Greves e protestos levantam a França contra ajuste fiscal de Macron

Centenas de milhares tomaram as ruas de Paris e mais de 250 cidades francesas (AFP)

Em vez de recursos para os salários dos trabalhadores e para o ensino público, governo mobilizou 70 mil policiais, com blindados, drones e helicópteros, para enfrentar mais de 1,6 milhão de manifestantes

Um tsunami de greves e protestos de trabalhadores levanta a França pela valorização do salário mínimo, pela preservação dos serviços públicos e contra a lógica financista de “ajuste fiscal” do presidente Emmanuel Macron. No apagar das luzes de seu governo, Macron insiste na política de terra arrasada, ampliando os confrontos e levando mais de 1,6 milhão de franceses às ruas, afirmou a Confederação Geral do Trabalho (CGT).

Na quinta-feira (5), as centrais sindicais uniram a força dos trabalhadores com os estudantes secundaristas e universitários em uma jornada nacional de paralisações e manifestações, cobrando o fim do arrocho salarial e defendendo recursos para o ensino público.

Mais de 260 cidades realizaram levantes ao longo de todo o país, após mais de um mês de mobilizações regulares e de grande porte. Centenas de liceus foram fechados, o transporte público foi duramente afetado e, em Paris, encerradas até mesmo as visitações à Torre Eiffel.

O movimento, iniciado em setembro com um protesto contra a falta de funcionários em uma escola a sudeste da capital, logo se espalhou por todo o território nacional. Aos estudantes que exigem mais recursos para a educação juntaram-se trabalhadores pressionados pela alta desenfreada dos combustíveis — causada pela guerra dos EUA ao Irã — e do custo de vida, além de reivindicações pela valorização das aposentadorias.

O litro da gasolina na França ultrapassou a marca de dois euros, enquanto o diesel chegou a cerca de € 2,37 por litro, representando um aumento de aproximadamente 40% em relação a fevereiro.

“TUDO SOBE, EXCETO SALÁRIOS E APOSENTADORIAS”

Em nota conjunta, as centrais denunciaram que o país se encontra à beira do colapso, com o agravamento da recessão e os planos de demissão se perpetuando e multiplicando. “Tudo sobe, exceto salários e aposentadorias”, condenaram.

Estampando um endividamento elevado, o país figura entre os piores desempenhos econômicos da Europa e o governo corta recursos sociais para manter a lógica das benesses ao sistema financeiro. A irracionalidade desse tipo de medidas já derrubou governos. Em 2025, o primeiro-ministro François Bayrou foi retirado por causa de um plano de corte de 44 bilhões de euros no orçamento. Seu sucessor, Sébastien Lecornu, se encontra em minoria e depende de negociações com partidos num parlamento fragmentado. O rótulo de “ajuste fiscal” virou, assim, a síntese da revolta: para os manifestantes, a conta da crise recai sobre quem vive de salário, aposentadoria e serviços públicos.

A resposta do Estado combinou negociação e força. Antes da paralisação de quinta, o governo conversou com as centrais sindicais para tentar conter a agitação. Ao mesmo tempo, o ministro do Interior, Laurent Nuñez, anunciou 70 mil policiais mobilizados, com apoio de blindados, drones e helicópteros. As forças de segurança são duramente criticadas por ferir manifestantes e pelo uso de táticas e práticas excessivamente violentas.

MACRON DECRETA TOQUE DE RECOLHER E AGRAVA RECESSÃO

O ponto mais crítico chegou em outubro, depois de saques e confrontos no fim de semana de 17 e 18, quando Macron acusou grupos da oposição de promover atos “sediciosos” para derrubar a República. O governo decretou toque de recolher por três noites em regiões de várias cidades, entre elas Paris e Lyon, e a Prefeitura de Limoges foi parcialmente destruída pelo fogo. Cidades como Lyon, Rouen e Toulon proibiram protestos, e a oposição classificou as proibições de “liberticidas” — aquilo que mata a liberdade.

A eleição presidencial está marcada para abril e maio do ano que vem. Macron é impedido de disputar um novo mandato, e a líder da ultradireita, Marine Le Pen, lidera as pesquisas.

“Há uma sensação de frustração absoluta com a incapacidade do governo de funcionar”, declarou o historiador Paul Smith, da Universidade de Nottingham, para quem fica cada vez mais difícil prever os próximos passos, enquanto a pilha de problemas só cresce.

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