de obra do serviço sujo: a ação de um grupo com vocação de extermínio, pronto para eliminar lideranças sociais, sindicais e partidárias que sustentam as bandeiras da liberdade e da igualdade. Não agem por compreender os avanços civilizatórios, mas justamente por odiá-los. São criaturas providas de meios, recursos e uma vontade subserviente de servir aos poderosos na promoção de uma “limpeza” étnica, sociopolítica e econômica.

Nesta luta de classes entre as forças produtivas organizadas e os déspotas bilionários dispostos a abolir conquistas históricas, o clã Bolsonaro nada mais é do que uma organização criminosa que vende serviços de extermínio no balcão da política.

A nossa distinta elite, a nossa ilibada imprensa profissional e os agentes corrompidos nos diversos estamentos estatais – além de setores tragicamente iludidos das Forças Armadas – permitiram a ascensão e até a liderança desse monstro, que soube galvanizar a frustração nacional gerada pelas crises do capitalismo.

Agora, órgãos como O Globo e o Estadão vêm a público pedir que a “direita liberal” se afaste do clã Bolsonaro. Mas, assim como a tal “terceira via” sempre foi uma doce ilusão, surge um novo sofisma: existiria mesmo uma direita civilizada no Brasil? Se ela de fato existe, já passou da hora de condenar e clamar pela prisão de Flávio Bolsonaro – antes que ele, devidamente abrigado no solo norte-americano e sob a benevolente benção de Donald Trump, volte a inflamar seus devotos para novas empreitadas golpistas e atos de puro desespero.

Post Scriptum: Quanto custa por dia a estada dos quinta-colunas bolsonaristas enfronhados nos Estados Unidos – e, sobretudo, quem financia o luxo desse exílio voluntário?

Publicado originalmente em Meedito. Enviado pelo autor.

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