A Sabesp obteve lucro líquido ajustado de R$ 1,9 bilhão no quarto trimestre de 2025, referente às suas operações regulares, sem considerar a venda de ativos, segundo a Folha de SP, via Estadão. O valor ficou praticamente igual ao do mesmo período de 2024 e evidencia que a privatização, ocorrida em 2023, a empresa continua garantindo lucros bilionários a seus acionistas e controladores.
O EBITDA ajustado – indicador que mede o resultado da operação da empresa, antes de juros, impostos e outros efeitos contábeis – somou R$ 3,4 bilhões, com alta de 13% em relação ao mesmo período do ano anterior. O avanço foi impulsionado pela redução de cerca de 10% nos custos e pelo aumento de 3% no volume faturado, segundo a Sabesp.
A receita líquida ajustada da companhia cresceu 2,1%, alcançando R$ 5,7 bilhões. O aumento se deve, segundo seu diretor financeiro, Daniel Szlak, a medidas adotadas após a privatização, como o fim de descontos concedidos a grandes clientes, entre eles hospitais, condomínios, hotéis e indústrias, além da ampliação da base de consumidores. Na prática, essas mudanças ajudam a impulsionar a arrecadação da companhia, inclusive por meio da revisão de benefícios antes aplicados a serviços essenciais.
No acumulado de 2025, a Sabesp elevou seu lucro líquido ajustado em 22,1% na comparação com 2024, alcançando R$ 6,3 bilhões. De acordo com Szlak, o resultado foi impulsionado principalmente pela redução de 13% nos custos ao longo do ano, um corte que, na prática, ampliou a rentabilidade da empresa mesmo em um cenário de juros elevados.
O resultado operacional da Sabesp – que indica quanto a empresa gera com sua atividade principal – somou R$ 13,2 bilhões em 12 meses, alta de 16,6% em relação ao ano anterior. Já a receita líquida ajustada cresceu 2,2% em 2025, chegando a R$ 22,2 bilhões. De acordo a companhia, o avanço foi puxado pela entrada de novos consumidores, mas também ocorre em meio a mudanças que ampliam a arrecadação.
No entanto, esse discurso omite aspectos relevantes. O aumento da arrecadação também está ligado a reajustes tarifários. Em janeiro, a Sabesp elevou a tarifa de água e esgoto em 6,11%, índice acima da inflação acumulada no período, contrariando promessa do governador Tarcísio de Freitas. Em entrevistas à imprensa, ele afirmou que os valores dos serviços seriam reduzidos após a venda da empresa. A companhia também promoveu a revisão de benefícios, com impacto direto sobre os consumidores.
LÓGICA PRIVATISTA
Ao mesmo tempo, os cortes de custos incluem demissões e a ampliação da terceirização, medida que, além de afetar a qualidade dos serviços, agrava os riscos à segurança dos trabalhadores. Um exemplo recente ocorreu em Mairiporã, na Grande São Paulo, onde o rompimento de uma caixa d’água provocou uma enxurrada durante uma obra. O acidente resultou na morte do trabalhador terceirizado Francisco Vieira, de 44 anos, arrastado pela água. Outras sete pessoas ficaram feridas e casas foram destruídas.
“O que se observa é uma lógica cada vez mais presente após a privatização: reduzir custos à custa da segurança e da dignidade de quem trabalha. Na prática, o que aparece é a exploração de mão de obra barata, muitas vezes terceirizada, sem as garantias necessárias para exercer suas funções com segurança”, denuncia o Sintaema. “O sindicato seguirá acompanhando o caso de perto e continuará denunciando a postura de descaso da gestão da Sabesp – tanto com seus trabalhadores diretos quanto com aqueles que prestam serviço à empresa por meio de contratos terceirizados”, assegura a entidade.
Enquanto isso, há relatos de demora na execução de serviços básicos, como novas ligações, o que coloca em dúvida o discurso de maior eficiência. Somam-se a isso os impactos ambientais após a privatização, com vazamentos e despejo de esgoto não tratado em rios e praias, episódios que têm levado a empresa a sucessivas autuações por órgãos de fiscalização. De acordo com levantamento do Metrópoles, obtido por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI), a Sabesp foi multada 57 vezes pela Cetesb entre janeiro de 2024 e julho de 2025.
No período, as autuações ultrapassam R$ 11,4 milhões. Mas, a companhia quitou apenas 1,9% desse total; outros 10,2% ainda não foram pagos, enquanto a maior parte – 87,2% – permanece em disputa, com recursos administrativos apresentados pela Sabesp na tentativa de anular ou reduzir as multas.
Na prática, o avanço financeiro da empresa ocorre em paralelo ao aumento das tarifas, à intensificação dos cortes de custos e à ampliação de riscos operacionais, com impactos diretos sobre trabalhadores, consumidores e o meio ambiente. O conjunto dos dados aponta que a busca por maior rentabilidade vem sendo acompanhada por pressões sobre a qualidade do serviço e pela transferência de custos à população, evidenciando os efeitos nocivos da privatização sobre um serviço essencial.











