“O Brasil tem resultado primário melhor que 116 economias do mundo, mas ocupa o 1º lugar no ranking de juros reais!”, denuncia o economista
O economista David Deccache desmontou, numa polêmica em sua conta no X, a falácia difundida pelos economistas do mercado de que o Brasil tem juros altos porque falta credibilidade fiscal.
Mesmo diante do argumento de André Lara Resende de que o problema não é o primário, é o déficit nominal, os agentes da Faria Lima e seus porta-vozes insistem em forçar os cortes nas despesas primárias, ou seja, nas despesas com a sociedade.
Numa ironia às opiniões de um interlocutor (certamente neoliberal), Deccache diz: “Você deve odiar números, dados, comparações internacionais e coisas do tipo, né? Mas se esforça só um pouquinho. Vou mastigar pra você”.
E prossegue:
“Qual é a sua tese? Que o Brasil tem os juros reais mais altos do mundo porque suas contas públicas estão entre as mais desequilibradas do planeta, certo?
Mas olha que curioso! O Brasil tem resultado primário MELHOR que 116 economias do mundo, mas ocupa o 1º lugar no ranking de juros reais!
Vamos aos dados.
Hoje, o Brasil tem déficit primário de apenas 0,52% do PIB, mas paga impressionantes 8,99% do PIB em juros.
Segundo ranking divulgado ontem, o Brasil tem a maior taxa real de juros entre 40 economias analisadas, com 9,49% ao ano.
Peguei essas mesmas 40 economias e fui conferir seus resultados primários na base do FMI. Das 38 com dados comparáveis em 2025, nada menos que 29 tiveram resultados PIORES que o Brasil!
Nosso déficit primário foi de apenas 0,1% do PIB, contra 3,9% nos EUA, 6,9% na China, 2,2% na Índia e 2,1% na Alemanha.
E os juros reais? EUA: 0,46%. China: 0,21%. Índia: -0,09%. Alemanha: 0,31%. Brasil: 9,49%!
Mas já que não gosta de números, que tal um pouquinho de história?
Em 2005, tivemos superávit primário de 4,84% do PIB, um dos maiores entre as grandes economias, enquanto EUA e Reino Unido registravam déficits. E sabe quanto estava a Selic? Chegou a 19,75%! Éramos campeões mundiais de juros reais, acredita?
Entre 2003 e 2010, tivemos superávits primários médios superiores a 3% do PIB, a dívida líquida caiu de 60% para 38% do PIB e conquistamos o grau de investimento!
E os juros? Continuaram entre os maiores do mundo.
Aí veio a crise. A economia brasileira foi arrasada por uma recessão brutal, com desemprego em massa, empresas quebrando, investimentos desabando e milhões de brasileiros perdendo renda.
E olha o que aconteceu: entre 2016 e 2019, tivemos déficits primários todos os anos, a dívida pública aumentou e a Selic DESPENCOU de 13,75% para 4,5%!
Os juros caíram justamente depois que a economia brasileira foi destruída, com o PIB no chão, a arrecadação despencando e a dívida subindo!
Agora me explica: quando tínhamos superávits enormes, dívida caindo e grau de investimento, os juros eram altíssimos. Quando passamos a ter déficits, dívida subindo e uma economia praticamente morta, os juros despencaram.
E hoje, com resultado primário melhor que o de 116 economias, voltamos a ter os maiores juros reais do mundo.
Será que o problema histórico dos juros brasileiros é mesmo essa falta de credibilidade fiscal que você tanto repete?”










