
Três atiradores deram cinco tiros no senador. Duas balas atingiram o peito do parlamentar do PDT
O senador Cid Gomes (PDT-CE) recebeu alta médica e deixou o hospital no domingo (23). Ele continuará a se restabelecer em casa, em Fortaleza, mesmo com duas balas alojadas, uma delas no pulmão esquerdo. Os médicos decidiram não retirá-las porque os projéteis, de calibre “ponto 40”, não oferecem risco à vida do senador.
Ele foi baleado na quarta-feira (19) por milicianos amotinados num quartel da PM de Sobral. Cid recebeu os tiros quando tentava, junto com uma multidão de sobralenses, desobstruir a entrada do quartel amotinado por encapuzados para que os policiais pudessem entrar para trabalhar.

O governo do Ceará havia feito uma proposta de reajuste de 43%, elevando o salário inicial de um soldado de R$ 3.154,00 para R$ 4.500,00. O reajuste, semelhante ao que foi aceito pela PM de Minas Gerais, previa um escalonamento em três parcelas iguais. Houve negociações e o governo aceitou aumentar a primeira parcela para 50%.
Além disso, foi aceita também a incorporação das gratificações aos salários. Os policiais, através de suas entidades, aceitaram a proposta, que foi homologada pela Assembleia Legislativa.
Repentinamente, alguns políticos bolsonaristas ligados à corporação romperam o acordo e incitaram à radicalização.
Homens à paisana e encapuzados, muitos deles ex-integrantes expulsos da corporação, como denunciou o senador Elmano Ferrer (Podemos-PI), que estava no Ceará para ajudar nas negociações, começaram a aterrorizar a população obrigando o comércio a fechar as portas, agrediram policiais e os retiraram à força das viaturas, ocuparam os quartéis e passaram e esvaziar os pneus de todas os carros da polícia.
O senador Major Olímpio (PSL-SP), que também estava no Estado, criticou a atitude, dizendo que “isso não é conduta de Polícia”. “Não posso concordar com movimento como eu vi, policiais encapuzados feito bandidos black blocs, viaturas arranhadas e depredadas, viaturas de corporações policiais e bombeiros sendo arrebatadas na rua por pseudo policiais mascarados armados”, lamentou.

Nesses cinco dias de motim, mais de 100 pessoas foram assassinadas no Ceará, segundo a Secretaria de Segurança do estado. Em períodos normais, esse número fica em torno de 30 mortes. Cinco cidade suspenderam o carnaval. Na tarde da sábado um soldado da PM matou a tiros um jovem de 21 anos, após uma discussão e briga numa festa de carnaval em Aracati, distante cerca de 184 km da capital.
A prefeitura da cidade turística tinha contratado segurança particular para garantir os festejos de momo, mas, diante do ocorrido, a decisão tomada foi o cancelamento de todas as atividades do carnaval. O rapaz morto foi identificado como Carlos Felipe Ferreira Melo, com passagem pela polícia por roubo e posse de droga. O policial prestou depoimento na delegacia e sus arma foi apreendida.
A atitude do senador Cid Gomes foi tomada após ser solicitado pela população de Sobral, que estava aterrorizada com as atitudes alucinadas dos amotinados. Ele foi até o local bloqueado, o 3º MPM de Sobral. Do portão, ele pediu para conversar com os amotinados e não foi atendido. Com um megafone na mão, ele pediu para que os ocupantes saíssem do batalhão.

No momento em que ele falava, um encapuzado correu em sua direção e o agrediu com um soco na cara do senador. Neste momento, Cid percebeu que com milicianos fascistas desse tipo, não haveria diálogo. Subiu na retroescavadeira e tentou retirar a cerca da frente do quartel. Neste momento, três amotinados, encapuzados – ou com capacete – atiraram no senador. Foram cinco tiros. Dois deles acertaram o peito do parlamentar.
Um dos políticos que havia incitado à radicalização, o Sargento Ailton, que é vereador em Sobral, estava no local de onde partiram os tiros no senador. Ele acabou sendo expulso de seu partido, o Solidariedade, por decisão de sua direção nacional, por ter participado da tentativa de assassinato do ex-governador Cid Gomes.

