Ana Prestes destaca unidade e solidariedade a Cuba e Venezuela

Ana Prestes é secretária de Relações Internacionais do PCdoB. Foto: Divulgação/Vermelho

Reproduzimos a seguir matéria publicada originalmente no Portal Vermelho

A intervenção da secretária de Relações Internacionais do PCdoB Ana Prestes marcou o tom político da mesa “Cuba e Venezuela não estão sós”, realizada neste sábado (28) no Salão de Atos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, como parte da programação da 1a. Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos. Sua fala combinou relato empírico — a recente participação em uma brigada internacional de solidariedade à Cuba — com uma leitura estratégica da conjuntura global.

A mesa, mediada por Mônica Valente, do Fórum de São Paulo, contou com intervenções de Breno Altman (Opera Mundi), Tania Díaz (PSUV-Venezuela), Fernando Rojas (Casa das Américas-Cuba) além de Ana Prestes.

Ana Prestes relatou que integrou, há exatamente uma semana, o “Comboio Nuestra América”, missão que reuniu mais de 650 pessoas de mais de 30 países e 120 organizações em visita solidária a Cuba. “Foi muito interessante preparar essa caravana para ter uma percepção de como a grande mídia corporativa contribui para gerar um clima de absoluto terror e fatalismo”, afirmou.

Segundo ela, a realidade cubana é dramática: apagões de 13 a 14 horas diárias impactam transporte, saúde, educação e distribuição de alimentos. “É uma situação realmente de guerra. Tem feridos, tem todas as restrições que uma guerra impõe ao povo”, sustentou. A dirigente enfatizou que não se trata de crise humanitária total — “os cubanos ainda têm alimentos, têm água” —, mas de um estrangulamento logístico que dificulta a chegada de suprimentos às diversas regiões do país.

Ela destacou o papel da comunicação na disputa política contemporânea, apontando que a construção de um “clima de fatalismo” em relação a Cuba é parte de uma guerra mais ampla, baseada em desinformação e pressão psicológica.

Ofensiva imperialista tem a América Latina como alvo central

Ana Prestes rebateu a ideia de que o foco de Trump no Irã aliviaria a pressão sobre a região. “Não, não, não. Há um projeto sobre o que é o corolário Trump da Doutrina Monroe”, afirmou. Segundo ela, Marco Rubio, desde o primeiro minuto do governo, tem executado ataques “cirúrgicos” que visam controlar estrategicamente o hemisfério.

A dirigente citou exemplos concretos: o acordo com o Paraguai que transforma todo o país em base militar dos EUA; o controle do Panamá para retirá-lo da rota comercial da China; e a remilitarização das Galápagos no Equador. “Tudo isso mostra como esse momento é delicado, dramático e exigente por parte de todos nós”, alertou.

Ana Prestes conectou a ofensiva externa ao cenário eleitoral brasileiro. “Nós somos alvo neste processo e as eleições, talvez as mais complexas dos últimos tempos, são essas que a gente vai enfrentar”, afirmou. Para ela, a solidariedade internacional não pode ser apenas discurso: precisa se traduzir em pressão sobre governos, especialmente os de esquerda, para que rompam o bloqueio a Cuba.

Para Ana, o momento exige unidade como princípio organizador. A dirigente advertiu que a dispersão das forças progressistas favorece a ofensiva adversária, ecoando uma tradição política latino-americana que privilegia a coesão diante de cenários de crise.

Solidariedade concreta: placas solares, medicamentos e combustível

A secretária do PCdoB destacou que a caravana levou alimentos, medicamentos e placas solares — e que estas últimas “ajudam mesmo”. “Hoje as placas solares em Cuba já cobrem 50% da necessidade de energia do dia”, informou. Mas a batalha mais urgente, segundo ela, é pelo combustível: “Hoje Cuba vive o bloqueio literalmente físico para a chegada do combustível. E essa é a batalha mais importante neste momento”.

Ana Prestes concluiu convocando à reativação e ampliação das campanhas de solidariedade e à pressão organizada sobre governos para que enviem combustível e rompam o cerco. “É o momento da gente reativar ainda mais essas campanhas de solidariedade. O que a gente precisa é fazer com que elas se espalhem ainda mais”, defendeu.

Ofensiva imperial e disputa geopolítica

A análise de conjuntura apresentada por Breno Altman complementou o diagnóstico político da mesa. Segundo ele, a intensificação das ações dos Estados Unidos na América Latina está vinculada ao declínio relativo de sua hegemonia global.

Altman argumentou que, diante da perda de influência na Ásia e em outras regiões, Washington reforça sua atuação no continente latino-americano, considerado historicamente estratégico desde a Doutrina Monroe.

Nesse cenário, Cuba e Venezuela seriam alvos prioritários por representarem experiências políticas que romperam com a lógica tradicional de dependência. Para ele, Venezuela e Cuba são os dois pilares das forças populares na região, por isso precisam ser vitoriosas — e a solidariedade a esses processos revolucionários deve ser incondicional.

Venezuela: resistência e narrativa em disputa

As intervenções internacionais, como a da dirigente venezuelana Tania Díaz, enfatizaram a dimensão política e simbólica do conflito. A narrativa apresentada aponta para um cenário de cerco multifacetado — econômico, midiático e institucional — contra o governo de Nicolás Maduro.

Tânia enviou mensagem por vídeo da Venezuela, agradecendo a solidariedade internacional e reafirmando a unidade da revolução. Destacou que o presidente Nicolás Maduro está firme, mesmo sequestrado pelo imperialismo, e que a economia venezuelana cresceu 5% em 2024-2025 apesar de 1.088 sanções. Chamou partidos e movimentos a engajarem na campanha pela liberdade de Maduro e Cilia Flores.

A dirigente destacou a necessidade de enfrentar o que classificou como uma ofensiva fascista global, além de reforçar a importância da unidade interna e da mobilização popular para garantir estabilidade e continuidade do projeto político venezuelano.

Fernando Rojas, da Casa das Américas, detalhou a situação crítica em Cuba: a ordem executiva de 29 de janeiro constitui um bloqueio de fato, com quatro meses sem entrada de combustível na ilha. Defendeu que a solidariedade deve ser plena e incondicional, e que nenhuma causa substitui a outra — é necessária uma solidariedade integral com Cuba, Venezuela, Palestina e todos os povos sob ataque imperialista.

Solidariedade internacional como eixo central

Um ponto de convergência entre as falas foi a defesa de uma solidariedade ativa e organizada. A mesa apontou que não se trata apenas de apoio simbólico, mas de ações concretas:

– pressão sobre governos para romper bloqueios;

– campanhas internacionais de informação;

– envio de brigadas e ajuda material;

– articulação política entre partidos e movimentos.

A referência a campanhas históricas — como a libertação de Nelson Mandela e do próprio Luiz Inácio Lula da Silva — foi mobilizada como exemplo de que a solidariedade internacional pode alterar correlações de força.

América Latina no centro da disputa

A mesa concluiu que o continente vive um momento de reconfiguração política acelerada, com avanços e recuos das forças progressistas. A recente alternância de governos na região foi citada como evidência de uma contraofensiva conservadora em curso.

Nesse quadro, a defesa de Cuba e Venezuela foi apresentada não apenas como uma pauta específica, mas como parte de uma disputa mais ampla sobre soberania, desenvolvimento e integração regional.

A intervenção de Ana Prestes sintetizou essa perspectiva: diante de um cenário adverso, a resposta passa por unidade, mobilização e internacionalismo ativo.

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