Após bravata de “varrer a civilização persa”, regime de Trump inicia negociação com Irã

Qalibaf, presidente do parlamento iraniano, chefia a delegação do Irã nas negociações em Islamabad.(SABA)

As negociações do cessar-fogo iniciadas neste sábado (11), entre os EUA e o Irã, em Islamabad, no Paquistão, devem se prolongar por toda a noite. Segundo a rede árabe Al Jazeera, foram realizadas duas rodas de negociações, com trocas de documentos para alinhamentos dos dois lados.

As negociações ocorrem após um ataque não provocado e ilegal dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, que começou em 28 de fevereiro e fracassou em 40 dias sem alcançar qualquer objetivo, da instalação de um capacho, até à captura das reservas do petróleo iraniano e esmagamento do principal centro de resistência ao projeto nazista de genocídio do ‘Grande Israel’, e tendo empurrado o mundo para o mais grave choque de escassez de petróleo desde os anos 1970 e alta do preço do barril.

Na terça-feira (7), depois de ameaçar “destruir uma civilização inteira, que não irá ressuscitar”, o presidente Trump se viu forçado a recuar e acedeu ao plano de 10 pontos do Irã, que reconheceu como a “base viável” para negociações e ao cessar-fogo de duas semanas, o que foi visto por muitos como o “momento Suez” dos EUA.

As duas delegações são, respectivamente, encabeçadas pelo vice-presidente americano, JD Vance, e pelo presidente do parlamento iraniano, Mohamed Bager Qalibaf, com mediação do primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif.

Pelo Irã, participam tambémo ministro das Relações Exteriores, Abbas Araqchi; o Secretário do Conselho de Defesa, Ali Akbar Ahmadian; o governador do Banco Central iraniano, Abdolnaser Hemmati; e vários membros do parlamento. A delegação americana inclui ainda o enviado especial da Casa Branca para o Oriente Médio, Steve Witkoff, e o genro do presidente Donald Trump, Jared Kushner.  Vance, segundo a mídia americana, é tido como o integrante do atual governo menos entusiasmado com a guerra contra o Irã.

Após a recepção e encontros em separado de cada delegação com os anfitriões, os negociadores se juntaram no mesmo espaço, fazendo um diálogo direto, sempre mediado pelo governo paquistanês.

OS 10 PONTOS

Os “dez pontos” que o próprio Trump aceitou serem “a base viável” das negociações de Islamabad, são: 1. Garantia de não agressão, com o fim permanente das hostilidades; 2. Reconhecimento da soberania iraniana do Estreito de Ormuz; 3. Fim dos confrontos em todas as frentes, especialmente o Líbano; 4. Retirada de tropas de combate americanas da região; 5. Pagamento de reparações de guerra; 6. Reconhecimento do direito do Irã ao enriquecimento nuclear como parte de seu programa nuclear pacífico; 7. Levantamento de todas as sanções primárias e secundárias contra o Irã; 8. Liberação de todos os ativos iranianos congelados; 9. Revogação de medidas da AIEA; e 10. Revogação de sanções da ONU.

Para analistas, além dos esforços do Paquistão, para a declaração de cessar-fogo pesaram muito as garantias prestadas pela China, que se seguiram ao veto, em conjunto com a Rússia, de uma resolução voltada para permitir uma ação armada dos “dispostos” contra o Irã em Ormuz.

Segundo a Associated Press, autoridades chinesas, egípcias, sauditas e do Qatar estão em Islamabad para, indiretamente, facilitar as negociações, conforme fontes sob condição de anonimato.

BATALHA DIPLOMÁTICA COM O DEDO NO GATILHO

O chefe da delegação iraniana, Baqibaf, relembrando as repetidas traições dos EUA, afirmou que “o Irã tem boas intenções [nas negociações], mas está desconfiado”. Em dez meses, por duas vezes Washington agrediu o Irã em meio a negociações diplomáticas.

A negociação foi descrita pelo porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Esmail Baqai, como “uma batalha diplomática com o dedo no gatilho”. “Para nós, a diplomacia é a continuação da defesa e da guerra”.

Segundo Baqai, após 40 dias em que os defensores da pátria, apoiados pelo povo, lutaram resolutamente pela defesa do Irã, agora é a vez dos diplomatas, descrevendo “diplomacia e defesa” como “dois lados da mesma moeda”.

Em Teerã, o primeiro-vice-presidente iraniano, Mohamad Reza Aref enfatizou que o resultado dependerá do lado americano.  “Se negociarmos em Islamabad com representantes da agenda ‘América Primeiro’, será possível chegar a um acordo globalmente benéfico”, ele afirmou.

Mas, alertou, se o lado americano agir segundo uma lógica de “Israel em primeiro lugar”, “nenhum acordo será alcançado”. Nesse caso, ele enfatizou que o Irã defenderá sua soberania e seus interesses com ainda mais veemência.

“SÓ ESTÃO VIVOS PARA PODEREM NEGOCIAR”

Já o presidente Trump, enquanto a delegação americana chegava a Islamabad, corria à sua plataforma Truth Social para de novo expor sua insanidade e fascismo. Asseverou que os representantes iranianos “só estavam vivos para poderem negociar”, acrescentando que o Irã “não tem carta nenhuma”.

Voltou a alegar que o Irã “não tem marinha, não tem força aérea, os dirigentes estão mortos”, no esforço para tapear os americanos de que estaria “vencendo”.

Quando a grande maioria dos americanos, 66%, quer que a guerra termine rápido, e o aumento de 35% do preço da gasolina em um mês de guerra não augura nada de bom para Trump nas eleições intermediárias de setembro, que já não pareciam promissoras com o escândalo dos “arquivos Epstein’’ e a crescente oposição à deportação em massa de imigrantes, agravada pelo assassinato, pela gestapo ICE, de cidadãos americanos, em Minneapolis.

Em outra postagem de provocação, Trump escreveu que navios de guerra americanos estavam limpando minas no Estreito de Ormuz, o que foi desmentido por Teerã.

Anteriormente, Trump esclarecera sua motivação central pela guerra de agressão ao Irã: a tomada das reservas de petróleo iraniano. Como ele disse em entrevista ao Financial Times: “Para ser honesto, minha ideia favorita é tomar o petróleo do Irã, mas algumas pessoas estúpidas nos Estados Unidos dizem: ‘Por que você está fazendo isso?’ Mas são pessoas estúpidas”. Em outra entrevista, em que se gabou da agressão à Venezuela, proclamou: “aos vencedores os despojos”.

De acordo com a mídia dos EUA, o governo Trump subestimou a capacidade militar e a resistência do Irã, mesmo com o golpe de decapitação tendo assassinado o líder supremo Ali Khamenei e altos mandos militares. O Irã não capitulou: reagiu com uma saraivada de mísseis, inclusive hipersônicos, e drones, contra as bases e os interesses americanos no Golfo e contra Israel, e cumpriu o que prometera: fechou o Estreito de Ormuz.

A tentativa de repetir no Irã a investida que funcionara na Venezuela saiu pela culatra, com Washington tendo de esvaziar bases às pressas, aviões derrubados, radares estratégicos destruídos e um porta-aviões em fuga por causa de um “incêndio na lavanderia” – e o Domo de Ferro israelense virou peneira.

Com o veto da China e Rússia à resolução ‘Líbia 2’ – autorizar os “países dispostos” a atacar o Irã a pretexto da abertura do Estreito de Ormuz e com a recusa dos europeus em entrar no mesmo atoleiro em que Trump se meteu, é que foi aberto o caminho para o cessar-fogo e as negociações.

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