Logo que se viu o sangue na camisa do senador, alguém gritou: “mataram o Cid!”. Neste momento, os amotinados saíram correndo em desespero e os populares, junto com a tropa de choque, que estava do lado de fora do quartel, puderam entrar no local.
A partir daí, os milicianos e seus protetores começaram a espalhar a versão de que as balas eram de borracha. A notícia foi prontamente desmentida pelos médicos que socorreram o senador. No sábado (22) nova perícia confirmou que os projéteis era de calibre “ponto 40”.
Três outros incitadores bolsonaristas, o capitão Wagner, que é deputado federal, o ex-deputado cabo Sabino e a deputada federal do PSL do Rio, Major Fabiana, que se deslocou para agitar no Ceará, difundiram a versão de que o senador Cid Gomes tentou jogar a retroescavadeira nos policiais e disseram que os cinco tiros foram “em legítima defesa”.
As cenas desmentem essa narrativa. Elas mostram claramente que Cid Gomes estava puxando a cerca para trás quando foi baleado.

Os provocadores abriram um Boletim de Ocorrência com a versão cínica da legítima defesa. A articulação bolsonarista para desestabilizar a situação no Ceará ficou explicitada às claras quando, em live, Jair Bolsonaro, seguido por seu serviçal, Onyx Lorenzoni, deram força para a narrativa de legítima defesa, inventada por seus prepostos cearenses.
Na segunda-feira (24) o ministro da Justiça, Sérgio Moro, estará em Fortaleza.

O ex-ministro e ex-governador do Ceará Ciro Gomes (PDT), que vem acompanhando o irmão baleado, disse, em entrevista do hospital, no dia seguinte ao atentado, que “isso que aconteceu aqui não está isolado do que está acontecendo no Brasil. Nós estamos num momento de destruição do estado de direito democrático, liderada por um presidente boçal, canalha e de uma família de canalhas”.
“Porque, se algum policial atirou, apertou o gatilho, ele não faria isso não fosse esse clima de absoluto desrespeito às regras da convivência democrática, que é claramente estimulado pelo presidente da República, Jair Bolsonaro, e pela sua família de canalhas”, denunciou Ciro.
Neste domingo (23), ele rebateu outra provocação do vereador Carlos Bolsonaro, filho de Jair Bolsonaro, que em uma postagem nas redes sociais chamou Ciro e seu irmão Cid Gomes de “pessoal do nariz nervoso”. A mensagem foi publicada no sábado 22, ao comentar um vídeo no qual o senador Randolfe Rodrigues (PDT-CE) demonstra apoio ao senador do PDT, que foi baleado com dois tiros na quarta-feira 19 ao tentar enfrentar o motim.
“Deslumbrado, nós aqui no Ceará somos e seremos o pior pesadelo de sua família de canalhas, milicianos e peculatários corruptos. Quanto dinheiro roubado o Queiroz depositou na conta da mulher de seu pai, o canalha maior?”, publicou Ciro Gomes no Twitter neste domingo 23.

O motim dos PMs teve início na tarde de terça-feira (18), mas ganhou corpo a partir de quarta. Mais de 120 assassinatos já foram registrados durante o motim de integrantes da PM. Por conta da crise, o estado solicitou e recebeu reforço de tropas da Força Nacional e do Exército Brasileiro.
No momento, a segurança no estado é realizada por 2,5 mil soldados do Exército, 150 agentes da Força Nacional, 212 policiais rodoviários federais, policiais civis PMs de batalhões que não aderiram à paralisação. Apesar de todo este efetivo federal, os quartéis ainda continuam ocupados. O governo anunciou no sábado a demissão de 168 participantes do motim. Neste domingo (23) o governo anunciou a abertura de processo contra Cabo Sabino, suspendendo prerrogativas e mandando reter arma e distintivo do ex-deputado.
SÉRGIO CRUZ
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