Os “negócios” do banqueiro explodiram após a chegada de Jair Bolsonaro ao Planalto em 2019. Seus crimes foram acobertados durante quatro anos por Roberto Campos Neto e governadores bolsonaristas injetaram bilhões no Banco Master
Por mais que se queiram espalhar as suspeitas aos quatro cantos, o que o escândalo do Banco Master está revelando é uma profunda ligação de Daniel Vorcaro com o bolsonarismo. Não por acaso, os negócios do banqueiro explodiram após a chegada de Jair Bolsonaro ao Planalto em 2019.
Se não, vejamos. Antes, Vorcaro atuava no ramo imobiliário em Minas Gerais. Não tinha nada de muito significativo do ponto de vista econômico. Ele era ligado à Igreja da Lagoinha e apresentava um programa pela Rede Super, um dos braços da comunicação da Igreja. Entre 2008 e 2009, ele foi apresentador do extinto programa “Supersônica”, veiculado pela igreja.
Aí começam as coincidências. Esta é a mesma igreja frequentada por Nikolas Ferreira, bolsonarista de carteirinha e um dos mais estridentes parlamentares da tropa de choque de Bolsonaro. Esta é também a mesma igreja que (pasmem) criou um banco. O banco chamava-se Clava Forte Bank e hoje é um banco que está sendo investigado no escândalo do INSS, conforme denúncia da própria senadora Damares Alves na CPI do INSS.
Em 2018, Vorcaro havia comprado o falido Banco Maxima. A partir de 2019, sob sua direção e já sob novo nome, o banco Master ampliou a captação de recursos através de empréstimos consignados e da oferta de certificados de depósito bancário (CDBs) com rendimentos muito acima da média de mercado.
Sob a gestão Bolsonaro, os ventos mudaram para o banqueiro. O Master cresceu de forma exponencial. Entre 2019 e 2024 o patrimônio líquido saltou de 200 milhões de reais para 4,7 bilhões de reais, além do crescimento das carteiras de crédito, que passaram de 1,4 bilhão para 40 bilhões de reais. O Banco Central deixava correr solto e o banco não parava de captar recursos com a promessa de altos ganhos.
Fabiano Zettel, atualmente preso, e cunhado de Vorcaro, que era pastor na mesma igreja da Lagoinha, operava os esquemas criminosos do banqueiro e era um apoiador ferrenho de Jair Bolsonaro. A ligação de Zettel com o bolsonarismo tornou-se evidente e foi confirmada pelo próprio presidente do PL.
Ele foi simplesmente o colaborador que despejou sozinho na campanha de Jair Bolsonaro em 2022 a quantia de 3 milhões de reais. Foi ele também que fez depósitos de 2 milhões de reais na campanha de Tarcísio de Freitas ao governo de São Paulo. Ele foi o maior contribuinte individual da campanha de Tarcísio. E, segundo, Valdemar Costa Neto, em entrevista essa semana, o PL também recebeu dinheiro de Zettel e Vorcaro.
Como depois ficou claro, o apoio milionário da dupla Vorcaro/Zettel a Tarcísio de Freitas em São Paulo não era pelos belos olhos do candidato. Ele fazia parte dos esquemas do banqueiro de aumentar sua captação. Este apoio a Tarcísio rendeu aos cofres do Banco Master a injeção de R$ 160 milhões, retirados dos cofres da Emae, empresa pública de água de São Paulo, que foi privatizada por Tarcísio. A negociata, sob os auspícios do governador, raspou os recursos do caixa da empresa.
Na investigação sobre lavagem de dinheiro do crime organizado por parte da Polícia Federal apareceram fundos ligados ao “conglomerado” Master. A própria compra da mansão de Vorcaro em Brasília por um preço astronômico, envolveu fundos suspeitos, geridos por Zettel.
Recentemente o país tomou conhecimento de outro envolvimento do bolsonarismo com o banqueiro criminoso. O deputado Nikolas Ferreira fez diversas viagens ilegais no jatinho particular de Daniel Vorcaro para tentar reverter a derrota de Jair Bolsonaro em 2022. A descoberta desmentiu a afirmação do parlamentar de que não tinha relações com o banqueiro. Foram mais de dez viagens na campanha eleitoral de 2022, tentando reverter votos para Bolsonaro em regiões onde Lula havia vencido o primeiro turno das eleições presidenciais.
Outra vinculação espúria de Vorcaro com o bolsonarismo ficou evidente também na escandalosa vista grossa feita pelo então presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, aos crimes que o banqueiro já praticava à frente do banco. O banco prometia rendimentos muito superiores ao mercado e fraudava seus ativos num verdadeiro esquema Ponzi. Campos Neto acobertou durante toda a sua gestão a ação predadora e criminosa do banco.
Tudo isso já deixava claro que o banco Master se viabilizou e explodiu seus “negócios” calcado em suas ligações ao esquema bolsonarista. E o que veio a público depois foi arrasador em comprovar essa simbiose entre os fascistas e Vorcaro. A tentativa de compra do Master pelo BRB foi uma operação escandalosa. Era uma negociata escrachada demais e despertou as primeiras suspeitas. O banco público de Brasília seria usado na verdade para “salvar” o Master. O governador bolsonarista Ibaneis Rocha insistiu na compra que causaria um prejuízo bilionário ao banco público.
Pior. Antes de anunciar a negociação, o governador de Brasília já havia autorizado a compra de uma carteira de crédito fraudulenta do Master pelo BRB pela quantia de R$ 12 bilhões. O prejuízo causado por essa compra de títulos podres chega a R$ 3 bilhões e pode atingir R$ 5 bilhões. A operação de compra do Master pelo BRB foi denunciada e o Banco Central, já sob a presidência de Gabriel Galípolo, impediu que ela fosse efetivada.
O bolsonarismo imediatamente entrou em campo para impedir a ação do Banco Central. O senador Ciro Nogueira, líder bolsonarista no senado, ameaçou com impeachment do diretor do BC que impediu a transação criminosa. Tentou também salvar o Master com uma emenda elevando o limite de garantia para as operações financeiras executadas pelo banco. Mensagens atuais do telefone de Vorcaro, que está preso, obtidas pela PF, confirmam a cumplicidade entre o banqueiro e o senador.
Pouco antes da liquidação do Banco Master, o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, autorizou que R$ 1 bilhão do fundo de previdência dos servidores do estado fossem aplicados no banco de Daniel Vorcaro. Ou seja, uma operação de alto risco autorizada pelo governador em prol do Banco Master. Evidentemente a aplicação trará um prejuízo aos aposentados o Rio. Os operadores do desvio de recursos dos aposentados fluminenses já estão presos. Falta o governador explicar.
Logo em seguida, todas as falcatruas do dono do Master vieram à tona com as investigações comandadas pela Polícia Federal e o Banco Central acabou decretando a liquidação do banco. O banqueiro ladrão foi preso e sua quadrilha foi desbaratada. O rombo dado por Daniel Vorcaro no sistema financeiro já passa de R$ 50 bilhões.
Em suma, o que esses fatos demonstram é que sem o bolsonarismo, Daniel Vorcaro não chegaria onde chegou. A movimentação de próceres bolsonaristas para “salvar o Master” foi muito intensa e abrangente. As provas que estão surgindo agora com a quebra do sigilo telefônico de Daniel Vorcaro levam à conclusão de que a simbiose entre o fascismo bolsonarista e Vorcaro é muito mais intensa do que parecia à primeira vista.
SÉRGIO CRUZ











